O Trotskismo e a Quarta Internacional

Jo Pires-O’Brien

Lev Davidovich Bronstein ‘Trotsky’ (1879-1940) já era um desafeto de Stalin (Estaline) muito antes de Stalin subir ao poder supremo na União Soviética. De simples desafeto de Stalin ele virou o seu inimigo número quando acusou Stalin de ‘ter finalmente lançado a sua candidatura coveiro do partido e da revolução’. Como era de se esperar, a ascensão de Stalin significou o início da ‘fritura’ de Trotsky. Em 1927 Trotsky foi expulso da facção conhecida como Oposição Unida bem como do Politburo. Trotsky declinou uma capciosa oferta de um emprego na longínqua localidade de Astrakhan, na Ucrânia, afirmando que preferia o exílio.

Em 16 de fevereiro de 1928, sem nenhum aviso, Trotsky, juntamente com a esposa Natalya e o filho caçula Lëva, então com 20 anos, mais o seu secretário Igor Poznanski, foram escoltados para o exílio em Alma-Ata, no Cazaquistão, numa viajem que levou nove dias. Desde então, Trotsky passou a denunciar Stalin abertamente. Do Cazaquistão, Trotsky conseguiu asilo político na Turquia, chegando a Istambul em 22 de fevereiro, sob o pseudônimo de Lev Davidovich Dedov. Por insistir em continuar criticando o governo soviético, em 20 de fevereiro de 1932 Trotsky teve sua cidadania soviética cancelada, passando para a condição de indivíduo sem estado. Em 1935 Trotsky e a esposa foram para a França onde passaram algum tempo e em seguida foram para a Escandinávia.

Como se não bastasse a perda da sua cidadania russa, Trotsky foi acusado pelo regime soviético de participar de uma conspiração terrorista internacional, e em 24 de agosto de 1936 foi julgado à revelia e condenado à morte. Trotsky, que se encontrava na Noruega na ocasião em que foi condenado, foi colocado sob prisão domiciliar pelo governo norueguês, que pretendia extraditá-lo para a União Soviética. Antes da sua extradição, Trotsky recebeu asilo político do governo mexicano, graças à intervenção do pintor Diego Rivera. Em 20 de dezembro de 1936 Trotsky e sua família embarcaram para o México num petroleiro, e em 9 de janeiro de 1937 eles desembarcaram em Tampico, de onde tomaram um trem para a cidade do México, seguindo poucos dias depois para Coyoacán, onde se hospedaram na famosa casa azul da pintora Frida Kahlo.

Uma vez assentado no México, Trotsky movimentou-se para organizar a Quarta Internacional (QI) cujo objetivo era substituir a Terceira Internacional. Apesar de a Quarta Internacional ter fracassado no seu intento de derrubar a Terceira Internacional, o rebuliço em torno da mesma causou um racha irremediável no movimento comunista internacional. Em retaliação, Stalin promoveu uma enorme campanha difamatória contra Trotsky, acusando-o falsamente de interferir na política interna do México. Entretanto, Trotsky usou seu enorme talento como escritor e articulador para contra-atacar Stalin. Depois de sobreviver a diversas tentativas de assassinato a mando de Stalin, em 20 de agosto de 1940 Trotsky recebeu um golpe fatal no crânio com uma picareta de alpinismo, vindo a falecer no dia seguinte. Trotsky teve um enterro de herói e sua morte fortaleceu o Trotskismo em todo o mundo, principalmente depois que as atrocidades do regime de Stalin foram reveladas.

O Trotskismo se espalhou por diversos países da Europa e das Américas como uma alternativa Marxista ao comunismo soviético, apresentando-se quase sempre associado à figura de Lênin. A mera menção da sigla QI, de Quarta Internacional, virou um símbolo indicador do Trotskismo. Dentre os diversos escritos sobre o Trotskismo no Brasil, destaca-se a tese de mestrado de Felipe Abranches Demier, apresentada em 2008 na Universidade Federal Fluminense, intitulada ‘Do movimento operário para a universidade: Leon Trotsky e os estudos sobre o populismo brasileiro’ onde Demier mostra que o pensamento trotskista fazia parte do ‘populismo’ surgido na década de 1930, que foi usado abertamente até o golpe de Estado militar de 1964. Outro ponto importante da tese de Demier é que o pensamento trotskista prevaleceu numa parcela significativa da intelectualidade brasileira no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970.

