O Marxismo e os intelectuais

O Marxismo sempre teve um aliado nos intelectuais. Quase sempre há um intelectual Marxista mexendo os pauzinhos junto aos trabalhadores da indústria e do campo. Segundo o historiador Robert Service, autor das biografias mais recentes e apuradas de Lênin, Stalin e Trotsky, os conspiradores Marxistas de São Petersburgo, que organizaram a revolução Bolchevique, eram todos intelectuais. Lênin lia Marx e as obras sobre o Marxismo e mantinha discussões com outros revolucionários, embora não com os trabalhadores da indústria ou do campo. Nas discussões dos conspiradores Marxistas de São Petersburgo não havia trabalhadores embora a ‘questão dos trabalhadores’ volta e meia vinha à tona. Segundo Service, a facção veterana dos conspiradores, liderada por Stepan Radchenco, chegou a afirmar: ‘nenhum trabalhador tinha condições de fazer melhor do que um intelectual dedicado e bom conhecedor da literatura relevante’. Entretanto, a facção ‘jovem’, que incluía K. M. Takhtarev e Apollinaria Yakubova, defendia a ideia contrária de que os trabalhadores deveriam ter a oportunidade de participar da conspiração. Segundo Service, a postura de Lênin não se encaixava nem na facção ‘veterana’ e nem na facção ‘jovem’, embora fosse mais próxima de Radchenco do que de Takhtarev e Yakubova. Lênin não tinha objeções a que os trabalhadores ocupassem postos de responsabilidade no movimento Marxista, mas achava que para isso era necessário que eles recebessem primeiro um embasamento intelectual.

Mesmo antes da Revolução Bolchevista de 1917, o Marxismo já estava presente na Europa Ocidental e nas Américas. Em 1916, quando Trotsky chegou a Nova Iorque com a família vindo da Espanha, de onde havia sido expulso, ele foi recebido com honras pela comunidade de imigrantes russos e pela imprensa, e fez diversas palestras nos sindicatos de trabalhadores. Ao tomar conhecimento da Revolução de Fevereiro de 1917 que depôs o Czar e instalou o governo provisório, Trotsky imediatamente providenciou documentos de viagem junto ao consulado Russo e em 27 de março embarcou com a família de volta à Rússia. Cerca de trezentas pessoas foram despedir dele no cais do porto levando bandeirolas e flores, e alguns revolucionários americanos chegaram a comprar passagens no mesmo navio apenas para estar perto dele.

As lucubrações dos intelectuais do Ocidente passaram a um novo patamar a partir de outubro de 1917, quando os bolchevistas derrubaram o Governo Provisório com uma segunda revolução, e introduziram na Rússia o experimento do socialismo Marxista. Esse novo patamar era caracterizado pela expectativa mundial de que se a revolução dos trabalhadores desse certo na Rússia, o socialismo funcionaria ainda melhor nos países industrializados. Na Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá e em toda a América Latina, milhares de intelectuais letrados e cientistas empregaram as suas posições na sociedade para persuadir outras pessoas sobre as promessas do Marxismo. As expectativas gerais eram reforçadas pela propaganda gráfica que chegava da Rússia.

Paris, que já era um ponto de convergência de escritores, poetas, músicos e artistas de todo o mundo passou a ser também a Meca do Marxismo. Muitos intelectuais americanos que haviam trabalhado como voluntários na Europa durante a Primeira Guerra Mundial retornaram à França para conhecer os principais porta-vozes do Marxismo como André Gide, André Malraux e Émile Zola. Ao retornar para os Estados Unidos eles procuraram estender neste país a ideologia do Marxismo. A Tabela 1, a seguir mostra alguns nomes de importantes escritores e pensadores marxistas do século vinte, da França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e América Latina.

Nas Américas, a quebra da bolsa de valores em outubro de 1929 e a subsequente depressão econômica resultante da mesma foi uma enorme colher de chá para o Marxismo. Nas próximas eleições presidenciais de 1933 os americanos escolheram Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), que tinha simpatias Marxistas. Durante o seu governo, FDR reconheceu a União Soviética, adotou uma política diplomática internacionalista e introduziu o New Deal. Na América Latina, a expansão do Marxismo foi impulsionada não só pela depressão econômica mas também pela proliferação de centros de novos imigrantes italianos e germânicos.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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