O Trotskismo e a Quarta Internacional

Lev Davidovich Bronstein ‘Trotsky’ (1879-1940) já era um desafeto de Stalin muito antes de Stalin subir ao poder supremo na União Soviética. De simples desafeto de Stalin ele virou o seu inimigo número quando acusou Stalin de ‘ter finalmente lançado a sua candidatura coveiro do partido e da revolução’. Como era de se esperar, a ascensão de Stalin significou o início da ‘fritura’ de Trotsky. Em 1927 Trotsky foi expulso da facção conhecida como Oposição Unida bem como do Politburo. Trotsky declinou uma capciosa oferta de um emprego na longínqua localidade de Astrakhan, na Ucrânia, afirmando que preferia o exílio.

Em 16 de fevereiro de 1928, sem nenhum aviso prévio, Trotsky, juntamente com a esposa Natalya e o filho caçula Lëva, então com 20 anos, mais o seu secretário Igor Poznanski, foram escoltados para o exílio em Alma-Ata, no Cazaquistão, numa viajem que levou nove dias. Desde então, Trotsky passou a denunciar Stalin abertamente. Do Cazaquistão, Trotsky conseguiu asilo político na Turquia, chegando a Istambul em 22 de fevereiro, sob o pseudônimo de Lev Davidovich Dedov. Por insistir em continuar criticando o governo soviético, em 20 de fevereiro de 1932 Trotsky teve sua cidadania soviética cancelada, passando para a condição de indivíduo sem estado. Em 1935 Trotsky e a esposa foram para a França onde passaram algum tempo e em seguida foram para a Escandinávia.

Como se não bastasse a perda da sua cidadania russa, Trotsky foi acusado pelo regime soviético de participar de uma conspiração terrorista internacional, e em 24 de agosto de 1936 foi julgado à revelia e condenado à morte. Trotsky, que se encontrava na Noruega na ocasião em que foi condenado, foi colocado sob prisão domiciliar pelo governo norueguês, que pretendia extraditá-lo para a União Soviética. Antes da sua extradição, Trotsky recebeu asilo político do governo mexicano, graças à intervenção do pintor Diego Rivera. Em 20 de dezembro de 1936 Trotsky e sua família embarcaram para o México num petroleiro, e em 9 de janeiro de 1937 eles desembarcaram em Tampico, de onde tomaram um trem para a cidade do México, seguindo poucos dias depois para para Coyoacán, onde se hospedaram na famosa casa azul da pintora Frida Kahlo.

Uma vez assentado no México, Trotsky movimentou-se para organizar a Quarta Internacional (QI) cujo objetivo era substituir a Terceira Internacional. Apesar da Quarta Internacional ter fracassado no seu intento de derrubar a a Terceira Internacional, o rebuliço em torno da mesma causou um racha irremediável no movimento comunista internacional. Em retaliação, Stalin promoveu uma enorme campanha difamatória contra Trotsky, acusando-o falsamente de interferir na política interna do México. Entretanto, Trotsky usou seu enorme talento como escritor e articulador para contra-atacar Stalin. Depois de sobreviver a diversas tentativas de assassinato a mando de Stalin, em 20 de agosto de 1940 Trotsky recebeu um golpe fatal no crânio com uma picareta de alpinismo, vindo a falecer no dia seguinte. Trotsky teve um enterro de herói e sua morte fortaleceu o Trotskismo em todo o mundo, principalmente depois que as atrocidades do regime de Stalin foram reveladas.

O Trotskismo se espalhou por diversos países da Europa e das Américas como uma alternativa Marxista ao comunismo soviético, apresentando-se quase sempre associado à figura de Lênin. A mera menção da sigla QI, de Quarta Internacional, virou um símbolo indicador do Trotskismo. Dentre os diversos escritos sobre o Trotskismo no Brasil, destaca-se a tese de mestrado de Felipe Abranches Demier, apresentada em 2008 na Universidade Federal Fluminense, intitulada ‘Do movimento operário para a universidade: Leon Trotsky e os estudos sobre o populismo brasileiro’ onde Demier mostra que o pensamento trotskista fazia parte do ‘populismo’ surgido na década de 1930, que foi usado abertamente até o golpe de Estado militar de 1964. Outro ponto importante da tese de Demier é que o pensamento trotskista prevaleceu numa parcela significativa da intelectualidade brasileira no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970.

A biografia de Trotsky publicada em 2009 por Robert Service, professor titular da Universidade de Oxford, Inglaterra, e historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente, mostrou diversos aspectos da personalidade de Trotsky até então desconhecidos. Segundo Service, aquilo que Trotsky defendeu depois que virou exilado não bate com os seus atos no período em que ocupou o poder, como por exemplo: as execuções sumárias de soldados, o seu autoritarismo em querer controlar até as coisas mais triviais como consumir bebida alcoólica e jogar pontas de cigarro no chão, e a maneira cruel como ele costumava esmagar a oposição, tanto nas reuniões do partido quanto nos sindicatos laborais. Service mostra que a estratégica alternativa do socialismo humanitário de Trotsky era inteiramente implausível. Se Trotsky tivesse se tornado ditador ele possivelmente teria se portado da mesma forma como Lênin e Stalin. Leia a resenha da trilogia de Robert Service em PortVitoria 4, 2012: http://www.portvitoria.com.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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