A biografia de Trotsky publicada em 2009 por Robert Service, professor titular da Universidade de Oxford, Inglaterra, e historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente, mostrou diversos aspectos da personalidade de Trotsky até então desconhecidos. Segundo Service, aquilo que Trotsky defendeu depois que virou exilado não bate com os seus atos no período em que ocupou o poder, como por exemplo: as execuções sumárias de soldados, o seu autoritarismo em querer controlar até as coisas mais triviais como consumir bebida alcoólica e jogar pontas de cigarro no chão, e a maneira cruel como ele costumava esmagar a oposição, tanto nas reuniões do partido quanto nos sindicatos laborais. Service mostra que a estratégica alternativa do socialismo humanitário de Trotsky era inteiramente implausível. Se Trotsky tivesse se tornado ditador ele possivelmente teria se portado da mesma forma como Lênin e Stalin. Leia a resenha da trilogia de Robert Service em PortVitoria 4, 2012: http://www.portvitoria.com.


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O McCartismo e a infiltração comunista nos Estados Unidos

Jo Pires-O’Brien

‘McCartismo’ é a designação da ideologia de perseguição a indivíduos suspeitos de associação ao comunismo nos Estados Unidos, que caracterizou o final da década de quarenta e o início da década de cinquenta. O McCartismo decorreu da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. A Europa Ocidental, as Américas, e a Oceania ficaram ao lado dos Estados Unidos. Com exceção da Itália e da França, todos os países do Ocidente proibiram o funcionamento dos Partidos Comunistas. Onde os Partidos Comunistas foram proibidos, muitos simpatizantes da União Soviética continuaram a agir na clandestinidade.

Em 1947, nos Estados Unidos, a CIA (Central Intelligence Agency) e o Conselho de Segurança Nacional foram criados sob os auspícios da Lei da Segurança Nacional de 1947. O objetivo da CIA era descobrir inteligência (informações) e assegurar a sua validade bem como decidir o nível da segurança nacional em determinado momento. Neste mesmo ano, o Comitê de Atividades Não Americanas do Congresso (House of Un-American Activities Committee – HUAC*), em existência desde 1938, iniciou entrevistas formais a pessoas suspeitas de envolvimento com o comunismo e/ou a União Soviética. Os sindicatos laborais também foram investigados pelas alianças com regimes comunistas. Em resultado dos inflamados discursos anticomunistas do senador Joseph McCarthy (1909-57), de Wisconsin, um clima de desconfiança chegado à paranoia se espalhou pelos Estados Unidos. Muitos dos acusados tiveram suas carreiras arruinadas e eventualmente tiveram que deixar o país, como o dramaturgo Bertold Brecht.

Quando McCarthy denunciou a infiltração comunista no exército americano, o então Presidente Eisenhower percebeu que ele havia ido longe demais. Em 1954, o Congresso americano passou um voto de censura a McCarthy por ter abusado dos seus privilégios parlamentares. Cinco décadas depois, a disponibilização de arquivos americanos revelou que o Senador McArthur havia sido manipulado pelo então Diretor do FBI, J Edgar Hoover, que lhe passou informações erradas, possivelmente com o objetivo de pressionar parentes, amigos e associados dos verdadeiros suspeitos de espionagem a revelarem qualquer coisa sobre os primeiros; outro motivo cogitado foi o de causar embaraços à CIA. A disponibilização dos arquivos do Kremlin, após 1991, revelou que soviéticos promoveram campanhas difamatórias contra McCarthy dentro dos Estados Unidos.

Os erros e os excessos do McCartismo foram amplamente criticados mas poucos críticos sublinharam o caráter altamente subversivo do Partido Comunista Internacional, explícito na missão do Comintern: ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’.

A verdade sobre a espionagem soviética e a verdadeira extensão da atuação do Comintern não só nos Estados Unidos mas também na América Latina e noutros países do Ocidente começou a emergir em 1995, quando os transcritos do projeto Verona foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos visando sua transcrição para o alfabeto latino e subsequente tradução para o inglês. A disponibilização dos arquivos do Kremlin já mostrou que milhares de americanos mantiveram ligações o Comintern antes, durante e após a era do McCartismo.

