Outubro de 2017. Centenário da Revolução Bolchevique

Em outubro de 2018 a Revolução Bolchevique que introduziu o regime marxista na União Soviética completará cem anos. Não será uma data de celebração e sim de recordação da memória de como um punhado de fanáticos russos atropelou o recém-nascido projeto democrático em andamento implantado em março do mesmo ano.

Abrindo um parênteses explicativo, o termo ‘bolchevique’ significa ‘maioria’, em contraposição ao termo ‘menchevique’, que significa minoria. A partir de 30 de junho de 1903, quando o Partido Operário Social-Democrata (POSDR, na sigla russa), durante o seu segundo congresso, em Bruxelas, elegeu Georgi Plekhanov como seu presidente, o partido começou o processo de racha completado em 1907. O resultado foi a emergência de duas principais facções: a dos bolcheviques e a dos mencheviques. Embora mantivessem o denominador comum de derrubar o regime do czar e destruir o capitalismo, os mensheviques, liderados por Yuliy Osipovich Tsederbaum (1873-1923), conhecido como Julius Martov, eram bem mais moderados do que os bolcheviques, liderados por Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924), conhecido como Lenin, pois pensavam democraticamente, tinham escrúpulos quanto ao uso de violência, e aceitavam negociar com os liberais.

Não foram os bolcheviques que derrubaram a monarquia russa e sim um grupo de descontentes que incluía liberais e mencheviques. O líder menchevique que teve um papel importante na Revolução de Março de 2017 era Nikolay Chkheidze (1864-1926), um professor que havia sido eleito para o Duma (o parlamento russo) durante a década de 1880s, e que ocupava o cargo de Presidente do Petrograd Soviet (Presidente da câmara de vereadores de Petrograd ou São Petersburgo).

Lenin encontrava-se hospedado numa pensão em Zurique quando ficou sabendo da queda do regime do czar. A fim de que ele, sua esposa e seus aliados mais chegados pudessem retornar à Rússia, era necessário cruzar a Alemanha, uma nação inimiga da Rússia. Como os seus pedidos de ajuda ao governo da Suíça e ao Governo Provisório da Rússia não deram resultados, Lenin então usou uma artimanha de influência e mentiras. Ele telegrafou a um amigo em Estocolmo pedindo ao mesmo que mandasse uma mensagem a Chkheidze, demandando a ajuda deste para o retorno de mencheviques exilados. O estratagema deu resultado. O embaixador da Alemanha na Suíça foi contatado, o qual conseguiu um salvo-conduto para que os exilados atravessassem a Alemanha, com a condição de que ninguém desembarcasse naquele país nem se comunicasse com ninguém de fora. Escoltados por um representante do governo suíço, Lenin, a esposa e cerca de trinta exilados russos, nenhum deles menchevique, partiram da Suíça no dia 8 de abril, chegando a Petrograd no dia 16 de abril.

Ao chegar a Petrograd, Lenin encontrou-se com Chkheidze dentro do antigo palácio do czar, quando este lhe disse:

“Camarada Lenin”, “em nome do Petrograd Soviet e de toda a revolução, seja bemvindo à Rússia… mas nós julgamos que levando em conta a situação presente, a principal tarefa da democracia revolucionária é defender a nossa revolução contra todo tipo de ataque, tanto de dentro quanto de fora… Nós esperamos que se junte a nós na luta por este objetivo”.

Lenin não respondeu a Chkheidze, mas caminhou na direção de uma janela e de lá ele falou para uma pequena multidão que se encontrava do lado de fora. No seu discurso ele afirmou que a revolução que haviam feito era apenas o primeiro passo de outra que estava por vir a fim de abrir as cortinas da nova época. E depois de sair do palácio, Lenin passou a atacar sem descanso o Governo Provisório.

O ocorrido acima é uma mostra das táticas de mentir, enganar e trair que caracterizaram o ethos dos revolucionários bolcheviques. Entretanto, muitos outros pormenores acerca de Lenin foram descobertas desde a que os arquivos soviéticos foram disponibilizados a partir da última década do século XX. Um dos fatos mais relevantes foi o fato de Lenin ter recebido dinheiro do inimigo (Alemanha), tornando-se de fato um traidor de seu próprio país.

Um dos autores que fez bom uso dos arquivos soviéticos disponibilizados é Sean McMeekin, um premiado historiador americano e professor da Universidade de Kok, na Turquia. Ele acaba de publicar ‘The Russian Revolution. A New History’, pela editora Profile. Segundo McMeekin, Lenin tido pouco impacto político na Rússia se não tivesse recebido ajuda financeira da Alemanha. Quando os bolcheviques retornaram do exílio eles compraram uma gráfica por 250 mil rublos (equivalente a cerca de 13 milhões de dólares em dinheiro de hoje), o que permitiu que imprimisse uma quantidade inimaginável de materiais de propaganda revolucionária. É óbvio que tal propaganda disseminou sedição entre a gentalha ignorante tanto da cidade quanto do campo. O dinheiro inimigo permitiu que os bolcheviques batessem de frente contra o Governo Provisório. Entretanto, o contrapeso que mudou o jogo a favor de Lenin foi a promessa bolchevique de acabar com a guerra já, mesmo passando por cima do interesse nacional da Rússia. Segundo McMeekin, Lenin sabia que não poderia vencer a eleição marcada para janeiro de 1918, e portanto planejou uma revolução para outubro de 1917. A Revolução de Outubro, como ficou chamada, derrubou o Governo Provisório do então Primeiro Ministro Alexander Fyodorovich Kerensky (1881-1970).

