Apresentação do blog ‘Armadilhas do Marxismo’

Jo Pires-O’Brien

A sociedade brasileira deixou na minha lembrança algumas obscuridades inquietadoras que eu resolvi tentar compreender à luz da distância física e do tempo. Uma dessas obscuridades tem a ver com o fracasso na comunicação com uma certa categoria de indivíduos que me pareciam refratários à troca de ideias. Talvez para diminuir o desassossego da omissão do refrator, eu havia assumido a culpa, atribuindo a falha de comunicação à própria inépcia.

No desenrolar do meu projeto de passar a limpo o passado, descobri que eu não era a única pessoa a se frustrar com o fracasso da comunicação com pessoas refratárias. Descobri que o filósofo Karl Raymond Popper (1902-94) havia experimentado algo parecido, quando disse: “Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere nos matar a ser convencido pelos nossos argumentos”. Popper atribuiu à doutrinação ideológica a barreira das pessoas à argumentação, e procurou mostrar que o Marxismo foi a ideologia que mais causou incompreensões, divisões e conflitos durante todo o século vinte. Segundo Popper, a desinclinação para ouvir argumentos e reavaliar posições faz parte da atitude do irracionalismo, o único problema realmente sério da humanidade.

Popper mostrou como Marx abusou da história para construir as suas falsas leis profetícias da sociedade perfeita. No tocante ao experimento do socialismo Marxista que se estendeu na União Soviética de 1917 até 1991, a própria história deu o parecer final: “os 74 anos do período comunista foram um retrocesso à era da obscuridade e resultaram de um enorme erro cometido por dois terroristas chamados Lênin e Trotsky” Essa frase condensa a narrativa histórica do período comunista, conforme descrito pelos museus de história contemporânea da Rússia, de acordo com o relatório de uma viagem Rússia publicado em 2010 em Contemporary Review.

Tendo aceitado a explicação de Popper sobre o irracionalismo das pessoas refratárias, resolvi escrever este blog sobre os enganos do Marxismo e a herança negativa que o socialismo deixou e continua deixando na sociedade. Eu espero mostrar esses enganos através de curtos resumos críticos de fatos e temas selecionados. Embora muitos desses enganos tenham sido causados pela cegueira ideológica, outros tantos foram erros cometidos deliberadamente em nome de um objetivo. Como a revolução internacional dos trabalhadores era absolutamente necessária para acabar com o capitalismo que os oprimia, alguns milhares de vidas e um punhado de violações de direitos humanos pouco representavam em comparação como o grandioso objetivo final. Sem capitalismo e sem propriedade privada, tudo seria de todos; os vícios do ócio e do parasitismo social seriam extirpados por algum decreto do governo; cada qual contribuiria conforme as suas capacidades e receberia conforme as suas necessidades; e como todos os trabalhadores teriam a mesma remuneração, não haveria mais classes sociais. O Marxismo prometeu um paraíso na terra, mas resultou apenas em distopias.

No conjunto das histórias relatadas procurarei mostrar como é injusto comparar regimes políticos da sociedade real com idealizações da sociedade perfeita que o Marxismo prometeu. Nem a melhor democracia liberal, em que há igualdade perante a lei e na qual cada indivíduo é livre para tirar o melhor proveito de suas capacidades e oportunidades, –– com a ressalva de não interferir na liberdade dos outros de usufruir o mesmo direito –– , pode competir com a sociedade de prancheta do socialismo Marxista.

Comentários e críticas construtivas são bem-vindos.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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A rede Comintern-Politburo

Jo Pires-O’Brien

A sociedade perfeita projetada por Marx, conquistou corações e mentes em toda a Europa enquanto que o experimento Marxista na Rússia gerou uma expectativa em todo o mundo de que a revolução dos trabalhadores estava prestes a acontecer.

Lênin (Lenine) era líder do Partido Comunista soviético, cujo Politburo havia convocado a Terceira Internacional Comunista, realizada em 1919 em São Petersburgo, com a participação de representantes de treze países. Como já foi mostrei numa postagem anterior, a Terceira Internacional criou o Comintern a fim de ser o seu braço executivo, responsável pela organização da revolução mundial dos trabalhadores, elegendo Grigory Zinoviev como o seu primeiro presidente. Assim, os dois mandachuvas do movimento internacional revolução dos trabalhadores eram o Comintern, mais o Politburo do Partido Comunista russo.

