Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

“No coração de todas as pessoas há uma batalha constante entre o bem e o mal” A Solzhenitsyn

Apenas recentemente eu tive a oportunidade de ler O Arquipélago Gulag, o famoso livro de Alexander Solzhenitsyn sobre os ‘gulags’ da União Soviética, campos e colônias de trabalho forçado por onde passaram cerca de 14 milhões de pessoas, detidas tanto por crimes ordinários e pequenas infrações quanto por motivos políticos. Embora Solzhenitsyn tivesse usado o termo ‘gulag’ nesse sentido, o termo ‘Gulag’ é um acrônimo para Alta Administração dos Campos e Colônias de Trabalho Corretivo do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (NKVD), a agência do governo soviético encarregada dos campos de trabalho forçado, criada oficialmente em 1930 e extinta em 13 de Janeiro de 1960. Escrito entre 1958 e 1968, O Arquipélago Gulag é um registro da arbitrariedade e da violência do regime implantado em 1917 na União Soviética. Solzhenitsyn mostra que já existiam campos e colônias de trabalho forçado antes de 1930 e que Lenin também havia cometido o mesmo tipo de violência que Stalin, embora numa escala menor.

Alexander Solzhenitsyn nasceu em Kislovodsky, no sudoeste da Rússia e perto da fronteira com a Georgia, em 11 de dezembro de 1918, tendo estudado matemática na Universidade de Rostov. Durante a Segunda Guerra Mundial Solzhenitsyn serviu no Exército Vermelho e chegou à categoria de capitão de artilharia. Apesar de ter sido condecorado por bravura, em 1945 ele foi preso e condenado por ter criticado Joseph Stalin numa carta a um amigo, quando foi mandado para um campo de trabalho forçado no Cazaquistão.

O primeiro livro de Solzhenitsyn foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, cujo cenário era um campo de trabalho forçado soviético, foi publicado em 1962, durante o governo de Khrushev. Entretanto, o livro foi posteriormente banido depois da queda de Khrushev em outubro de 1964. Os próximos dois livros de Solzhenitsyn, The First Circle (O Primeiro Círculo) (1968) e Cancer Ward (A Enfermaria do Câncer) (1968) também foram banidos. Em 1970, Solzhenitsyn ganhou o Premio Nobel de Literatura mas o governo soviético não lhe deu permissão para ir a Estocolmo para recebê-lo. O seu próximo livro foi o romance Agosto de 1914, sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado em 1971 fora da União Soviética. Em 1973 Solzhenitsyn publicou O Arquipélago Gulag, fora da União Soviética, motivo pelo qual ele foi acusado de traição e deportado. Já nos Estados Unidos, Solzhenitsyn escreveu Lenin in Zurich (1975), The Oak and the Calf (1980) e The Mortal Danger (1983). Após sua morte em 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade, Solzhenitsyn teve um funeral com honras de Estado e foi enterrado no cemitério de Donskoy em Moscou.

Depois que Nikita Khruschev denunciou as arbitrariedades de Stalin inicialmente no 20º Congresso do Partido reunido em fevereiro de 1956, e depois no 22º Congresso em outubro de 1961, a imprensa começou a divulgar o assunto. Durante o seu governo Khrushev, que durou até outubro de 1964, Solzhenitsyn e outros autores críticos de Stalin conseguiram publicar seus livros na União Soviética. Entretanto, Solzhenitsyn achava que as informações que haviam sido disseminadas representavam apenas uma verdade parcial e que não bastavam para desagravar as pessoas que perdido suas liberdades e suas vidas nos gulags. Depois da substituição de Khruschev por Leonid Brezhnev, houve um retrocesso na liberdade de imprensa, causada pelo receio das consequências de um confronto entre os que desejavam reabilitar a imagem histórica de Stalin e os que desejavam colocá-lo no banco dos réus.