O historiador britânico Robert Service (1947-), um dos maiores especialistas da história da União Soviética e autor de extensas biografias de Vladimir Lenin, Joseph Stalin e Leon Trotsky. Conforme escrevi na minha resenha da trilogia de Service (PortVitoria 4, Jan-Jun 2012), a minha resenha da trilogia de Service):

“Dentro da característica humana de ‘querer melhorar o mundo’ há duas distintas predisposições, uma revolucionária e outra reformista. A predisposição revolucionária difere da predisposição reformista pelo fato de aceitar a violência como meio de se chegar ao fim desejado, e inclui valores totalmente alheios ao humanitarismo. Tal comprometimento cego com o fim faz da predisposição revolucionária um distúrbio de personalidade. Como mostra a psicologia, os distúrbios de personalidade são invariavelmente complexos, isto é, tendem a vir acompanhados de outros distúrbios. A predisposição revolucionária era denominador comum de Lênin, Stalin e Trotsky. Esta foi alimentada pelo Marxismo, doutrina que passou a dominar no meio intelectual da Rússia desde a década de 1890, apesar de que a Rússia daquela época, e mesmo a das duas primeiras décadas do início do século vinte, tinha uma economia medieval, bem diferente do sistema capitalista que segundo Marx incitaria a revolução dos trabalhadores. As três biografias estão lotadas de exemplos de comportamentos que evidenciam valores marginais e distúrbios psicológicos”.

Que o centenário da Revolução Bolchevique seja uma lição negativa de história para todos os que dão valor à democracia e à liberdade.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é brasileira residente na Inglaterra e editora da revista PortVitoria, de generalidades, cultura e política (www.portvitoria.com). O seu e-book de ensaios O homem razoável (2016) encontra-se à venda na Amazon

 

 

Recessões e surtos de socialismo

Recessões e surtos de socialismo

Desde a Grande Depressão que se instalou nos Estados Unidos e no mundo após a Sexta-Feira Negra de novembro de 1929, todas as recessões econômicas provocaram surtos de solicialismo nos países de economia capitalista. A recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos não foi diferente. Uma ação típica do socialismo foi a intervenção governamental para salvar os bancos em dificuldades financeiras. As normas de mercado que regem o capitalismo apontam outro tipo de ação, no caso, deixar que os bancos solucionem eles próprios seus problemas, o que os torna mais resilientes a ameaças futuras similares.

A mesma recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos chegou à Europa e América Latina em 2009, onde também desencadeou surtos de socialismo. Na Europa, os cidadãos dos países cujas economias mais encolheram, como a Grécia, Espanha, França e Itália, continuaram esperando o mesmo nível de assistência social da época favorável, dificultando a implementação de medidas econômicas de prazo mais longo. A recessão econômica na América Latina é possivelmente a mais terrível do mundo. Só quem ganhou com ela foram os partidos de esquerda como o Partido dos Trabalhadores do Brasil, que prometeu manter os programas de assistência social criados durante o boom dos primeiros anos do século XXI.

Em 4 de julho de 2012, Stuart Jeffries escreveu na versão online do jornal de esquerda britânico The Guardian um artigo intitulado ‘Why Marxism is on the rise again’ (Porque o Marxismo está subindo de novo). Jeffries chama a atenção para o fato de que os jovens são os mais interessados no renascer do Marxismo. O apelo socialista não se restringe aos partidos socialistas. O atual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, escolhido em setembro de 2015, é um defensor aberto do socialismo. Corbyn foi citado nesse mesmo ano pelo jornal inglês The Mirror como tendo afirmado que o socialismo ‘é uma maneira óbvia de viver. As pessoas cuidam uns dos outros, todo mundo é cuidado, e todos cuidam de todos. Óbvio não?’ (… ‘is an obvious way of living. You care for each other, you care for everybody, and everybody cares for everyone else. It’s obvious, isn’t it?’)

Os especialistas creem que a economia global se encontra numa encruzilhada que tanto pode levar ao retorno do crescimento quanto a mais recessão. A melhor alternativa prevê um crescimento continuado porém pequeno, pelo menos no tocante aos próximos anos. Entretanto, o motor desse crescimento não é a besta do socialismo e sim a besta do livre mercado.

***Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.

 

 

Antonio Gramsci (1891-1937) o guru da esquerda acadêmica

Joaquina Pires-O`Brien

Segundo o filósofo inglês Roger Scruton (1944 -) o surgimento da Nova Esquerda envolveu a construção de uma marca nova, diferente da marca da Velha Esquerda. Entretanto, a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar peculiar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo e exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos de idade. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

Scruton identificou dois importantes motivos para a escolha de Gramsci. O primeiro foi a ideia da ‘práxis  revolucionária’ de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia de dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

Gramsci foi transformado no principal guru da Nova Esquerda, venerado nas academias da América Latina, da África e do resto do mundo. Gramsci é considerado um ‘Marxista Hegeliano’ de segunda geração, juntamente com o pensador e crítico literário húngaro György Lukács (1885-1971) e o pensador alemão Karl Korsch (1886-1961). Todos três eram ligados a partidos comunistas vinculados ao Comintern soviético. A aparente preferencia brasileira por Gramsci deve-se ao fato dele ter escrito em italiano, língua que os falantes de português conseguem entender com facilidade, bem como por ter-se preocupado com a educação e também pelo seu livro ‘O príncipe moderno’, uma paródia de O príncipe de Nicolau Machiavelli onde ele oferece conselhos às lideranças da esquerda sobre como alcançar e segurar o poder.

No seu livro Sobre a educação, Gramsci escreveu: “Os novos curriculums devem abolir por completo os exames; pois fazer um exame hoje é muito mais uma questão de sorte do que antigamente. Seja quem for o examinador, uma data é sempre uma data e uma definição é sempre uma definição. Mas, é um julgamento estético ou uma análise filosófica?” Há um paradoxo reconhecido nessa obra de Gramsci na busca de uma política educativa radical através de um currículo e pedagogias tradicionais. “Se as escolas são um principal instrumento hegemónico da existência de regras na classe, como pode uma mudança contra-hegemónica ocorrer senão através de uma reforma radical e de uma pedagogia liberal?”, perguntou Entwhistle.

É de Gramsci a expressão ‘hegemonia cultural’ um dos mais batidos termos do vocabulário da Esquerda latina, uma referência domínio domínio que a classe dominante exerce na sociedade através da cultura. Em Homens ou Máquinas (1916) Gramsci escreveu:‘Um proletário, por mais inteligente que seja, não importa o quão apto seja para se tornar um indivíduo de cultura, é forçado a desperdiçar suas qualidades em algum outro tipo de atividade ou então a se tornar um rebelde e autodidata – i.e., na mediocridade (tirando algumas exceções); um homem que não pode dar tudo o que é capaz caso tivesse se reforçado e formado pela disciplina da escola. A cultura é um privilégio. A educação é um privilégio. E nós não queremos que seja assim. Todos os jovens devem ser iguais perante a cultura. O Estado não deve financiar com o dinheiro de todos os cidadãos, a educação dos filhos de pais abastados, seja lá quão medíocres ou deficientes eles sejam, enquanto exclui os mais inteligentes e capazes que são filhos de proletários. O curso colegial e o ensino superior devem ser facultados àquele que conseguem demonstrar que os merecem’.

Em 1913 Gramsci ingressou na Universidade de Turim onde começou a estudar literatura e linguística, mas deixou os estudos em 1915 por motivos financeiros e de saúde. Ainda em 1913 Gramsci se associou ao Partido Socialista Italiano, época que coincidiu com o começo da indústria automobilística italiana, onde as fábricas como a Fiat e a Lancia começaram a recrutar operários nas regiões mais pobres. Em 1914 ele começou a publicar artigos em jornais socialistas como ‘Il Grido del Popolo’ e logo granhou uma reputação jornalística. Em 1916 ele tornou co-editor da edição Pedmont do Avanti!, o jornal oficial do Partido Socialista, e em 1919 ele foi um dos fundadores do jornal semanal ‘L’Ordine Nuovo’ (A Nova Ordem), junto com três outros colegas, que foi considerado por Vladimir Lenin como sendo o de orientação mais próxima dos Bolcheviques. Desavenças entre os editores do ‘L’Ordine Nuovo’ e a central do Partido Socialista Italiano causaram uma ruptura e em 21 de janeiro de 1921 eles fundaram o Partido Comunista Italiano (Partito Comunista d’Italia – PCI). Gramsci foi um dos líderes do Partido, sendo entretanto subalterno a Bordiga.

Em 1922 Gramsci foi para a Rússia onde conheceu Julia Schucht, uma jovem violinista, que lhe deu dois filhos, o segundo dos quais ele não chegou a conhecer. A viagem de Gramsci coincidiu com a implantação do fascismo na Itália e ele foi instruído a organizar uma aliança da Esquerda contra o fascismo, o que era contrário aos desejos dos outros líderes do PCI. Em 1924 Gramsci foi eleito deputado por Veneto, e logo em seguida fundou L’Unità (União), o porta-voz do partido, o qual ele também passou a liderar. Em 1926 Gramsci escreveu uma carta ao Comintern onde afirmou que não concordava com a oposição de Leon Trotsky mas também fez críticas ao mesmo. O representante do PCI em Moscou, Togliatti, abriu a carta em primeira mão e decidiu não entrega-la, o que causou uma fissura permanente entre ele e Gramsci. Gramsci morreu aos 46 anos de idade numa prisão do regime fascista de Mussolini. A obra que deixou foi dividida em dois grupos, a dos anos revolucionários e a dos anos na prisão. O pensamento de Gramsci relativo à educação tem recebido interpretações diferentes mesmo dentro da própria esquerda.