PS. Por iniciativa do democrata Samuel Dickenstein o Comitê de Atividades Não Americanas do Congresso (House of Un-American Activities Committee – HUAC) foi criado em 1938 para investigar os simpatizantes da Alemanha. Com o fim da Segunda Guerra Mundial o HUAC ficou sem função por um tempo até a Guerra Fria, quando foi reativado pelo senador Joseph McCarthy. Os excessos cometidos por McCarthy fizeram com que este fosse taxado de fascista, ‘bully’ e mentiroso. A revisão dos fatos ocorridos na época traz duas correções: (i) comunistas americanos usaram táticas semelhantes contra comunistas da facção Trotskista; (ii) McCarthy não era um nacionalista de direita (right-wing) pois as suas raízes políticas eram fincadas no progressivismo norte-americano. (Fonte: Goldberg, Jonah. Liberal Fascism. The Secret History of the American Left from Mussolini to the Politics of Meaning 2008).


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A Terceira Internacional e o Comintern

Jo Pires-O’Brien

Em março de 1919, em São Petersburgo, Lênin (Lenine) abriu o congresso da Terceira Internacional Comunista. Este foi o mais famoso e mais duradouro congresso internacional de trabalhadores. A sua missão de ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional, como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’ era altamente subversiva pois atentava contra a soberania das nações de todo o mundo. A Terceira Internacional criou um Comitê Executivo – Comintern – para dirigir a luta internacional, incluindo um jornal homônimo cujo primeiro número saiu em maio de 1919. Logo depois do congresso o Comintern enviou emissários a diversos países, visando criar novos partidos comunistas e trazer os partidos comunistas e socialistas já existentes para debaixo do seu guarda-chuva.

Apesar do objetivo internacional do Comintern, nos primeiros anos do regime comunista soviético os problemas internos ganharam prioridade e a expansão internacional ficou em segundo plano. A própria expansão internacional priorizou os países industrializados, seguindo a especificação Marxista de que a revolução internacional viria dos trabalhadores da indústria.

O Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) foi fundado em 1919, em Chicago. Na na época da sua fundação este contava com sessenta mil membros, incluindo anarquistas e outros radicais de esquerda. O mesmo promovia o ‘internacionalismo do proletariado’ e uma rede de inteligência, a qual governo americano chamava de ‘espionagem’. Em 1927, a sede do CPUSA mudou-se para Nova Iorque, juntamente o ‘Daily Worker’, o seu porta-voz oficial. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, o CPUSA passou para a clandestinidade, e seus documentos eram mantidos escondidos ou destruídos.

Embora a América Latina também tivesse um movimento sindical iniciante, a atuação inicial do Comintern foi dificultada pelo fato da maioria dos trabalhadores ser católicos praticantes que não aprovavam o ateísmo embutido no Marxismo. A Argentina e o Chile, na ocasião os países mais adiantados da América Latina, foram os primeiros a receber a atenção do Comintern. O Partido Comunista do Brasil (PCB) só foi fundado em 1922, bem depois do Chile e da Argentina. Diversas informações sobre a conexão brasileira com o regime soviético podem ser encontradas no artigo de Carlos Ilich Santos Azambuja, ‘Histórias quase esquecidas’, publicado no jornal eletrônico ‘Mídia Sem Máscara’.
A partir de 1992, os arquivos do Kremlin foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, visando sua transcrição para o alfabeto latino e subsequente tradução para o inglês. Como resultado deste projeto a verdadeira extensão da atuação do Comintern nos Estados Unidos e nos outros países do Ocidente foi revelada, incluindo a relação das diversas representações clandestinas do Comintern nos Estados Unidos.


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As revoluções de fevereiro e de outubro de 1917

Jo Pires-O’Brien

Ao contrário do que muita gente pressupõe, a Revolução Russa de fevereiro de 1917 não foi feita pelos bolcheviques. Na antevéspera da Revolução de Fevereiro, a Rússia estava sofrendo uma terrível falta de alimentos, e como o governo do Czar Nicolau II estava enfraquecido devido à oposição popular à Segunda Guerra, este não conseguiu conter a série de insurreições e as greves de trabalhadores que pipocaram em todo o país. A situação era pior em São Petersburgo (Petrograd),  onde o povo enfurecido começou a saquear armazéns e padarias. Em 27 de fevereiro, um Governo Provisório foi formado. No dia 2 de março o Czar procurou mudar o curso dos acontecimentos abdicando em favor do seu irmão Miguel, mas não conseguiu.

