Popper e o Marxismo

Karl Raymond Popper (1902-94) foi um especialista tanto da filosofia da ciência quanto da filosofia política, e a combinação dessas duas áreas do conhecimento permitiu que se tornasse o mais contundente crítico do Marxismo. Como filósofo da ciência Popper desenvolveu o método científico moderno, melhor conhecido como o método da ‘falsificabilidade’, assim chamado por basear-se em tentativas de provar o contrário de uma teoria, hipótese ou enunciado através de experimentos. Como filósofo político, Popper estudou a fundo a obra de Marx e mostrou os erros de raciocínio nela contidos melhor do que qualquer outro estudioso.

Na área da filosofia política, o livro seminal de Popper é A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (EDUSP 1974), em dois grossos volumes publicado inicialmente em 1945 pela editora Routledge. Popper escreveu esse livro entre 1938 e 1943, quando era um refugiado do nazismo na Nova Zelândia, onde se exilou em 1937. Nele, além de criticar o Marxismo Popper também faz uma brilhante defesa da democracia liberal – a sociedade aberta – , contra a ameaça do totalitarismo proveniente da ideologia Marxista. A Sociedade Aberta já teve cinco edições na língua inglesa e diversas reimpressões, tendo sido traduzido para mais de trinta línguas. A edição em russo desse livro foi publicada em 1992, logo após o colapso da União Soviética.

O objeto de estudo formal de Popper na Universidade de Viena, onde escreveu sua tese de doutorado foi o método da ciência, que deu origem ao seu livro Logik der Forschung publicado inicialmente em 1933. A teoria de Popper sobre a delimitação e a progressão da ciência era altamente inovadora e complementava o positivismo lógico dos filósofos do Círculo de Viena. Entretanto, a ameaça do nazismo e a Segunda Guerra Mundial fizeram com que o livro de Popper ficasse esquecido durante duas décadas e meia. Finalmente, em 1958 o mesmo foi republicado em inglês com o título The Logic of Scientific Discovery, cuja primeira edição em português – A Lógica da Descoberta Científica , foi publicada em 1972 pela Editora Cultrix.

Popper conhecia bem a apelação do Marxismo junto aos jovens, pois que ele próprio foi adepto dessa doutrina na juventude. Como professor universitário tanto na Nova Zelândia quanto na Inglaterra ele percebeu que o Marxismo era altamente popular nas ciências sociais. A crença comum de que o Marxismo se tratava de uma ciência justificava a boa receptividade que gozava junto aos cientistas sociais mas não explicava porque atraía também um certo número de cientistas tradicionais. “O que poderia fazer com que um cientista se deixasse apreender por qualquer tipo de ‘corrente moral’ senão algum tipo de ‘armadilha marxista’?” Embora não existe uma resposta única para a pergunta de Popper, algumas possibilidades podem ser conjecturadas, como a gama de benefícios decorrentes da afiliação a um clube que é altamente popular. O filósofo inglês Roger Scruton tem outra resposta: “um intelectual que enfatiza as suas credenciais esquerdistas ganha uma vantagem na carreira que compensará qualquer teor de obscuridade, ambiguidade ou mendacidade naquilo que escreve”.

Consciente do risco de perder popularidade, Popper expôs o erro epistemológico do historicismo por detrás das ‘leis’ que Marx elaborou e que não passaram de um simples jogo de palavras. Popper mostrou o erro de tradução que deu origem à alegação de que o Marxismo era uma ciência: a palavra ‘Wissenshaft’ que Marx usou e que significa ‘corpo de conhecimentos’ foi traduzida como ‘ciência’, quando a palavra alemã correta para ‘ciência’ é ‘Naturwissenshaft’ ou ‘ciência da natureza’. Segundo Popper, nem a estrutura preditiva de suas premissas nem o emprego exclusivo do físico em contrapartida com o não físico, faz do Marxismo uma ciência. Como na história do traje novo do imperador, levou algum tempo até que alguém proclamou o óbvio: o manto ‘científico’ do Marxismo não era real. Para ser científico, um método de pesquisa deve ser baseado na aquisição de dados empíricos observáveis e provas mensuráveis, que em seguida devem se submetidos a testes de hipóteses voltados para provar o contrário de determinada teoria, hipótese ou enunciado. O Marxismo não tem nada disso e portanto não poderia ser confundido com uma ciência.

Nas centenas de seminários e conferências que fez em todo o mundo, Popper procurava mostrar as armadilhas da engenharia social utopista. Para ele a sociedade real requer uma ‘engenharia social a conta-gotas’ (piecemeal social engineering), que por sua vez requer tempo. E não há maior perda de tempo, dizia ele, do que passar a vida trabalhando na ‘sociedade da prancheta’ (blueprint society) que jamais se tornará realidade. O tempo seria muito melhor empregado lidando com a sociedade real. Popper também costumava usar o argumento da evidência histórica contra o Marxismo, citando os exemplos do nazismo e dos socialismos do Leste Europeu e da Ásia, repetia que todas as tentativas de criar paraísos terrestres acabaram por gerar infernos.

Popper poderia muito bem ter se omitido sobre o Marxismo e optado por viver encastelado e tranquilo. A sua guerra declarada ao Marxismo lhe custou a popularidade junto aos estudantes e aos próprios colegas. Entretanto, as coisas não poderiam ser de outro modo, pois Popper era não era um filósofo comum que se preocupava exclusivamente com a lógica; ele era fiel à tradição dos antigos filósofos gregos, principalmente Sócrates, e como esses, não podia abrir mão da ética da vida.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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