A avaliação que Scruton fez de Gramsci, é de que a obra deste é uma espécie de ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta. Mesmo assim, Scruton reconheceu em Gramsci uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

 Referências

Entwistle, Harold (1979). António Gramsci: Conservative Schooling for Radical Politics. London: Routiedge & Kegan Paul;1979.

Scruton Roger. Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda). London, Bloomsbury, 2015.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien acaba de publicar o ebook O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas como: o instinto da massa, a voz do povo, a aprendizagem ao longo da vida ou ALV, a utopia, as ‘duas culturas’, o pós-modernismo, religiões e crenças religiosas e o 9/11. O livro de JPO é disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo. É também a editora fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo, que sai duas vezes ao ano: www.portvitoria.com.

 

 

 

A ‘impessoa’ de Orwell e Stalin

A ‘impessoa’ é uma das diversas sátiras de George Orwell ao regime despótico de Stalin, descrita no seu livro 1984. Uma ‘impessoa’ é alguém que foi riscado do mapa em represália por ter contrariado a ordem vigente em Oceania, recriando, na ficção, uma prática real na União Soviética de Stalin, voltada a punir impertinências e, ao mesmo tempo, impedir que a memória de um indivíduo seja usada para incitar insurgência conta o Partido. Syme era um entusiasta do Partido, dedicado ao desenvolvimento da nova linguagem (novilíngua) e era, também, um membro da Comissão de Xadrez. Um dia, ele falta ao trabalho, e, quando torna a faltar nos próximos dias, alguns colegas comentam a sua ausência. Entretanto, quando diversos dias passam sem que ele retorne, ninguém mais menciona o seu nome. Winston, o protagonista, é a única pessoa que desconfia que algo pode ter acontecido. Ele resolve ir até o vestíbulo do Departamento onde havia uma placa com os nomes dos membros da Comissão de Xadrez. Examina a placa e não nota nada de anormal, nenhum nome riscado. Numa segunda inspeção, nota que havia um nome a menos na placa. Todos os registros da existência de Syme desaparecem, e ele perde, até mesmo, o passado da própria existência. A missão do Ministério da Verdade, onde Winston trabalhava, era destruir os registros dos prisioneiros executados e substituí-los por outros falsos.

A verdade sobre o regime de Stalin

Nikkita Krushchev (1894-1971), que substituiu Stalin após a morte deste em 1953, expôs os terríveis crimes deste e descreveu-o como ‘violento’, ‘caprichoso’ e ‘despótico’. Denunciou os grandes purgos da década de 1930 e mostrou como no final da mesma quase todos os individuos que tinham conexões com a revolução de 1917 foram mortos em execuções sumárias após serem coagidos a confessar.

O que aconteceu a Nikolai Yezhov, Chefe da Polícia Secreta soviética e o braço direito, dá uma ideia da maldade de Stalin. O próprio Yezhov era um pau-mandado de Stalin e o seu trabalho consistia de encontrar formas de implicar os inimigos de Stalin a fim de que fossem processados em julgamentos shows e em seguida executados. Implicado nas intrigas do governo, Yexhov caiu na desgraça, e quando isso aconteceu, Stalin não se contentou em mandar executá-lo mas ordenou que os registros que o ligavam a Yexhov fossem destruídos. Entretanto, uma fotografia onde Stalin e Yexhof apareciam lado a lado escapou da destruição. e A mesma fotografia tinha uma correspondente no arquivo oficial, embora sem a imagem de Yezhov.

 

 

Figura 1. Uma ‘impessoa’ soviética que evapora: a imagem de Nikolai Yezhov foi removida depois que ele virou um desafeto de Stalin e foi executado em 1940. (Fonte: Wikipédia. https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Newspeak_words).

 

Fazer de alguém uma ‘impessoa’ é um castigo pior do que a morte pois em adição a matar a pessoa, destrói o registro de sua vida. A morte é banal uma vez que todos morrem. A vida sim é que é importante pois através dela o ser humano pode fazer uso integral de suas capacidades.

Sem picadinho, sem ‘newspeak’

Resenha do livro Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda), de Roger Scruton. London, Bloomsbury, 2015.

O que é Esquerda? O que é Direita? O que é Nova Esquerda? Essas são algumas das perguntas que Roger Scruton explora no seu livro Fools, frauds and firebrands (Tolos, fraudes e incendiários, inédito em português). Esse título abrasivo está, sem dúvida, relacionado com o permanente confronto do autor com a Nova Esquerda. Nele, Scruton descreve como os acadêmicos e outros intelectuais da Nova Esquerda se empoderaram, unindo-se contra o inimigo comum – o capitalismo e sua burguesia –, bem como adotando um linguajar idiossincrático próprio, semelhante ao newspeak da fictícia sociedade totalitarista de George Orwell. Contrariamente àquilo que o provocante título possa sugerir, o tratamento de Scruton à Nova Esquerda é mais bondoso do que o tratamento que ele recebeu dos partidários desta, os quais puseram nele o rótulo calunioso de ‘sectarista da direita’. No seu estilo franco, sem picadinho ou newspeak, Scruton disseca o irracionalismo por detrás do ataque da Nova Esquerda a tudo aquilo que torna a sociedade possível – propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo e instituições –, mostrando que tal ataque tem sido feito na crença de que o mesmo vai levar a uma sociedade com absoluta igualdade. Ele também sublinha a injustiça da Nova Esquerda em comparar a sua perfeita sociedade imaginada com a sociedade real.