O Partido Operário Social-Democrata — POSDR — aguardava há anos uma oportunidade de tomar o poder, mas isso não foi possível em fevereiro de 1917 pois Lênin e outros líderes revolucionários ainda se encontravam no exílio. Assim que souberam que a monarquia havia sido derrubada eles retornaram a Petrograd e começaram a tramar o modo de derrubar o Governo Provisório.

Em outubro Lênin fez a sua famosa Revolução de Outubro, também conhecida como Revolução Bolchevista, designação da ala majoritária do POSDR, que teve uma participação mais atuante. Quando Lênin montou o novo governo ele deixou de lado os mencheviques por julgar que eles não tinham o espírito revolucionário necessário.  E, foi assim que poucos meses depois da Revolução de Outubro a estrutura do novo estado se cristalizou em torno de um só partido – o Partido Comunista – e um poder judiciário altamente politizado, com o Estado totalitário controlador da economia e da própria sociedade. Em 1918, em plena Guerra Civil, Lênin mandou executar o ex-Czar Nicolau II e toda a sua família. A Revolução de Outubro não tinha o apoio da população, e para obtê-lo, criou uma poderosa e altamente nacionalista máquina de propaganda.


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Os intérpretes russos de Marx

Jo Pires-O’Brien

Como O Capital de Karl Marx havia sido publicado em alemão, os primeiros intérpretes de Marx eram indivíduos que falavam o alemão, quer como primeira língua ou como segunda. Os que tinham essa facilidade e leram O Capital sabiam que para Marx a revolução socialista adviria de uma sociedade industrializada e com significativa força de trabalho oriunda da indústria, como a Alemanha ou da Inglaterra.

Georgi Plekhanov (1857-1918) foi o único intérprete russo de Marx que insistiu que a Rússia, por ter uma economia essencialmente agrária, não era a sociedade a que Marx havia se referido. Quando era um jovem universitário Plekhanov se envolveu com o Partido da Determinação do Povo (Narodnaia Volia) do qual ele posteriormente se afastou por discordar de suas práticas terroristas. Apesar disto, Plekhanov entrou para a lista de procurados da polícia do Czar, Okhanara, e em 1880 ele se refugiou na Suíça. De sua base em Genebra, Plekhanov retraduziu O Manifesto Comunista para o russo, corrigindo a tradução existente, que havia sido feita pelo anarquista Bakunin. Ele também ajudou a fundar o ‘Grupo de Emancipação do Trabalho’, a primeira organização voltada a divulgar o Marxismo na língua russa.

O Marxismo refere-se ao conjunto das interpretações de Marx, certas ou erradas. A maioria dos intérpretes de Marx deram interpretações inteiramente casuísticas às suas ideias. Peter Tkachev (1844-88), um projetista de armas, defendia a tese de que o Marxismo era perfeitamente adaptável à sociedade essencialmente agrária da Rússia. Outra opinião parecida era a de Vera Zasulich (1849-1919), líder dos socialistas agrários, para quem os trabalhadores da sociedade agrária da Rússia poderia tomar o lugar dos trabalhadores da indústria numa revolução socialista. Joseph Stalin (1879-1953), por sua vez, forçou os dados estatísticos disponíveis para afirmar que a economia da Rússia não era agrária mas sim pré-capitalista e portanto adequada à revolução Marxista.

As interpretações mais fiéis de Marx foram consistentemente vencidas. Aquelas que eram favoráveis à causa da revolução na Rússia foram as que ganharam a preferência da maioria dos líderes dos trabalhadores, que incluía Wladimir Lênin e Joseph Stálin.


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POSDR – O partido dividido

Jo Pires-O’Brien

O POSDR, ou Partido Operário Social-Democrata, foi criado em 1898, em Zurique, por um grupo de socialistas russos exilados. A ideia era unificar os diversos grupos de socialistas que competiam entre si em torno do manifesto de conclamar a classe dos trabalhadores para a revolução contra a monarquia Romanov, visando o estabelecimento de uma república democrática. O mesmo grupo que fundou o POSDR fundou o jornal do partido, Iskra (A Centelha), inicialmente com sede em Munique, cuja primeira edição saiu em dezembro de 1898. Lênin (Vladimir Iilitch) fez parte desse grupo, juntamente com Georg Plekanov, Pavel Axelrod, Vera Zasulich, Julius Martov e Aleksandr Potresov. Lênin era o líder maior do partido. Plekanov, considerado o intérprete mais fiel de Marx, ficou encarregado do Iskra.