Diversos países já tinham partidos socialistas antes da criação do Comintern, como a França e a Argentina. Na França, a decisão do partido socialista de se associar ao Comintern foi uma deliberação da reunião realizada em Tours em dezembro de 1920. Entretanto, os partidos comunistas e socialistas sob o guarda-chuva do Comintern, na verdade ficavam sob o Politburo de Moscou. Até o final da década de 1930 a maior parte dos partidos de esquerda de todo o mundo estava sob o guarda-chuva do Comintern e de Moscou.

Nas grandes cidades do Ocidente crescia o número de intelectuais atuantes na promoção do socialismo Marxista. Entretanto, a capital mundial do Marxismo era Paris. Era para lá que convergiam os escritores, poetas, músicos e artistas de todo o mundo que eram simpáticos ao Marxismo. Paris era também um destino frequente dos oficiais do Politburo e do Comintern.

A real extensão da rede mundial do comunismo ligado ao Comintern e ao Politburo soviético entre 1919 e 1943 começou a ser revelada no final da Guerra Fria, quando os arquivos do Kremlin foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, através de um acordo de cooperação bilateral. Desde então, a Biblioteca do Congresso vem coordenando o projeto INCOMKA, voltado à digitação desses arquivos, por nove instituições participantes as quais contam com a colaboração de indivíduos em todo o mundo. Uma das tarefas mais árduas foi converter nomes de pessoas escritos no alfabeto cirílico para o alfabeto latino. Outra tarefa incluía traduzir trechos principais do arquivo do russo para o inglês. O banco de dados do Incomka já se encontra disponível aos usuários da Biblioteca do Congresso e breve deverá ser disponibilizado através da internet.


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A cultura de Weimar e o Nazismo

Jo Pires-O’Brien

Depois da Primeira Guerra Mundial a Alemanha virou uma república democrática e constitucional conhecida como ‘República de Weimar’, em referência ao nome de sua nova capital. A breve existência da República de Weimar foi coroada pelos problemas decorrentes da devastação da guerra: a falta de alimentos, o desassossego social causado por extremistas de direita e de esquerda, e a hiperinflação. Apesar de todos esses percalços, Weimar atraiu um grupo de notáveis escritores, artistas, arquitetos e filósofos como Otto Dix, Grosz, Kandinsky, Nolte, Gropius, Lubitsch, Lang, Murnau e Pabst, Hauptmann, Brecht, Reinhardt, Piscator, os irmãos Mann, Husserl e Heidegger. A concentração de artistas e intelectuais em Weimar deu origem à designação ‘cultura de Weimar’. Essa cultura se identificava com as correntes do ‘Neue Sichklichkeit’ – a nova objetividade –, bem como com movimentos de vanguarda como o expressionismo, o dadaísmo, a escola Bauhaus, a fenomenologia e o existencialismo.

A partir de 1923 parecia que a República de Weimar estava o caminho certo para a recuperação da Alemanha, pois até 1930, o Partido do Nacional Socialismo (o Partido Nazista) não passava de um grupo estridente e marginal. O grande golpe do Nacional Socialismo ocorreu em decorrência da crise econômica ocorrida após a quebra da bolsa de valores da Wall Street em outubro de 1929, quando os Estados Unidos pediram à Alemanha o pagamento de empréstimos tomados. No desespero causado pela nova crise econômica o povo alemão agarrou-se nas promessas de um suposto salvador que soube tirar proveito do rádio como veículo de comunicar-se com as massas. Entretanto, os intelectuais e artistas alemães da época, coletivamente conhecidos como ‘a cultura de Weimar’, não enxergaram os problemas éticos e morais das políticas do Nacional Socialismo, contribuindo assim para o desaparecimento da República alemã (a República de Weimar)em 1933.

A ligação entre ‘a cultura de Weimar’ e o Nazismo foi amplamente escrutinada pela filósofa Hanna Arendt (1906-75), uma judia alemã que em 1940 mudou-se para os Estados Unidos e em 1951 se tornou cidadã americana. Na Alemanha, Arendt havia convivido com a Cultura de Weimar, tendo sido inclusive aluna e amante do filósofo Martin Heidegger, que apoiou abertamente o Nacional Socialismo, pelo menos nos seus primeiros anos. Depois do fim da Segunda Guerra, quando os pormenores do Holocausto foram revelados ao mundo, Arendt procurou entender porque os intelectuais da Cultura de Weimar haviam falhado no tocante ao Nazismo, questionando tudo e todos sobre o Holocausto, desde a compactuação dos alemães até a colaboração dos próprios judeus.