Qualquer pessoa de fora que esteja familiarizada com o liberalismo britânico ficaria chocada em descobrir que o livro de Scruton, Thinkers of the New Left, publicado em 1985, sua primeira tentativa de perseguir este assunto, foi retirado das livrarias pela editora devido à pressão recebida do establishment acadêmico. Qualquer semelhança disso com os julgamentos de hereges do Antigo Regime deve-se ao fato de que a ideologia da Nova Esquerda gozou um status dogmático parecido. Entretanto, o dogmatismo da Nova Esquerda dissolveu-se três anos depois com a queda do Muro de Berlim, que desencadeou o processo de desintegração da antiga União Soviética. Scruton conecta os dois eventos quando afirma que decidiu reescrever o livro em 1989, momento no qual ‘as pessoas começaram a perceber que nem tudo o que foi dito, pensado ou feito em nome do socialismo foi intelectualmente respeitável ou moralmente certo’.

Num capítulo especial, Scruton examina como a Nova Esquerda desenvolveu a sua ‘consciência revolucionária’ que causou as guerras da cultura da década de 1980. O processo retroage à década de 1960, quando o desaparecimento da real classe dos trabalhadores na Grã-Bretanha e noutras partes do Ocidente criou as condições perfeitas para a Nova Esquerda emergir. Primeiro, os intelectuais procuraram ser reconhecidos como membros honorários da classe dos trabalhadores e, em seguida, começaram a fazer uma revolução em nome desta, a ser travada no mundo dos livros. Eis como Scruton a descreve:

Pela primeira vez era possível observar de perto a ‘consciência revolucionária’, sem incorrer em nenhum risco de violência, tirando a violência das palavras. Em particular, era possível observar a rapidez e a destreza com que a mensagem da esquerda era envolvida em dogma, quão energeticamente os novos revolucionários levavam adiante o negócio de inventar perguntas falaciosas, polêmicas inúteis e pedantismos arcanos, a fim de desviar quaisquer interrogações intelectuais para longe das perguntas fundamentais, cuja necessidade emocional implorava um favorecimento, incluindo a questão da própria revolução: o que é exatamente uma revolução e para que serve?

Ao descrever o surgimento da Nova Esquerda na Grã-Bretanha, Scruton reflete sobre as idiossincrasias da sociedade britânica que facilitaram o processo, tais como a tradição britânica de tratar os historiadores como líderes no mundo das ideias e a sua tradição ímpar de crítica social e literária. Ele lembra mudanças nas instituições de ensino superior britânicas tão cedo quanto 1964, as quais, em sua opinião, marcaram a transição da Velha Esquerda para a Nova Esquerda. Scruton também descreve as opiniões dos socialistas britânicos mais influentes da época, tais como escritor e crítico galês Raymond Williams (1921-88), e os historiadores socialistas que forneceram versões socialistas da Revolução Industrial. Essas mudanças marcaram o início da revolução intelectual pelo controle da cultura. Na Grã-Bretanha, tais mudanças concentraram-se nos departamentos de humanidades, nos quais o antigo currículo, baseado nos padrões objetivos do Iluminismo, foi aos poucos substituído por um currículo pós-moderno guiado pelo consenso.

Scruton também descreve os primeiros dias da Nova Esquerda em outros países. Na Alemanha, os principais condutores da Nova Esquerda foram os professores e pensadores afiliados ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. A Escola de Frankfurt, como é melhor conhecida, foi a pioneira na ideia do ‘humanismo marxista’. Embora tivesse sido fechada em 1933 pelos nazistas, apenas três anos depois de ter sido fundada por Max Horkeheimer (1895-1973), ela sobreviveu através da cooperação com universidades nos Estados Unidos, voltando a funcionar em Frankfurt em 1951. Além de Horkeheimer, a Escola de Frankfurt incluiu muitos dos grandes nomes da Nova Esquerda como Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-80) e Theodor Adorno (1903-69). Scruton critica o fato de os membros da Escola de Frankfurt que tiveram a oportunidade de continuar as suas carreiras no ensino superior nos Estados Unidos não terem retribuído com a mesma moeda. Horkeheimer e Adorno deslancharam um ataque sem descanso ao Iluminismo, proclamando que o mesmo era um produto do raciocínio burguês, enquanto que Marcuse denunciou a ‘repressiva tolerância’ dos Estados Unidos e ‘o universo totalitário do racionalismo tecnológico’. Jürgen Habermas (1929-), o representante ainda vivo da Frankfurt School, é exonerado de culpa por ter sobrepujado a sua agenda absurda.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda nos Estados Unidos ressalta o pragmatismo de Richard Rorty (1931-2007) e de Edward Said (1935-2003), encapsulados por um conjunto de ideias relativistas segundo as quais ‘não importam as velhas ideias de objetividade e verdade universal, pois tudo o que importa é aquilo que foi concordado.’ Segundo Scruton, tanto Rorty quanto Said puseram dúvidas na mente americana e tentaram subtrair da herança cultural americana a crença em sua própria legitimidade. Rorty introduziu a ideia de um currículo novo e pós-moderno, para substituir o currículo antigo baseado no Iluminismo. No caso de Said, Scruton afirma que ele menosprezou e envenenou a maneira como o Ocidente retratou o Oriente, contudo nunca considerou a maneira como o Oriente retratou o Ocidente. Os ataques de Said incluíram não apenas os especialistas vivos, mas todo o saber ocidental, o que Scruton apresenta como uma evidência da miopia de Said. Entretanto, o que aconteceu no final das contas foi que o livro seminal de Edward Said, Orientalism, foi posteriormente exposto como sendo resultante de um estudo mal conduzido, quando Robert Irwing expôs seus erros, descuidos e mentiras descaradas. Scruton completa a sua crítica a Rorty e Said, mostrando os ótimos exemplos de Estudos Orientais que vieram do Iluminismo: a tradução francesa do livro As Mil e Uma Noites, feita por Antoine Galland em 1717, a tradução alemã da coleção de poemas persas West-Östlicher Diwan, feita por Johann Goethe, e a tradução inglesa do livro Rubaiyat, de Omar Khayan, por Edward FitzGerald. Scruton complementa seus exemplos, citando a dedicação de sir William Jones para preservar a poesia persa e árabe e a elaboração do seu estudo pioneiro sobre as línguas indianas.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda inclui a construção de sua própria marca, diferente da marca da Velha Esquerda. Ele também aponta duas coisas importantes que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda: o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos de idade. Houve motivos que fizeram com que escolhessem Gramsci em vez de outro qualquer. O primeiro foi a ideia da ‘práxis revolucionária’ de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia em dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