Solzhenitsyn enfrentou uma enorme pressão para não desenterrar o passado, inclusive por parte da Associação de Escritores de Moscou. Entretanto, ele insistiu na importância de trazer a verdade à tona e atribui a maldade dos homens à ideologia, como mostra o trecho abaixo retirado de O Arquipélago Gulag:

“Ideologia é aquilo que dá ao malefício a justificativa tão procurada e ao malfeitor a determinação e a sustentação necessárias. É esta a teoria social que ajuda a fazer com que os seus atos pareçam bons ao invés de maus, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros, de forma que ele não ouvirá repreensões e maldições mas receberá elogios e honrarias. Foi assim que os agentes da Inquisição fortificaram as suas vontades: invocando a Cristianismo; os conquistadores de terras estrangeiras, louvando a grandeza da Pátria Mãe; os colonizadores, a civilização; os Nazistas, a raça; e os Jacobinos (do início e do fim), a igualdade, a irmandade, e a felicidade das gerações futuras. Foi graças à ideologia que o século vinte foi fadado a experimentar malefícios numa escala calculada em milhões. Isso não pode ser negado, ignorado ou suprimido. Como é então que nós nos atrevemos a insistir que os malfeitores não existem? E quem foi que destruiu esses milhões de pessoas? Sem malfeitores não teria existido o Arquipélago.”

Para escrever O Arquipélago Gulag Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas. Após ter sido expulso da Associação de Escritores de Moscou e m 1974 ele também foi expulso da União Soviética, quando obteve asilo político nos Estados Unidos e foi morar em Vermont. Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, depois que Mikhail Gorbachev lhe restituiu a cidadania e retirou a acusação de traição, o que é bastante sugestivo do enorme apego dele à sua pátria natal.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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O anti-capitalismo e a Esquerda latina

O regime político-econômico que serviu de modelo da Esquerda Latina foi o da União Soviética. No século vinte a Esquerda Latina procurou repetir na América a revolução Bolchevique de 1917, e para esse fim passou a buscar a adesão dos trabalhadores e dos estudantes. Mas o modelo soviético esteve longe de ser o paraíso dos trabalhadores, apesar da sua alcunha de ‘ditadura do proletariado’. Nos primeiros anos que se seguiram à Revolução Bolchevique de Outubro de 1917, a desapropriação das grandes propriedades de terras pelo Estado provocou uma enorme falta de alimentos, o que levou o Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkcom) a obrigar os camponeses a vender seus produtos exclusivamente para o Estado ao invés de no costumeiro mercado. O novo regime eliminou todas as micro iniciativas de negócios prestação de serviços, que passaram a ser vistas como atividades capitalistas.

O Marxismo imputou um sentido pejorativo ao‘capitalismo’ a fim de ajudar a promover a revolução dos trabalhadores. A Esquerda Latina soube tirar proveito disso, mostrando os vícios facilmente reconhecíveis do capitalismo como a formação de cartéis e monopólios pelas grandes empresas. Entretanto, o capitalismo é simplesmente um sistema econômico onde o capital está nas mãos das pessoas, ao contrário do sistema econômico do socialismo, onde o capital maior pertence ao Estado. Dessa forma, a atividade capitalista inclui também os negócios médios e pequenos e todos trabalhadores autônomos, que na verdade são são mercadores solitários (sole traders, em inglês) que comercializam produtos ou serviços. Os agricultores, pecuaristas, feirantes, negociantes, vendedores ambulantes, alfaiates, costureiros, sapateiros, doceiros, pipoqueiros, jardineiros, manicures, cabeleireiros, faxineiros e professores particulares também fazem parte do sistema econômico do capitalismo. Nos últimos anos, Cuba tem aberto a sua economia para permitir que as pessoas abram seus pequenos negócios e trabalhem por conta própria. Apesar disso ser um importante passo para a liberalização da economia cubana, o governo de Cuba insiste em preservar o rótulo de ‘socialista’, possivelmente por ser mais condizente com as expectativas da população menos esclarecida.

Mas o colapso soviético não significou o colapso da Esquerda Latina e sua ideologia Marxista. Há apenas duas explicações isso: ignorância e cinismo. Desses dois motivos o pior é a ignorância, pois impede a compreensão da realidade e o exercício da cidadania. Qualquer indivíduo que saiba ler deve procurar ler mais. A educação informal de adultos através da leitura são as melhores armas contra a manipulação dos cínicos, os únicos que têm interesse na preservação da ignorância.