Na época em que Arendt começou a escrever os seus livros, havia uma enorme pressão para enterrar o passado, pois se acreditava que só assim o mundo poderia seguir adiante. Embora tal pressão tivesse atingido até mesmo os sobreviventes do Holocausto, que evitaram remoer as suas lembranças, Arendt tomou a corajosa posição de ir contra a corrente e expor a verdade: ‘Não devemos fechar os olhos ao passado pois o mundo do momento é também o mundo do passado, uma vez que consiste daquilo que foi deixado por outros’, escreveu Arendt.

PS. Conquanto a maior parte dos intelectuais da ‘cultura de Weimar’ ignorou a ameaça do Nacional Socialismo, o filósofo Martin Heiddeger apoiou o nazismo e Hitler. Ao ser confrontado sobre isso depois do final da Segunda Guerra, Heiddeger respondeu que ‘os grandes pensadores cometem grandes erros’.


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O Trotskismo e a Quarta Internacional

Jo Pires-O’Brien

Lev Davidovich Bronstein ‘Trotsky’ (1879-1940) já era um desafeto de Stalin (Estaline) muito antes de Stalin subir ao poder supremo na União Soviética. De simples desafeto de Stalin ele virou o seu inimigo número quando acusou Stalin de ‘ter finalmente lançado a sua candidatura coveiro do partido e da revolução’. Como era de se esperar, a ascensão de Stalin significou o início da ‘fritura’ de Trotsky. Em 1927 Trotsky foi expulso da facção conhecida como Oposição Unida bem como do Politburo. Trotsky declinou uma capciosa oferta de um emprego na longínqua localidade de Astrakhan, na Ucrânia, afirmando que preferia o exílio.

Em 16 de fevereiro de 1928, sem nenhum aviso, Trotsky, juntamente com a esposa Natalya e o filho caçula Lëva, então com 20 anos, mais o seu secretário Igor Poznanski, foram escoltados para o exílio em Alma-Ata, no Cazaquistão, numa viajem que levou nove dias. Desde então, Trotsky passou a denunciar Stalin abertamente. Do Cazaquistão, Trotsky conseguiu asilo político na Turquia, chegando a Istambul em 22 de fevereiro, sob o pseudônimo de Lev Davidovich Dedov. Por insistir em continuar criticando o governo soviético, em 20 de fevereiro de 1932 Trotsky teve sua cidadania soviética cancelada, passando para a condição de indivíduo sem estado. Em 1935 Trotsky e a esposa foram para a França onde passaram algum tempo e em seguida foram para a Escandinávia.

Como se não bastasse a perda da sua cidadania russa, Trotsky foi acusado pelo regime soviético de participar de uma conspiração terrorista internacional, e em 24 de agosto de 1936 foi julgado à revelia e condenado à morte. Trotsky, que se encontrava na Noruega na ocasião em que foi condenado, foi colocado sob prisão domiciliar pelo governo norueguês, que pretendia extraditá-lo para a União Soviética. Antes da sua extradição, Trotsky recebeu asilo político do governo mexicano, graças à intervenção do pintor Diego Rivera. Em 20 de dezembro de 1936 Trotsky e sua família embarcaram para o México num petroleiro, e em 9 de janeiro de 1937 eles desembarcaram em Tampico, de onde tomaram um trem para a cidade do México, seguindo poucos dias depois para Coyoacán, onde se hospedaram na famosa casa azul da pintora Frida Kahlo.

Uma vez assentado no México, Trotsky movimentou-se para organizar a Quarta Internacional (QI) cujo objetivo era substituir a Terceira Internacional. Apesar de a Quarta Internacional ter fracassado no seu intento de derrubar a Terceira Internacional, o rebuliço em torno da mesma causou um racha irremediável no movimento comunista internacional. Em retaliação, Stalin promoveu uma enorme campanha difamatória contra Trotsky, acusando-o falsamente de interferir na política interna do México. Entretanto, Trotsky usou seu enorme talento como escritor e articulador para contra-atacar Stalin. Depois de sobreviver a diversas tentativas de assassinato a mando de Stalin, em 20 de agosto de 1940 Trotsky recebeu um golpe fatal no crânio com uma picareta de alpinismo, vindo a falecer no dia seguinte. Trotsky teve um enterro de herói e sua morte fortaleceu o Trotskismo em todo o mundo, principalmente depois que as atrocidades do regime de Stalin foram reveladas.