O POSDR mal começara a existir quando começaram os desentendimentos entre os seus líderes. O primeiro desentendimento foi sob quem iria comandar o Iskra. Lênin queria que todo o grupo ficasse encarregado, mas teve que engolir a nomeação de Plekanov. Uma série de pequenos desentendimentos ocorreram quando membros do grupo editorial não aceitavam alguma coisa que Plekanov havia escrito. O grande problema era que Plekanov ainda preservava uma boa dose de racionalidade, enquanto que a obsessão revolucionária dos demais, havia desalojado as deles.

Plekanov tentou controlar o movimento revolucionário na esperança de impedir que a revolução dos trabalhadores viesse a repetisse os mesmos erros dos revolucionários franceses. Lênin e os demais tinham outras ideias. Lênin trocou interpretação de Marx de Plekanov pela de Petr Tkachev, cujo determinismo histórico era ainda mais forte do que o de Marx. Tkachev era também associado a terroristas e instigava a violência como meio de chegar ao objetivo final. Em 1903, ocorreu a ruptura entre Lênin e Plekhanov. Na esperança de salvar o POSDR, duas facções do partido foram oficialmente reconhecidas: a facção menchevista, dos seguidores de Plekanov – a minoritária, e a facção bolchevista, dos seguidores de Lênin – a majoritária.

Apesar do racha do POSDR, Plekhanov continuou no comando do Iskra. Aos trancos e barrancos o POSDR foi sobrevivendo. A entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial fez com que Plekhanov parasse de promover a revolução dos trabalhadores no Iskra. As atrocidades da Primeira Guerra e o sentimento patriota possivelmente o convenceram a tomar essa atitude. Numa editorial que escreveu durante a Primeira Guerra, Plekhanov previu que caso algum grupo de insurgentes viesse a derrubar o governo do Czar, tudo o que conseguiriam seria trocar um governo autoritário por outro, e com a possibilidade de recriar o Reino do Terror ocorrido logo após a Revolução Francesa.

Lênin não concordou com o editorial de Plekhanov acima mencionado, mas se esquivou a apresentar uma réplica. O país de Lênin não era a sociedade real, a Rússia, que naquele momento estava em guerra, mas a ‘sociedade de prancheta’ imaginada por Marx. Por esse motivo, Lênin não só torceu pela vitória dos alemães, mas também desejou uma guerra civil espalhada por toda a Europa, pois achava que isso iria favorecer a revolução dos trabalhadores.

O POSDR com as suas conflitantes alas majoritária (Bolchevique) e minoritária (Menchevique) é mais um exemplo da história onde a razão é vencida pelo barbarismo, simplesmente por ter poucos defensores. Apenas Plekanov, o líder da minoria, manteve uma atitude racional, caracterizada pela abertura a argumentos e à mudanças de situação. O fato de que apenas uma minoria foi capaz de absorver o racionalismo de Plekanov mostra que nenhuma democracia pode prescindir da educação.


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As internacionais comunistas

Jo Pires-O’Brien

A publicação do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels em 1848 causou um rebuliço nos movimentos sindicais de todo o mundo. Em resultado do ativismo de Marx e outros teóricos do socialismo, os sindicatos de trabalhadores se organizaram internacionalmente, e, passaram a promover os Congressos Internacionais de Trabalhadores, conhecidos inicialmente como ‘Internacionais’ e mais tarde como ‘Internacionais Comunistas’. Os internacionalistas, como os participantes das convenções internacionais eram chamados, não formavam um grupo uniforme, mas dividiam-se em facções.

O primeiro congresso internacional dos trabalhadores comunistas, também conhecido como Primeira (Socialista) Internacional, teve lugar em Londres, em 1864. O evento excluiu os sindicalistas ligados à organizações anarquistas e elegeu um Conselho Geral, composto de 32 membros, dentre os quais se achava Karl Marx, embora este não estivesse presente na mesma.