Todos os cidadãos que votam devem procurar entender por si próprios as informações chaves para a compreensão da política e da governança, a fim de entender o funcionamento da ordem econômica e social de um Estados democrático. Essa ordem existe independentemente das pessoas que se encontram no poder. Quem entende isso também entende que não faz sentido por fé em políticos com promessas de milagres, cujos atos de despir um santo para cobrir outro são verdadeiros golpes contra a democracia e a liberdade.


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Sobre o colapso da União Soviética

Para Yale Richmond, um escritor e um ex-diplomata americano que serviu na União Soviética, Polônia e Alemanha, a causa do colapso da União Soviética em 1991 foi o intercâmbio cultural firmado com os Estados Unidos em 1958, que permitiu com que mais de cinquenta mil cidadãos soviéticos visitassem os Estados Unidos e algumas dezenas de milhares visitassem a Europa Ocidental. Segundo Richmond, até a implantação desse intercâmbio cultural em 1958, a Cortina de Ferro havia permanecido impenetrável e as informações sobre o Ocidente eram cuidadosamente controladas. A maior parte dos russos julgavam ter um padrão de vida superior àquele dos Estados Unidos e dos outros países ricos do Ocidente. Aos poucos, os visitantes russos que retornavam do Ocidente trouxeram outras informações, que prepararam o cenário para as reformas implementadas por Gorbachev.

Um fenômeno equiparável ao intercâmbio cultural acima mencionado, foi o intercâmbio espontâneo que levou diversos membros da Esquerda Latina que eram perseguidos pelas diversas ditaduras militares a se refugiarem noutros países incluindo os Estados Unidos. Para esses companheiros mais esclarecidos da Esquerda Latina, a ficha da utopia Marxista também caiu bem antes de 1991.

Após o colapso da União Soviética a Rússia decidiu disponibilizar para a pesquisa histórica os arquivos do antigo regime. A maior parte das falsidades e meias verdades produzidas pela colossal máquina de propaganda soviética havia inventado já foi explicada. Robert John Service (1947-), um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu a trilogia biográfica de Lênin, Stalin e Trotsky, reunindo as informações biográficas contidas dos arquivos soviéticos com as demais informações históricas, filosóficas e sociológicas da literatura. Nessa trilogia Service procurou corrigir as distorções existentes, dando ênfase aos aspectos pouco conhecidos dos biografados e aos seus perfis psicológicos.

A disponibilização dos arquivos soviéticos vem também esclarecendo a extensão dos braços do Comintern nos Estados Unidos, Canadá e América Latina, bem como os seus contatos nessas regiões. Até que a verdade chegue aos movimentos de trabalhadores, a utopia Marxista continuará ajudando os líderes populistas latinos, perpetuando a esquizofrênica combinação de política de esquerda com economias capitalistas.


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Memórias da Guerra Fria

Durante a Guerra Fria os intelectuais do Ocidente, cuja maioria era engajada com a Esquerda, viam os Estados Unidos como o grande vilão e a União Soviética como o exemplo do regime do bem. Milhares de jovens latino-americanos viajaram para a União Soviética a fim de estudar e receber treinamentos diversos. Os especialistas em história latino-americana ligados ao Projeto Inkomka já devem ter uma ideia da estatística desse intercâmbio por país.

A falta de equilíbrio das informações sobre os dois lados da Guerra Fria explica até certo ponto porque a intelectualidade latina era massivamente de esquerda. Todos os atos condenáveis da política externa dos Estados Unidos foram amplamente divulgados pela imprensa falada e escrita. Assim, a população da América Latina tomou conhecimento da malograda invasão da Baía dos Porcos em 1961, das missões militares na Nicarágua e noutros países da América Central e o apoio que foi dado aos governos militares da região. O que a população da América Latina não ficou sabendo, pela total falta de divulgação, foram os atos igualmente condenáveis da política externa da União Soviética que geraram as grandes crises da Iugoslávia, da Albânia e da Polônia.