A existência de um espectro político, no qual a extremidade ‘Esquerda’ é o presumido domínio de todas as coisas ‘intelectualmente respeitáveis ou moralmente corretas’ e a extremidade ‘Direita’ o presumido domínio do oposto, é um disparate total para Scruton. Numa tentativa de jogar alguma luz sobre o tópico, Scruton mostra como os termos ‘Esquerda’ e ‘Direita’ se originaram, nos primeiros dias da França pós-revolucionária. Quando a possibilidade de transformar a França numa Monarquia Constitucional estava sendo considerada, os Estados Gerais, uma entidade representativa do clero (Primeiro Estado), da nobreza (Segundo Estado) e do povo comum (Terceiro Estado), que não se reunia desde 1614, foi reconvocada. Na Assembleia de 1789, os representantes do povo sentaram-se à esquerda do Rei Luís XVI, enquanto que os demais sentaram-se à sua direita. Esse evento marcou o início da associação da Esquerda com o povo e da Direita com a elite. Desde então, muitos truques foram empregados para esticar o significado da Esquerda para incluir anarquistas, marxistas dogmáticos, niilistas e liberais do estilo americano, e, para juntar, na Direita, fascistas, nazistas e liberais econômicos. Scruton fecha o seu argumento, relevando o denominador comum que une o comunismo e o fascismo:

O comunismo, como o fascismo, envolvia a tentativa de criar um movimento popular de massa e um Estado que fossem unidos sob um partido único no qual há uma coesão total em torno de um objetivo comum. Envolvia a eliminação da oposição, por qualquer meio, e a substituição da disputa ordenada entre partidos pela ‘discussão’ clandestina dentro de uma única elite governante. Envolvia assumir – ‘em nome do povo’ – o controle dos meios de comunicação e educação, e incutir uma base de comando através da economia.

Uma linguagem especial e idiossincrática é a outra característica que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda. Scruton a descreve como “um desdenhoso linguajar marxista criado para denunciar, exortar e condenar”. Ele também busca mostrar as similaridades entre o linguajar da Nova Esquerda e o newspeak, a língua oficial do país Oceania, no livro de Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Scruton descreve o newspeak como “uma nova língua fortificada, criada com o propósito de criar uma ‘política de verdade’ a ser empregada no lugar da verdade em si.” Esse linguajar, de acordo com Scruton, inclui o efeito maniqueísta em palavras, a fim de enganar as pessoas, fazendo com que pensem que só há duas alternativas, como na manipulação do significado de certas palavras como ‘capitalismo’ e ‘burguesia’. Ao apresentar a palavra ‘capitalismo’ como um sinônimo de exploração, a Nova Esquerda arranja uma desculpa para condenar economias livres. Ao apresentar a palavra ‘burguesia’ como ‘uma classe hegemônica de pessoas com propriedade que controlam os meios de produção e, por assim fazer, exploram a classe dos trabalhadores ou proletariado’, a Nova Esquerda justifica a sua chamada para a guerra entre classes. Scruton admite que muitas das coisas erradas da sociedade britânica identificadas pela Nova Esquerda são verdade, mas ele objeta à forma através da qual a Nova Esquerda descreve tais erros, arranjando as acusações de uma maneira tal que não deixa nenhum espaço para a defesa, quer pelas pessoas apontadas quer pelo sistema no qual tais erros estão inseridos.