Apesar de vir sido planejada desde 1881 a Segunda (Socialista) Internacional ocorrida em Paris em 1889 foi feita em duas reuniões concomitantes, devido à divisão dos congressistas entre o grupo dos Possibilitas e os Marxistas. A maioria dos participantes franceses que apoiava os Possibilitas enquanto que a maioria dos alemães apoiava o Marxismo. Apesar da separação, a Segunda Internacional de 1889 encontrou alguns denominadores comuns: a chamada geral para o pacifismo e o antimilitarismo e a escolha do 1.º de maio para comemorar o dia do trabalhador. Também foi a partir desta reunião que começou o movimento para reduzir para 8 horas o dia de trabalho.

O movimento dos trabalhadores foi interrompido pela Primeira Guerra Mundial quando os diversos partidos socialistas abandonaram o édito do pacifismo e antimilitarismo e apoiaram seus países. Por acreditar que a revolução Marxista era um processo internacional e permanente e que apenas se consolidaria depois que os países industrializados fizessem as suas revoluções de trabalhadores, Lênin se posicionou contra o seu próprio país, pensando que uma Guerra Civil Europeia facilitaria a implantação do regime socialista em toda a Europa. A facção Bolchevista do POSDR (Partido Trabalhista Social Democrata da Rússia) sob o seu comando, deixou claro que não descartaria a violência e a luta armada para a implantação do regime socialista.
Já no poder, Lênin promoveu a terceira convenção internacional dos trabalhadores – designada Terceira Internacional Comunista, e esta criou o Comitê Executivo da Internacional Comunista, Comintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo.

A Terceira Internacional foi a mais famosa de todas as convenções internacionais de trabalhadores, e teve lugar em março de 1919 em Petrogrado – como São Petersburgo passou a ser chamada durante a guerra contra a Alemanha, pois o nome São Petersburgo era considerado demasiadamente teutônico. No evento foi criado o Comitê Executivo da Internacional Comunista, também conhecido como Comintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo. Seu objetivo declarado era ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’. O Comintern se estabeleceu em todo o mundo através da sua coordenadoria em Moscou.

A Quarta Internacional não foi um Congresso como os outros, pois envolveu apenas a facção dissidente ligada a Trotsky, e, não conseguiu reunir nem mesmo os trabalhadores americanos.

A história das Internacionais mostra claramente que eram conduzidas por intelectuais e não por trabalhadores, e que os intelectuais usavam a causa dos trabalhadores para resolver suas disputas de egos. A maioria dos trabalhadores comuns apenas queria viver em paz e dignamente. Até na Rússia os intelectuais que lideraram a revolução tiveram enorme dificuldades de persuadir os trabalhadores que a revolução socialista iria valer a pena para eles. O regime soviético entretanto foi mais chegado a uma autocracia do que à ditadura do proletariado.


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A verdade sobre Stalin

Jo Pires-O’Brien

Algum tempo após a morte de Lênin, em 1924, Stalin (Estaline), que ocupava o cargo de Comissário do Povo, foi elevado no comando supremo da Rússia. Stalin era oito anos mais moço que Lênin e bem mais pragmático que este. Na ocasião em que Stalin chegou poder, a maioria das lideranças do Partido Comunista ainda julgava que era preciso estender a revolução Marxista para o resto do mundo para que a revolução Bolchevique desse certo na Rússia. Stalin decidiu colocar essa ideia de molho a fim de poder resolver o problema da falta de alimentos e outros os problemas graves que teve que enfrentar, introduzindo uma nova postura conhecida como ‘o socialismo de um só país’. Essa postura de Stalin voltada a priorizar os problemas internos, não foi muito bem recebida pelos internacionalistas. Entretanto, o Comintern continuou a sua tarefa de ligar a esquerda de todo o mundo.

Stalin introduziu um regime de repressão sem precedência, caracterizado pela proibição religiosa, prisões arbitrárias, julgamentos de fachada, execuções em massa e campos de trabalhos forçados. O exílio de Trotsky em 1929 foi o primeiro sinal que os ocidentais receberam de que as coisas na União Soviética não estavam indo conforme o esperado. Refugiados russos que chegavam às dezenas na França trouxeram informações frescas sobre as atrocidades de Stalin. Alguns intelectuais resolveram ir à União Soviética para checar por si próprios a situação, como o francês André Gide e o americano Edmund Wilson. Quando retornaram, Gide informou que Stalin havia violado todas as regras da revolução socialista e Wilson admitiu que em termos de democracia a situação na União Soviética era pior que na época do Czar.