A antiga república da Iugoslávia (1944-1992), ao ser libertada do domínio alemão no final da Segunda Guerra Mundial, passou a integrar o bloco soviético. O seu presidente, o Marechal Josip Broz Tito (1892-1980), havia participado da Revolução Bolchevique de 1918, sendo portanto um antigo conhecido do ditador Joseph Stalin. Entretanto, nas reuniões do Partido, Tito não hesitava em se expressar abertamente e fazer as críticas que julgava necessárias, o que em 1948 fez com que se tornasse mais um desafeto de Stalin. Após a morte de Stalin em 1953, um bilhete de Tito foi encontrado numa gaveta de sua escrivaninha, com os seguintes dizeres: ‘Stalin: pare de mandar enviados para me matar. Nós já capturamos cinco, um deles com uma bomba e outro com um rifle… Se você não parar de mandar assassinos, eu vou mandar um a Moscou, e não precisarei mandar um segundo’

Após o racha entre Tito e Stalin em 1948, a Albânia, desligou-se da Federação Iugoslava e se juntou diretamente ao bloco soviético, mas em 1961 decidiu se alinhar à China de Mao Zedong. Os acontecimentos da Albânia reverberaram junto às esquerdas de todo o mundo, incluindo na América Latina, onde ganhou muitos adeptos, que eram chamados ‘comunistas da linha Albanesa’.

A Polônia, que também havia passado a integrar o bloco soviético após a Segunda Guerra Mundial, começou a se rebelar contra o domínio soviético ainda na década de 1950, através de greves e protestos de trabalhadores. A perseguição soviética aos poloneses das minorias étnicas como os pomeranos e os judeus, os obrigaram a emigrar para a Alemanha Ocidental e outros países do Ocidente. Dois fatos fortuitos permitiram que o Ocidente tomasse conhecimento do Sindicato Solidariedade, o primeiro sindicato independente do Partido Comunista, surgido em 1980. O primeiro foi o relaxamento das restrições às entradas e saídas do país após 1978, quando o polonês Karol Wojtyla tornou-se o Papa João Paulo II. O segundo foi o fato de ser situado numa cidade que é um importante porto internacional (Gdansk).

Durante a Guerra Fria cerca de 3,45 milhões de pessoas deixaram o Leste Europeu. Foi para conter tal êxodo que o Muro de Berlim foi erguido, como um projeto conjunto entre a Alemanha Oriental e a União Soviética. Foi construído em etapas que começaram em 1961 e terminaram em 1980. Inicialmente o muro era uma monstruosidade de concreto armado e arame farpado, numa extensão de 165,7 quilômetros. A última construção consistiu de blocos de concreto atingindo 3,6 m de altura e com uma espessura de 1,2 m, com uma tubulação lisa no topo para impedir que as pessoas escalassem o muro. Pelo menos 136 pessoas morreram em tentativas de vencer a barreira do Muro de Belém, tendo sido mortos pelos guardas armados, explosões de minas, ou afogamento no rio Spree. Estima-se que entre 1950 e 1988, quatro milhões de alemães do lado leste imigraram para o lado oeste, 86 % destes antes da construção do Muro de Berlin.

Os intelectuais que deixaram o Leste Europeu e se fixaram no Ocidente procuraram alertar o Ocidente sobre a repressão do outro lado da Cortina de Ferro, mas suas vozes raramente eram ouvidas. Um desses intelectuais foi o filósofo polonês Leszek Kolakowski (1927-2009), professor de filosofia da Universidade de Cracóvia, que foi expulso da Polônia em 1968. Além de deixar uma extensa obra de crítica ao Marxismo, Kolakowski analisou o paradoxo da sociedade liberal, ou seja, a tendência de se tornar o seu próprio inimigo devido à sua liberdade de expressão e à sua tolerância às forças capazes de destruir as liberdades individuais.

Não se pode negar que durante a Guerra Fria ambos os Estados Unidos e a União Soviética portaram-se como superpoderes imperialistas. Entretanto, os imperialismos da União Soviética e dos Estados Unidos eram iguais. O imperialismo americano era indireto e baseado no poderio econômico das grandes empresas, ao passo que o imperialismo da União Soviética era direto e político.


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A Nova Esquerda

A Nova Esquerda surgiu em 1968 no meio universitário. Um dos seus principais teóricos foi o filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979), um professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em São Diego. A Nova Esquerda foi um produto da conjuntura política do ano de 1968, marcado não só pela impopular Guerra do Vietnã mas também por dois grandes cataclismos sociais: o assassinato de Martin Luther King Junior (1929-1978) e a Primavera de Praga.