O Trotskismo se espalhou por diversos países da Europa e das Américas como uma alternativa Marxista ao comunismo soviético, apresentando-se quase sempre associado à figura de Lênin. A mera menção da sigla QI, de Quarta Internacional, virou um símbolo indicador do Trotskismo. Dentre os diversos escritos sobre o Trotskismo no Brasil, destaca-se a tese de mestrado de Felipe Abranches Demier, apresentada em 2008 na Universidade Federal Fluminense, intitulada ‘Do movimento operário para a universidade: Leon Trotsky e os estudos sobre o populismo brasileiro’ onde Demier mostra que o pensamento trotskista fazia parte do ‘populismo’ surgido na década de 1930, que foi usado abertamente até o golpe de Estado militar de 1964. Outro ponto importante da tese de Demier é que o pensamento trotskista prevaleceu numa parcela significativa da intelectualidade brasileira no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970.

A biografia de Trotsky publicada em 2009 por Robert Service, professor titular da Universidade de Oxford, Inglaterra, e historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente, mostrou diversos aspectos da personalidade de Trotsky até então desconhecidos. Segundo Service, aquilo que Trotsky defendeu depois que virou exilado não bate com os seus atos no período em que ocupou o poder, como por exemplo: as execuções sumárias de soldados, o seu autoritarismo em querer controlar até as coisas mais triviais como consumir bebida alcoólica e jogar pontas de cigarro no chão, e a maneira cruel como ele costumava esmagar a oposição, tanto nas reuniões do partido quanto nos sindicatos laborais. Service mostra que a estratégica alternativa do socialismo humanitário de Trotsky era inteiramente implausível. Se Trotsky tivesse se tornado ditador ele possivelmente teria se portado da mesma forma como Lênin e Stalin. Leia a resenha da trilogia de Robert Service em PortVitoria 4, 2012: http://www.portvitoria.com.


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O McCartismo e a infiltração comunista nos Estados Unidos

Jo Pires-O’Brien

‘McCartismo’ é a designação da ideologia de perseguição a indivíduos suspeitos de associação ao comunismo nos Estados Unidos, que caracterizou o final da década de quarenta e o início da década de cinquenta. O McCartismo decorreu da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. A Europa Ocidental, as Américas, e a Oceania ficaram ao lado dos Estados Unidos. Com exceção da Itália e da França, todos os países do Ocidente proibiram o funcionamento dos Partidos Comunistas. Onde os Partidos Comunistas foram proibidos, muitos simpatizantes da União Soviética continuaram a agir na clandestinidade.

Em 1947, nos Estados Unidos, a CIA (Central Intelligence Agency) e o Conselho de Segurança Nacional foram criados sob os auspícios da Lei da Segurança Nacional de 1947. O objetivo da CIA era descobrir inteligência (informações) e assegurar a sua validade bem como decidir o nível da segurança nacional em determinado momento. Neste mesmo ano, o Comitê de Atividades Não Americanas do Congresso (House of Un-American Activities Committee – HUAC*), em existência desde 1938, iniciou entrevistas formais a pessoas suspeitas de envolvimento com o comunismo e/ou a União Soviética. Os sindicatos laborais também foram investigados pelas alianças com regimes comunistas. Em resultado dos inflamados discursos anticomunistas do senador Joseph McCarthy (1909-57), de Wisconsin, um clima de desconfiança chegado à paranoia se espalhou pelos Estados Unidos. Muitos dos acusados tiveram suas carreiras arruinadas e eventualmente tiveram que deixar o país, como o dramaturgo Bertold Brecht.

Quando McCarthy denunciou a infiltração comunista no exército americano, o então Presidente Eisenhower percebeu que ele havia ido longe demais. Em 1954, o Congresso americano passou um voto de censura a McCarthy por ter abusado dos seus privilégios parlamentares. Cinco décadas depois, a disponibilização de arquivos americanos revelou que o Senador McArthur havia sido manipulado pelo então Diretor do FBI, J Edgar Hoover, que lhe passou informações erradas, possivelmente com o objetivo de pressionar parentes, amigos e associados dos verdadeiros suspeitos de espionagem a revelarem qualquer coisa sobre os primeiros; outro motivo cogitado foi o de causar embaraços à CIA. A disponibilização dos arquivos do Kremlin, após 1991, revelou que soviéticos promoveram campanhas difamatórias contra McCarthy dentro dos Estados Unidos.