Apesar da verdade sobre o regime de Stalin já ter sido divulgada, uma boa parte dos intelectuais do Ocidente persistiram em apoiar o socialismo marxista. Uma das justificativas mais comuns que persiste até hoje é que o socialismo marxista é bom, mas havia sido desvirtuado por Stalin. Até hoje os propagandistas do socialismo marxista usam uma terminologia que embute desculpas para as atrocidades ao mesmo associadas. É muito comum um socialista afirmar que se fosse ele que estivesse no poder as coisas seriam diferentes.


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O Marxismo e os intelectuais

Jo Pires-O’Brien

O Marxismo sempre teve um aliado nos intelectuais, e, quase sempre há um intelectual Marxista mexendo os pauzinhos junto aos trabalhadores da indústria e do campo. Segundo o historiador Robert Service, autor das biografias mais recentes e apuradas de Lênin, Stalin e Trotsky, os conspiradores Marxistas de São Petersburgo que organizaram a revolução Bolchevique, eram todos intelectuais. Lênin lia Marx e as obras sobre o Marxismo e mantinha discussões com outros revolucionários, embora não com os trabalhadores da indústria ou do campo. Embora as discussões dos conspiradores Marxistas de São Petersburgo não incluísse trabalhadores, a questão dos trabalhadores volta e meia vinha à tona. Segundo Service, a facção veterana dos conspiradores, liderada por Stepan Radchenco, chegou a afirmar: ‘nenhum trabalhador tinha condições de fazer melhor do que um intelectual dedicado e bom conhecedor da literatura relevante’. Entretanto, a facção ‘jovem’, que incluía K. M. Takhtarev e Apollinaria Yakubova, defendia a ideia contrária de que os trabalhadores deveriam ter a oportunidade de participar da conspiração. Segundo Service, a postura de Lênin não se encaixava nem na facção ‘veterana’ e, nem na facção ‘jovem’, embora fosse mais próxima de Radchenco do que de Takhtarev e Yakubova. Lênin não tinha objeções a que os trabalhadores ocupassem postos de responsabilidade no movimento Marxista, mas julgava que para isso era necessário que eles recebessem primeiro um embasamento intelectual.

Mesmo antes da Revolução Bolchevista de 1917, o Marxismo já estava presente na Europa Ocidental e nas Américas. Em 1916, quando Trotsky chegou a Nova Iorque com a família vindo da Espanha, de onde havia sido expulso, ele foi recebido com honras pela comunidade de imigrantes russos e pela imprensa, e fez diversas palestras nos sindicatos de trabalhadores. Ao tomar conhecimento da Revolução de Fevereiro de 1917 que depôs o Czar e instalou o governo provisório, Trotsky imediatamente providenciou documentos de viagem junto ao consulado Russo e em 27 de março embarcou com a família de volta à Rússia. Cerca de trezentas pessoas foram despedir dele no cais do porto levando bandeirolas e flores, e alguns revolucionários americanos chegaram a comprar passagens no mesmo navio apenas para estar perto dele.

As lucubrações dos intelectuais do Ocidente passaram a um novo patamar a partir de outubro de 1917, quando os bolchevistas derrubaram o Governo Provisório com uma segunda revolução, e introduziram na Rússia o experimento do socialismo Marxista. Esse novo patamar era caracterizado pela expectativa mundial de que se a revolução dos trabalhadores desse certo na Rússia, o socialismo funcionaria ainda melhor nos países industrializados. Na Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá e em toda a América Latina, milhares de intelectuais letrados e cientistas empregaram as suas posições na sociedade para persuadir outras pessoas sobre as promessas do Marxismo. As expectativas gerais eram reforçadas pela propaganda gráfica que chegava da Rússia.