Martin Luther King Junior, um pastor da igreja Batista e um dos principais líderes do Movimento por Direitos Civis nos Estados Unidos, havia se notabilizado pelo seu famoso discurso ‘Eu Tenho um Sonho’ (I Have a Dream) durante a Grande Marcha de Washington de 28 de agosto de 1963, que ele havia ajudado a organizar, bem como por ter ganho o Prêmio Nobel da Paz em 1964 Martin Luther King. O seu assassinato, em quatro de abril de 1968, marca o início do processo de câmbio da liderança da Esquerda, dos sindicatos laborais para os estudantes universitários.

Três semanas depois do assassinato de Martin Luther King, os alunos da Universidade de Columbia, no estado de Nova Iorque, colocaram abaixo a cerca da obra de um novo ginásio de esportes, por considerar racista a decisão de colocar apenas uma porta de fundos no lado do ginásio voltado para o bairro negro do Harlem, e começaram a ocupar setores da universidade incluindo a sala do reitor, situada na Baixa Biblioteca. Funcionários da universidade pediram aos estudantes que saíssem, mas como isso não ocorreu, a polícia foi chamada. A ocupação durou diversos dias e os protestos persistiram por diversas semanas.

A primavera de Praga ajudou a completar a passagem da liderança da Esquerda dos sindicatos laborais para as universidades. A Nova Esquerda fez valer seu poder durante as décadas de 1970 e 1980, quando esteve no centro da Guerra das Culturas do meio acadêmico americano. A ideologização da academia levou a uma série de erros de julgamento que fizeram diversas disciplinas das ciências humanas retroceder. Tais erros foram apontados no final da década de 1980 por diversos acadêmicos como Edward Wilson, Steve Pinker e Alan Bloom. A ideologização da academia possivelmente causou outros danos ligados à prática do ‘gate-keeping’ (vigilância da entrada), designação dada ao sistema criado nos Estados Unidos para impedir o ingresso na academia de indivíduos que não faziam parte do clube da Nova Esquerda.

O ano de 1968 ficou marcado pela grande quantidade de demonstrações estudantis que pipocaram em todas as grandes capitais do Ocidente. Embora os estudantes de cada país tivessem as suas próprias listas de descontentamentos, não há dúvidas de que o movimento estudantil de todo o mundo estava conectado. Em Paris, onde a agitação estudantil havia começado em março e se tornado visível no dia 3 de maio, o descontentamento girava em torno do arcaísmo do sistema de ensino superior e com a falta de oportunidades de empregos. Na Itália, o estopim do descontentamento foi o assassinato do ex Primeiro Ministro Aldo Mouro, líder do Partido Democrata Cristão, que havia sido sequestrado no dia 16 de março. Os estudantes e os intelectuais resolveram agir contra o autoritarismo do Estado, uma herança do fascismo. Na Alemanha, o descontentamento também girava em torno do fascismo estatal, mas foi levantado por grupos de jovens conhecidos como a gangue de Baader-Meinhof. Na América Latina também houve protestos estudantis no Chile, Argentina, México e Brasil, que envolveram tanto estudantes de universidades quanto estudantes secundaristas. No Brasil os protestos giravam em torno da repressão política da ditadura militar e da liberação sexual.

A primavera de Praga ajudou a completar a passagem da liderança da Esquerda dos sindicatos laborais para as universidades. A Nova Esquerda fez valer seu poder durante as décadas de 1970 e 1980, quando esteve no centro da Guerra das Culturas do meio acadêmico americano. A ideologização da academia levou a uma série de erros de julgamento que fez diversas disciplinas das ciências humanas retroceder. Tais erros foram apontados no final da década de 1980 por diversos acadêmicos como Edward Wilson, Steve Pinker e Alan Bloom. A ideologização da academia possivelmente causou outros danos ligados à prática do ‘gate-keeping’ (vigilância da entrada), designação dada ao sistema criado nos Estados Unidos para impedir o ingresso na academia de indivíduos que não faziam parte do clube da Nova Esquerda.

Hoje em dia a Nova Esquerda é um anacronismo. Desprezada nos países mais industrializados do Ocidente, a Nova Esquerda encontrou refúgio na América Latina, onde virou um pasticho de ideologias e doutrinas que as lideranças demagógicas têm todo o interesse de preservar.

