A cultura de Weimar e o Nazismo

Depois da Primeira Guerra Mundial a Alemanha virou uma república democrática e constitucional sediada na cidade de Weimar, a qual ficou conhecida como ‘República de Weimar’. A breve existência desta foi coroada pelos problemas decorrentes da devastação da guerra: a falta de alimentos, o desassossego social causado por extremistas de direita e de esquerda, e a hiperinflação. Apesar de todos esses percalços, Weimar atraiu um grupo de notáveis escritores, artistas, arquitetos e filósofos como Otto Dix, Grosz, Kandinsky, Nolte, Gropius, Lubitsch, Lang, Murnau e Pabst, Hauptmann, Brecht, Reinhardt, Piscator, os irmãos Mann, Husserl e Heidegger. A concentração de artistas e intelectuais em Weimar deu origem à designação ‘cultura de Weimar’. Essa cultura se identificava com as correntes do Neue Sichklichkeit – a nova objetividade –, bem como com movimentos de vanguarda como o expressionismo, o dadaísmo, a escola Bauhaus, a fenomenologia e o existencialismo.

A partir de 1923 parecia que a República de Weimar estava o caminho certo para a recuperação da Alemanha, pois até 1930, o Partido do Nacional Socialismo (o Partido Nazista) não passava de um grupo estridente e marginal. O grande golpe do Nacional Socialismo ocorreu em decorrência da crise econômica ocorrida após a quebra da bolsa de valores da Wall Street em outubro de 1929, quando os Estados Unidos pediram à Alemanha o pagamento de empréstimos tomados. No desespero causado pela nova crise econômica o povo alemão agarrou-se nas promessas de um suposto salvador que soube tirar proveito do rádio como veículo de comunicar-se com as massas. Entretanto, os intelectuais e artistas alemães da época, coletivamente conhecidos como ‘a cultura de Weimar’, não enxergaram os problemas éticos e morais das políticas do Nacional Socialismo, contribuindo assim para o desaparecimento da República alemã (a República de Weimar)em 1933.

A ligação entre ‘a cultura de Weimar’ e o Nazismo foi amplamente escrutinizada pela filósofa Hanna Arendt (1906-75), uma judia alemã que em 1940 mudou-se para os Estados Unidos e em 1951 se tornou cidadã americana. Na Alemanha, Arendt havia convivido com a Cultura de Weimar, tendo sido inclusive aluna e amante do filósofo Martin Heidegger, que apoiou abertamente o Nacional Socialismo, pelo menos nos seus primeiros anos. Depois do fim da Segunda Guerra, quando os pormenores do Holocausto foram revelados ao mundo, Arendt procurou entender porque os intelectuais da Cultura de Weimar haviam falhado no tocante ao Nazismo, questionando tudo e todos sobre o Holocausto, desde a compactuação dos alemães até a colaboração dos próprios judeus.

Na época em que Arendt começou a escrever os seus livros, havia uma enorme pressão para enterrar o passado, pois acreditava-se que só assim o mundo poderia seguir adiante. Embora tal pressão tivesse atingido até mesmo os sobreviventes do Holocausto, que evitaram remoer as suas lembranças, Arendt tomou a corajosa posição de ir contra a corrente e expor a verdade: ‘Não devemos fechar os olhos ao passado pois o mundo do momento é também o mundo do passado, uma vez que consiste daquilo que foi deixado por outros’, escreveu Arendt.

PS. Conquanto a maior parte dos intelectuais da ‘cultura de Weimar’ ignorou a ameaça do Nacional Socialismo, o filósofo Martin Heiddeger apoiou o nazismo e Hitler. Ao ser confrontado sobre isso depois do final da Segunda Guerra, Heiddeger respondeu que ‘os grandes pensadores cometem grandes erros’.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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