Memórias da Guerra Fria

Durante a Guerra Fria os intelectuais do Ocidente, cuja maioria era engajada com a Esquerda, viam os Estados Unidos como o grande vilão e a União Soviética como o exemplo do regime do bem. Milhares de jovens latino-americanos viajaram para a União Soviética a fim de estudar e receber treinamentos diversos. Os especialistas em história latino-americana ligados ao Projeto Inkomka já devem ter uma ideia da estatística desse intercâmbio por país.

A falta de equilíbrio das informações sobre os dois lados da Guerra Fria explica até certo ponto porque a intelectualidade latina era massivamente de esquerda. Todos os atos condenáveis da política externa dos Estados Unidos foram amplamente divulgados pela imprensa falada e escrita. Assim, a população da América Latina tomou conhecimento da malograda invasão da Baía dos Porcos em 1961, das missões militares na Nicarágua e noutros países da América Central e o apoio que foi dado aos governos militares da região. O que a população da América Latina não ficou sabendo, pela total falta de divulgação, foram os atos igualmente condenáveis da política externa da União Soviética que geraram as grandes crises da Iugoslávia, da Albânia e da Polônia.

A antiga república da Iugoslávia (1944-1992), ao ser libertada do domínio alemão no final da Segunda Guerra Mundial, passou a integrar o bloco soviético. O seu presidente, o Marechal Josip Broz Tito (1892-1980), havia participado da Revolução Bolchevique de 1918, sendo portanto um antigo conhecido do ditador Joseph Stalin. Entretanto, nas reuniões do Partido, Tito não hesitava em se expressar abertamente e fazer as críticas que julgava necessárias, o que em 1948 fez com que se tornasse mais um desafeto de Stalin. Após a morte de Stalin em 1953, um bilhete de Tito foi encontrado numa gaveta de sua escrivaninha, com os seguintes dizeres: ‘Stalin: pare de mandar enviados para me matar. Nós já capturamos cinco, um deles com uma bomba e outro com um rifle… Se você não parar de mandar assassinos, eu vou mandar um a Moscou, e não precisarei mandar um segundo’

Após o racha entre Tito e Stalin em 1948, a Albânia, desligou-se da Federação Iugoslava e se juntou diretamente ao bloco soviético, mas em 1961 decidiu se alinhar à China de Mao Zedong. Os acontecimentos da Albânia reverberaram junto às esquerdas de todo o mundo, incluindo na América Latina, onde ganhou muitos adeptos, que eram chamados ‘comunistas da linha Albanesa’.

A Polônia, que também havia passado a integrar o bloco soviético após a Segunda Guerra Mundial, começou a se rebelar contra o domínio soviético ainda na década de 1950, através de greves e protestos de trabalhadores. A perseguição soviética aos poloneses das minorias étnicas como os pomeranos e os judeus, os obrigaram a emigrar para a Alemanha Ocidental e outros países do Ocidente. Dois fatos fortuitos permitiram que o Ocidente tomasse conhecimento do Sindicato Solidariedade, o primeiro sindicato independente do Partido Comunista, surgido em 1980. O primeiro foi o relaxamento das restrições às entradas e saídas do país após 1978, quando o polonês Karol Wojtyla tornou-se o Papa João Paulo II. O segundo foi o fato de ser situado numa cidade que é um importante porto internacional (Gdansk).

Durante a Guerra Fria cerca de 3,45 milhões de pessoas deixaram o Leste Europeu. Foi para conter tal êxodo que o Muro de Berlim foi erguido, como um projeto conjunto entre a Alemanha Oriental e a União Soviética. Foi construído em etapas que começaram em 1961 e terminaram em 1980. Inicialmente o muro era uma monstruosidade de concreto armado e arame farpado, numa extensão de 165,7 quilômetros. A última construção consistiu de blocos de concreto atingindo 3,6 m de altura e com uma espessura de 1,2 m, com uma tubulação lisa no topo para impedir que as pessoas escalassem o muro. Pelo menos 136 pessoas morreram em tentativas de vencer a barreira do Muro de Belém, tendo sido mortos pelos guardas armados, explosões de minas, ou afogamento no rio Spree. Estima-se que entre 1950 e 1988, quatro milhões de alemães do lado leste imigraram para o lado oeste, 86 % destes antes da construção do Muro de Berlin.

Os intelectuais que deixaram o Leste Europeu e se fixaram no Ocidente procuraram alertar o Ocidente sobre a repressão do outro lado da Cortina de Ferro, mas suas vozes raramente eram ouvidas. Um desses intelectuais foi o filósofo polonês Leszek Kolakowski (1927-2009), professor de filosofia da Universidade de Cracóvia, que foi expulso da Polônia em 1968. Além de deixar uma extensa obra de crítica ao Marxismo, Kolakowski analisou o paradoxo da sociedade liberal, ou seja, a tendência de se tornar o seu próprio inimigo devido à sua liberdade de expressão e à sua tolerância às forças capazes de destruir as liberdades individuais.

Não se pode negar que durante a Guerra Fria ambos os Estados Unidos e a União Soviética portaram-se como superpoderes imperialistas. Entretanto, os imperialismos da União Soviética e dos Estados Unidos eram iguais. O imperialismo americano era indireto e baseado no poderio econômico das grandes empresas, ao passo que o imperialismo da União Soviética era direto e político.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.


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