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A Origem do Marxismo na América Latina

A esquerda latina minimizou o choque da desintegração da União Soviética em dezembro de 1991, procurando mostrar que já existia mesmo antes da criação do Comintern (veja o posting relevante: https://jopiresobrien4.wordpress.com/2013/01/19/a-rede-comintern-politburo/)
em março de 1919. De fato, antes desta data já haviam sindicatos laborais bem organizados na América Latina. Entretanto, o forte catolicismo da América Latina havia gerado um socialismo sindical diferente daquele pregado pela União Soviética, sem o cunho revolucionário e anatemático ao ateísmo comunista. No tocante a Partidos Comunistas, apenas a Argentina possuía um organizado e atuante.

O sindicalismo chegou à América Latina logo depois da primeira convenção internacional dos trabalhadores, realizada em Londres em 1864. Antes da mesma o papa Leão XIII, cujo papado se entendeu de 1878 a 1903, já havia percebido que o socialismo era uma ameaça à fé cristã. Entretanto, ao perceber a enorme atração que o socialismo exercia junto à classe trabalhadora, o papa contemporizou sua visão na encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas) onde advertiu os trabalhadores cristãos a que formassem suas próprias associações e somassem seus esforços para repelir as associações que sejam injustas e intolerantes. Mostrando-se contrário à militância revolucionária, o papa escreveu: “é do interesse da comunidade bem como do indivíduo, que a paz e a boa ordem sejam mantidos; que tudo seja conduzido de acordo com as leis de Deus e as da natureza”. E sobre o direito à propriedade: “O direito de possuir bens privados deriva da natureza, e não do homem; e o Estado tem o direito de controlar o seu uso no interesse apenas do bem público, mas de nenhuma forma absorvê-lo totalmente”.

Quando o Comintern soviético chegou na América Latina ainda em 1919 com o propósito aberto de promover a revolução mundial dos trabalhadores, era natural que encontrasse resistências de fundo religioso. Aliás, em todo o continente americano a resistência inicial contra o socialismo era de fundo religioso, sendo que apenas no final do século vinte o motivo maior passou a ser a falta de liberdade.

A presença do Comintern foi decisiva para a criação dos Partidos Comunistas em toda a América Latina. Cada país ganhou seu escritório central do Partido, denominado Politburo: Cuba em 1920, Brasil e Chile em 1922, Equador em 1926, e Venezuela em 1931, etc. O racha entre Trotsky e Stalin em 1929 fez com que Trotsky lançasse mais tarde uma Quarta Internacional, que embora não tivesse alcançado o sucesso esperado, gerou um racha os Partidos Comunistas de toda a América Latina. A afeição a Trotski deveu-se ao fato do eleger Bolchevista ter fixado residência no México em 1936, onde permaneceu até o seu assassinato em 1940 a mando de Stalin.

O socialismo latino teve uma fase de renascimento logo depois da Revolução Cubana de 1959 que levou Fidel Castro ao poder, quando toda a América Latina foi alvo de uma trama internacional para a implantação do socialismo de estilo soviético em toda a região. Golpes militares pipocaram por todo o continente, todos motivados pela crença patriótica de que eram indispensáveis para de conter a ameaça do socialismo comunista. Lutas armadas foram organizadas para derrubar os regimes militares totalitários e substituí-los por outros regimes igualmente totalitários.

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O socialismo e a Guerra Civil Espanhola

Em 1919 quando a Terceira Internacional Comunista, reunida em São Petersburgo, criou o Comintern, a esquerda espanhola já era altamente ativa e não deu muita importância ao acontecimento. A Espanha, então uma monarquia constitucional, não tinha nenhuma simpatia pelo governo revolucionário soviético que havia executado a família real russa.

A situação econômica da Espanha após a Primeira Guerra Mundial era tão calamitosa quanto a do resto da Europa. Apesar da sus neutralidade nesse conflito, a Espanha enfrentava uma penosa desestabilização causada por diversos conflitos internos entre proprietários e arrendatários de terras, anticlericalismo e a Igreja, conservadores e liberais, monarquistas e republicanos e entre membros das culturas rurais e urbanas. Em cima disso tudo havia ainda as pressões das regiões internas para ganhar autonomia, o anarquismo e a contumaz interferência dos militares no governo. Foi dentro dessa conjuntura que o golpe militar de 23 de setembro de 1923 obteve sucesso e colocou no governo o general Miguel Primo de Rivera.