O ponto central que Scruton acentua em Fools, frauds and firebrands é que a Nova Esquerda não está comparando coisa com coisa quando justapõe o seu projeto contra a Civilização Ocidental. A Grã-Bretanha pode ter muitas falhas, mas é uma sociedade real. Não é o caso do ‘Reino dos Fins’ (Kingdom of Ends), termo que Scruton usa para descrever a sociedade de perfeita igualdade imaginada pela Nova Esquerda.

Ele termina o seu livro defendendo a sua posição de que a Grã-Bretanha deve permanecer como é e apontando que quaisquer melhorias devem vir de dentro. Melhorias devem ser feitas através do aperfeiçoamento das sociedades civis, das instituições e da personalidade. Por sociedades civis, Scruton quer dizer os pequenos pelotões que existem em todo o país, tais como bandas de música, grupos de estudos, corais, clubes de críquetes, danças, clubes de férias etc. Como exemplos de instituições, Scruton cita organizações profissionais, tais como os ‘Inns of Court’, quatro organizações da profissão do direito na Inglaterra, embora essas sejam também sociedades civis. Por personalidade, Scruton quer dizer a agência e a responsabilização dos indivíduos e das instituições que os acolhem. A despeito de sua antipatia pela terminologia do espectro político, Scruton descreve o que a Direita representa:

A Direita baseia a sua defesa na representação e na lei. Advoga instituições autônomas que medeiam entre o Estado e o cidadão, e uma sociedade civil que cresce de baixo para cima sem pedir permissão aos seus governantes. Enxerga o governo da mesma forma que todas as questões responsabilizáveis: não como uma coisa, mas como uma pessoa. Tal governo responde a outras pessoas: ao cidadão individual, às corporações e a outros governos. É também responsabilizável perante a lei. Tem direitos contra os cidadãos individuais, mas também deveres para com os mesmos: é tutor e companheiro da sociedade civil, o objeto das nossas piadas e o ocasional recebedor da nossa irritação. Situa-se perante nós numa relação humana, e essa relação é mantida e vindicada pela lei, perante a qual apresenta-se como uma pessoa dentre outras, em pé de igualdade com aqueles que estão também sujeitos à sua soberania.

Tal Estado tem como acomodar e barganhar. Reconhece que é obrigado a respeitar as pessoas não apenas como um meio mas como fim por si próprias. Tenta não liquidar a oposição, mas acomodá-la, e os socialistas têm também um papel nesse processo, desde que reconheçam que nenhuma mudança, nem mesmo as mudanças em suas direções preferidas, é ou deve ser irreversível.

Muitas das ideias do livro Fools, frauds and Firebrands de Scruton serão cuidadosamente consideradas pelos seus admiradores do Leste Europeu e da América Latina, muito embora ele o tenha escrito pensando na Grã-Bretanha. Scruton deseja preservar a Grã-Bretanha, porque ele a ama e porque acredita que merece ser preservada. Ele também acha que, caso a ideologia da Nova Esquerda se torne realidade, o resultado será a escravidão. A chamada de Scruton para preservar a sociedade não exclui microajustes. Entretanto, antes de se decidir quais ajustes são necessários, as pessoas precisam compreender os dois componentes básicos da sociedade: o Estado e a sociedade civil. Na visão de Scruton, a sociedade civil é que deve aplicar mudanças ao Estado e não o contrário. Assim sendo, todas as mudanças devem vir de baixo para cima, a partir de mudanças dentro das pessoas. Somos nós que precisamos mudar para uma vida que leve ao autoconhecimento, o qual por sua vez nos permitirá reconhecer que a nossa felicidade depende do desejo das coisas certas, ao invés das coisas que capturam a nossa atenção ou que inspiram a nossa luxúria. Tais sugestões ressonam como ideias frequentemente associadas com a Esquerda e, por conseguinte, ilustram o contrassenso do espectro político.

Scruton não acha que tudo o que os pensadores da Nova Esquerda escreveram está errado. Em sua avaliação de Gramsci, por exemplo, embora Scruton tivesse qualificado a obra deste como uma ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta, ele reconheceu nele uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

Fools, frauds and firebrands de Roger Scruton é produto do embate de toda uma vida do autor contra a Nova Esquerda e a nova ordem de coisas que a Nova Direita buscou introduzir na Grã-Bretanha. Scruton viveu consideráveis tormentas em resultado desse embate, e isso pode explicar o veio de pessimismo que ele revela no final desse livro, sob a forma de perguntas deixadas sem respostas. Se os professores das universidades mais prestigiadas do Ocidente podem se enganar dessa forma, que esperança pode haver para o restante da humanidade? Se a espécie humana possui uma carência religiosa intrínseca que nenhum pensamento racional consegue vencer, por acaso isso não torna todos os argumentos sem significado? Se as pessoas são muito mais predispostas ao abstrato do que ao concreto, qual é o ponto em defender aquilo que é meramente real? Essas perguntas servem como alimento de reflexão para todos aqueles que amam o seu país e desejam preservá-lo. Talvez fosse isso o que Scruton tinha em mente quando as formulou.

                                                                                                                                                            

Jo Pires-O’Brien edita a revista digital  PortVitoria, sobre a cultura ibérica e sua diáspora no mundo.O seu e-book O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas atemporais e contemporâneos, está disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo.

