O socialismo e a Guerra Civil Espanhola

Em 1919 quando a Terceira Internacional Comunista, reunida em São Petersburgo, criou o Comintern, a esquerda espanhola já era altamente ativa e não deu muita importância ao acontecimento. A Espanha, então uma monarquia constitucional, não tinha nenhuma simpatia pelo governo revolucionário soviético que havia executado a família real russa.

A situação econômica da Espanha após a Primeira Guerra Mundial era tão calamitosa quanto a do resto da Europa. Apesar da sus neutralidade nesse conflito, a Espanha enfrentava uma penosa desestabilização causada por diversos conflitos internos entre proprietários e arrendatários de terras, anticlericalismo e a Igreja, conservadores e liberais, monarquistas e republicanos e entre membros das culturas rurais e urbanas. Em cima disso tudo havia ainda as pressões das regiões internas para ganhar autonomia, o anarquismo e a contumaz interferência dos militares no governo. Foi dentro dessa conjuntura que o golpe militar de 23 de setembro de 1923 obteve sucesso e colocou no governo o general Miguel Primo de Rivera.

No final de 1929, a Espanha sofreu uma nova crise econômica decorrente da recessão mundial provocada pela quebra da bolsa de valores dos Estados Unidos. Embora em janeiro de 1930, o rei Alfonso XIII tivesse conseguido a renúncia de Primo de Rivera, a sua vitória durou pouco, pois em 14 de abril de 1931 um outro golpe militar proclamou a Segunda República Espanhola1, obrigando o rei a deixar o país. A Segunda República Espanhola durou até 1939.

Em junho e julho de 1931 as Cortes Constitucionais foram eleitas e em dezembro do mesmo ano uma nova Constituição foi introduzida. Apesar de tudo, certas divisões internas, como aquelas causadas pelo anti-clericalismo, não foram resolvidas. O Artigo 26 da nova Constituição, que tratava das relações entre o Estado e as ordens religiosas, acabou provocando a renúncia do Primeiro Ministro Niceto Alcalá-Zamora.

O novo governo foi coroado pelas pressões do crescente anticlericalismo e da corrente favorável à implantação de um regime anarquista (comunista libertário). As eleições de novembro de 1933 foram ganhas graças à coalizão dos partidos de direita, sendo que o cargo de Primeiro Ministro ficou para Diego Martínez Barrio do Partido Republicano Radical.

O partido de direita que rivalizava com o Partido Republicano Radical era a Falange, fundada em 1933 por José Antonio Primo de Rivera, filho do ex-ditador Miguel Primo de Rivera. No seu manifesto, a Falange condenou o socialismo, o Marxismo e o capitalismo e propôs que a Espanha se tornasse um país fascista semelhante à Itália de Benito Mussolini. José Antonio foi capturado pelos republicanos em julho de 1936, e em 20 de novembro do mesmo ano foi executado.

Um golpe militar contra o governo do Primeiro Ministro Diego Barrio teve início em 19 de julho de 1936 gerando revoltas em diversos lugares da Espanha, Ilhas Canárias, Marrocos, Sevilha e Aragão. O General Francisco Franco, então no comando do exército na África, aderiu à revolta e retornou à Espanha e passou a liderou a revolta, contando com o apoio de partidos católicos, conservadores, monarquistas e fascistas. Era o início da Guerra Civil Espanhola que perduraria até 1939.

Durante a Guerra Civil na Espanha o General Francisco Franco pediu ajuda à Alemanha e à Itália, enquanto que Diego Barrio solicitou a ajuda do Kremlin. O Comintern soviético mandou o líder do Partido Comunista italiano, Palmiro Togliatti, de codinome Ercoli, para ajudar a formar a ‘frente popular’ republicana liderada pelo espanhol José Diaz. Isso não foi uma tarefa fácil devido às divisões existentes entre os diversos partidos de esquerda, como os trotskistas, os anarquistas e os comunistas independentes.

No cenário mundial a Guerra Civil Espanhola criou uma imagem positiva da esquerda como sendo a força política capaz de enfrentar o nazismo e o fascismo, atraindo o apoio dos comunistas de diversos países principalmente dos Estados Unidos, Grã Bretanha e França. É pertinente lembrar que a imagem positiva da esquerda contou com uma máquina de propaganda muito parecida com àquela empregada na União Soviética. As dezenas de pôsteres produzidos tiveram o efeito esperado, principalmente junto aos jovens como o futuro escritor e jornalista britânico George Orwell (1903-50). É também pertinente lembrar que Orwell registrou nos seus livros Lutando na Espanha (Homage to Cataluña), 1984 e A Revolta dos Bichos (Animal Farm) o seu desencanto com o socialismo.

A Guerra Civil deixou sequelas de longa duração na sociedade espanhola, como as recriminações mútuas entre os simpatizantes da Falange e os simpatizantes dos partidos socialistas e fascistas. Infelizmente os esforços de reconciliação que vinham sendo feitos foram neutralizados pela severa recessão econômica que a Espanha experimentou entre 2008 e 2011. A Espanha reviveu um período de tumultos e revoltas populares e o eleitorado espanhol elegeu o atual governo socialista.

Nota. 1. A Espanha teve uma brevíssima Primeira República que durou de fevereiro de 1873 a janeiro de 1874.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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