No final de 1929, a Espanha sofreu uma nova crise econômica decorrente da recessão mundial provocada pela quebra da bolsa de valores dos Estados Unidos. Embora em janeiro de 1930, o rei Alfonso XIII tivesse conseguido a renúncia de Primo de Rivera, a sua vitória durou pouco, pois em 14 de abril de 1931 um outro golpe militar proclamou a Segunda República Espanhola1, obrigando o rei a deixar o país. A Segunda República Espanhola durou até 1939.

Em junho e julho de 1931 as Cortes Constitucionais foram eleitas e em dezembro do mesmo ano uma nova Constituição foi introduzida. Apesar de tudo, certas divisões internas, como aquelas causadas pelo anti-clericalismo, não foram resolvidas. O Artigo 26 da nova Constituição, que tratava das relações entre o Estado e as ordens religiosas, acabou provocando a renúncia do Primeiro Ministro Niceto Alcalá-Zamora.

O novo governo foi coroado pelas pressões do crescente anticlericalismo e da corrente favorável à implantação de um regime anarquista (comunista libertário). As eleições de novembro de 1933 foram ganhas graças à coalizão dos partidos de direita, sendo que o cargo de Primeiro Ministro ficou para Diego Martínez Barrio do Partido Republicano Radical.

O partido de direita que rivalizava com o Partido Republicano Radical era a Falange, fundada em 1933 por José Antonio Primo de Rivera, filho do ex-ditador Miguel Primo de Rivera. No seu manifesto, a Falange condenou o socialismo, o Marxismo e o capitalismo e propôs que a Espanha se tornasse um país fascista semelhante à Itália de Benito Mussolini. José Antonio foi capturado pelos republicanos em julho de 1936, e em 20 de novembro do mesmo ano foi executado.

Um golpe militar contra o governo do Primeiro Ministro Diego Barrio teve início em 19 de julho de 1936 gerando revoltas em diversos lugares da Espanha, Ilhas Canárias, Marrocos, Sevilha e Aragão. O General Francisco Franco, então no comando do exército na África, aderiu à revolta e retornou à Espanha e passou a liderou a revolta, contando com o apoio de partidos católicos, conservadores, monarquistas e fascistas. Era o início da Guerra Civil Espanhola que perduraria até 1939.

Durante a Guerra Civil na Espanha o General Francisco Franco pediu ajuda à Alemanha e à Itália, enquanto que Diego Barrio solicitou a ajuda do Kremlin. O Comintern soviético mandou o líder do Partido Comunista italiano, Palmiro Togliatti, de codinome Ercoli, para ajudar a formar a ‘frente popular’ republicana liderada pelo espanhol José Diaz. Isso não foi uma tarefa fácil devido às divisões existentes entre os diversos partidos de esquerda, como os trotskistas, os anarquistas e os comunistas independentes.

No cenário mundial a Guerra Civil Espanhola criou uma imagem positiva da esquerda como sendo a força política capaz de enfrentar o nazismo e o fascismo, atraindo o apoio dos comunistas de diversos países principalmente dos Estados Unidos, Grã Bretanha e França. É pertinente lembrar que a imagem positiva da esquerda contou com uma máquina de propaganda muito parecida com àquela empregada na União Soviética. As dezenas de pôsteres produzidos tiveram o efeito esperado, principalmente junto aos jovens como o futuro escritor e jornalista britânico George Orwell (1903-50). É também pertinente lembrar que Orwell registrou nos seus livros Lutando na Espanha (Homage to Cataluña), 1984 e A Revolta dos Bichos (Animal Farm) o seu desencanto com o socialismo.

A Guerra Civil deixou sequelas de longa duração na sociedade espanhola, como as recriminações mútuas entre os simpatizantes da Falange e os simpatizantes dos partidos socialistas e fascistas. Infelizmente os esforços de reconciliação que vinham sendo feitos foram neutralizados pela severa recessão econômica que a Espanha experimentou entre 2008 e 2011. A Espanha reviveu um período de tumultos e revoltas populares e o eleitorado espanhol elegeu o atual governo socialista.

Nota. 1. A Espanha teve uma brevíssima Primeira República que durou de fevereiro de 1873 a janeiro de 1874.


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