Paris, que já era um ponto de convergência de escritores, poetas, músicos e artistas de todo o mundo passou a ser também a Meca do Marxismo. Muitos intelectuais americanos que haviam trabalhado como voluntários na Europa durante a Primeira Guerra Mundial retornaram à França para conhecer os principais porta-vozes do Marxismo como André Gide, André Malraux e Émile Zola. Ao retornar para os Estados Unidos eles procuraram estender neste país a ideologia do Marxismo. A Tabela 1, a seguir mostra alguns nomes de importantes escritores e pensadores marxistas do século vinte, da França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e América Latina.

Nas Américas, a quebra da bolsa de valores em outubro de 1929 e a subsequente depressão econômica resultante da mesma, representaram uma enorme colher de chá para o Marxismo. Nas próximas eleições presidenciais de 1933, os americanos escolheram Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), que era simpático ao socialismo Marxista. Durante o seu governo, FDR reconheceu a União Soviética, adotou uma política diplomática internacionalista e introduziu o New Deal. Na América Latina, a expansão do Marxismo foi impulsionada não só pela depressão econômica, mas também pela proliferação de centros de novos imigrantes italianos e germânicos.

Tabela 1. Intelectuais marxistas e/ou comunistas Europeus e Americanos da primeira metade do século vinte. Os nomes com asteriscos mostram os intelectuais que posteriormente deixaram de apoiar o socialismo.

 
França Grã-Bretanha Estados Unidos América Latina
Émile Zola G. H. Wells* Edmund Wilson* Jorge Luis Borges*
André Gide* Christopher Hill John dos Passos* Gabriel G. Márquez
Henri Barbusse Bertrand Russell* Norman Mailer Pablo Neruda
Jules de Gaultier George B. Shaw* Max Eastman* Octavio Paz*
André Gorz John Desmond Bernal Ernest Hemingway José C. Mariátegui
André Malraux* Ludwig Wittgenstein Theodore Dreiser Manuel Puig
Paul Nizan* Anthony Burgess William Z. Foster Euclides da Cunha
Lucien Sève George Orwell* Langston Hughes Guimarães Rosa
Pierre Broué Tony Benn John H. Lawson Jorge Amado
Benny Lévy Peter Taaffe James Burnham Mario Vargas Llosa*

 


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Os antecedentes da Revolução Bolchevique

Jo Pires-O’Brien

Uma das narrativas mais bem conhecidas dos fatos que precederam a Revolução Bolchevique, também conhecida como Revolução de Outubro, é o livro de Edmund Wilson Rumo à Estação Finlândia, cuja primeira edição foi publicada em setembro de 1940. Wilson foi um jornalista, periodista, escritor e crítico de sucesso nos Estados Unidos, renomado pela precisão e clareza do seu estilo. Trata-se de um interessante apanhado da história do socialismo, passando por Vico, Michelet, Fourier, Saint-Simon e LaSale, e que mostra como Marx e o Marxismo influenciaram Lênin, Trotsky, Stalin e os outros intelectuais que fizeram a Revolução Bolchevista de outubro de 1917.

Como uma boa parte dos intelectuais americanos, Wilson era um comunista ardente que acreditava piamente no socialismo soviético. Na época em que escrevia Rumo à Estação Finlândia Wilson tomou ciência das atrocidades do regime de Stalin e decidiu ir para a Rússia para verificar por si próprio. Ele retornou desencantado em 1938, quando admitiu que a situação na Rússia era pior que na época do Czar. Na tentativa de resgatar o tempo dispendido no manuscrito, Wilson apenas eliminou o capítulo sobre Stalin e concluiu a narrativa com a chegada de Lênin e dos revolucionários exilados na Estação Finlândia de São Petersburgo.

Na ocasião da publicação de Rumo à Estação Finlândia uma das mais contundentes críticas recebidas foi sobre o fato dele ter feito uma descrição humanitária e benevolente de Lênin, resultante da falha em consultar a principal biografia de Lênin, de Mark Landau Aldanov, cuja tradução inglesa havia sido publicada em 1922. Apenas na edição de 1971 Wilson escreveu uma nova introdução admitindo ter errado no seu julgamento da Revolução Russa e do regime por esta implantado e que o livro representa a sua maneira de pensar na ocasião que o escreveu.

A decisão de Wilson de publicar o livro e lançar novas edições foi feita para ganho financeiro. As elevadas credenciais do autor agravaram a falta moral cometida e a sua tardia admissão do erro não bastou para remover a mancha da sua desonra.


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