Agradecimento: Débora Finamore, revisora

A massa e a democracia

O fato da democracia ser o governo do povo leva uma boa parte das pessoas a crer que a massa e a democracia andam de mãos dadas. Entretanto, a massa nada mais é do que uma facção poderosa da população com um tremendo potencial de abusar minorias. O abuso de um único indivíduo é uma violação do princípio de que a democracia não é um fim mas um meio para a liberdade. Nesse papel a democracia apoia-se no Estado de Direito, a estrutura legal garantidora dos direitos, que evolveu a partir do Iluminismo, e que pressupõe a ausência de privilégios. Portanto, o Estado de Direito não inclui todas as leis de um determinado Estado mas apenas aquelas que concernem a todos.

O crescimento da população do mundo veio acompanhado do crescimento das massas, um dos mais sérios problemas da atualidade. Dois pensadores e críticos sociais que estudaram o fenômeno das massas a partir da segunda década do século vinte foram o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94) e o espanhol José de Ortega y Gasset (1883-1955). Canetti procurou entender a psicologia do comportamento humano formador da massa, e  Ortega y Gasset concentrou-se mais nos efeitos deletérios que as massas podem causar nas democracias.

No seu livro A rebelião das massas, publicado em 1929, Ortega retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Para Ortega até a virada do século XX a estratificação social era ligada às classes econômicas, mas a partir de então surgiu uma nova extratificação social onde a sociedade passou a ser dividida entre massas e minorias. Ortega notou ainda que as massas caracterizavam-se pela dominância social, muitas vezes com o uso da força bruta contra os indivíduos não participantes. A nova estratificação social formada pelas massas e pela minoria resultava invariavelmente numa batalha entre esses dois estratos. Ortega notou que a democracia da década de vinte na Espanha era diferente da democracia do Estado de Direito pois as massas impunham as suas aspirações e desejos agindo diretamente, isto é, fora do Estado de Direito. Tal hegemonia das massas não poderia caracterizar a democracia saudável e sim a democracia doente, que ele designou de hiperdemocracia.

Cannetti também impressionou-se com o fenômeno das massas ocorrido no início do século vinte, mas as suas observações se estenderam por diversas décadas. O seu livro Masse und Macht foi publicado em 1960, sendo que a tradução inglesa saiu pouco depois, em 1962. A versão em português, intitulada Massa e poder, foi publicada em 1983 pela Editora UnB e em 1995 pela Companhia das Letras. O que é interessante em Canetti é o modo como ele busca inspiração na química para explicar fenômenos sociais. Canetti reconhece dois tipos de massas humanas, as fechadas e as abertas, caracterizadas pelo baixo e alto nível de interação com o ambiente, respectivamente. Enquanto que as massas fechadas são necessárias para o equilíbrio social, as massas abertas são sintomáticas de um desequilíbrio. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial uma série de punições incluindo a proibição da formação de um exército. Tal proibição, segundo Canetti, privou os alemães da sua massa fechada mais essencial, possibilitando a ascensão do partido nazista. Nessa conjuntura, Hitler mostrou aos alemães que a proibição do exército era uma afronta que equivalia à proibição da fé religiosa. Para Canetti, quando uma massa fechada é dissolvida, ela se transforma numa massa aberta com as mesmas características, mas bem maior.

A ameaça das massas no século XXI é ainda maior do que foi no século XX. A solução para o combate dessa ameaça é a educação, incluindo a educação acerca do verdadeiro significado da democracia. Massa não é democracia e democracia não é a multiplicação de opiniões ignorantes. Alexis de Tocqueville reconheceu isso há quase duzentos anos atrás, quando escreveu: “A tirania da maioria não requer conhecimentos, boa educação, deliberações razoáveis, autoridade e experiência e nenhuma das coisas que o populista chama de ‘elitismo’“.

O museu do Comunismo Mundial: Link: http://www.thegulag.org/

Link: http://www.thegulag.org/

O link acima disponibiliza o portal do Museu do Comunismo Mundial – GLOBAL MUSEUM ON COMMUNISM.

O portal mostra exibições principais, como a Exibição Gulag, sobre a extensa rede de prisões descritas pelo escritor soviético Alexander Solzhenitsyn. Para escrever O Arquipélago Gulag, Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas.

O museu mostra também exibições especiais e nacionais.
Exibições Especiais:
The War on Religion
Post-Communist Economics
The Great Terror at 40
Communism in China
Chinese Persecution of Uyghurs
The Afghan People vs Communism
You Won the Cold War

Exibições Nacionais:
Bulgaria
China
Cuba – http://cuba.globalmuseumoncommunism.org/
Czechoslovakia
Estonia
Germany
Hungary
Latvia
Lithuania
North Korea [coming soon]
Poland
Romania
Soviet Union
Tibet
Ukraine
Vietmam
Coloquei o link de Cuba pois é o único país comunista das Américas.

O mapa do comunismo
O museu virtual mostra um mapa mundial que mostra os países que viveram regimes comunistas. Embora Cuba seja o único país que consta no mapa das Américas, o comunismo agiu no nosso continente através de uma extensa rede de correlegionários da Esquerda. Quem sabe um dia saberemos mais sobre os efeitos dessa rede.