Os erros e os excessos do McCartismo foram amplamente criticados mas poucos críticos sublinharam o caráter altamente subversivo do Partido Comunista Internacional, explícito na missão do Comintern: ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’.

A verdade sobre a espionagem soviética e a verdadeira extensão da atuação do Comintern não só nos Estados Unidos mas também na América Latina e noutros países do Ocidente começou a emergir em 1995, quando os transcritos do projeto Verona foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos visando sua transcrição para o alfabeto latino e subsequente tradução para o inglês. A disponibilização dos arquivos do Kremlin já mostrou que milhares de americanos mantiveram ligações o Comintern antes, durante e após a era do McCartismo.

PS. Por iniciativa do democrata Samuel Dickenstein o Comitê de Atividades Não Americanas do Congresso (House of Un-American Activities Committee – HUAC) foi criado em 1938 para investigar os simpatizantes da Alemanha. Com o fim da Segunda Guerra Mundial o HUAC ficou sem função por um tempo até a Guerra Fria, quando foi reativado pelo senador Joseph McCarthy. Os excessos cometidos por McCarthy fizeram com que este fosse taxado de fascista, ‘bully’ e mentiroso. A revisão dos fatos ocorridos na época traz duas correções: (i) comunistas americanos usaram táticas semelhantes contra comunistas da facção Trotskista; (ii) McCarthy não era um nacionalista de direita (right-wing) pois as suas raízes políticas eram fincadas no progressivismo norte-americano. (Fonte: Goldberg, Jonah. Liberal Fascism. The Secret History of the American Left from Mussolini to the Politics of Meaning 2008).


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A Terceira Internacional e o Comintern

Jo Pires-O’Brien

Em março de 1919, em São Petersburgo, Lênin (Lenine) abriu o congresso da Terceira Internacional Comunista. Este foi o mais famoso e mais duradouro congresso internacional de trabalhadores. A sua missão de ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional, como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’ era altamente subversiva pois atentava contra a soberania das nações de todo o mundo. A Terceira Internacional criou um Comitê Executivo – Comintern – para dirigir a luta internacional, incluindo um jornal homônimo cujo primeiro número saiu em maio de 1919. Logo depois do congresso o Comintern enviou emissários a diversos países, visando criar novos partidos comunistas e trazer os partidos comunistas e socialistas já existentes para debaixo do seu guarda-chuva.

Apesar do objetivo internacional do Comintern, nos primeiros anos do regime comunista soviético os problemas internos ganharam prioridade e a expansão internacional ficou em segundo plano. A própria expansão internacional priorizou os países industrializados, seguindo a especificação Marxista de que a revolução internacional viria dos trabalhadores da indústria.

O Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) foi fundado em 1919, em Chicago. Na na época da sua fundação este contava com sessenta mil membros, incluindo anarquistas e outros radicais de esquerda. O mesmo promovia o ‘internacionalismo do proletariado’ e uma rede de inteligência, a qual governo americano chamava de ‘espionagem’. Em 1927, a sede do CPUSA mudou-se para Nova Iorque, juntamente o ‘Daily Worker’, o seu porta-voz oficial. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, o CPUSA passou para a clandestinidade, e seus documentos eram mantidos escondidos ou destruídos.

Embora a América Latina também tivesse um movimento sindical iniciante, a atuação inicial do Comintern foi dificultada pelo fato da maioria dos trabalhadores ser católicos praticantes que não aprovavam o ateísmo embutido no Marxismo. A Argentina e o Chile, na ocasião os países mais adiantados da América Latina, foram os primeiros a receber a atenção do Comintern. O Partido Comunista do Brasil (PCB) só foi fundado em 1922, bem depois do Chile e da Argentina. Diversas informações sobre a conexão brasileira com o regime soviético podem ser encontradas no artigo de Carlos Ilich Santos Azambuja, ‘Histórias quase esquecidas’, publicado no jornal eletrônico ‘Mídia Sem Máscara’.
A partir de 1992, os arquivos do Kremlin foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, visando sua transcrição para o alfabeto latino e subsequente tradução para o inglês. Como resultado deste projeto a verdadeira extensão da atuação do Comintern nos Estados Unidos e nos outros países do Ocidente foi revelada, incluindo a relação das diversas representações clandestinas do Comintern nos Estados Unidos.


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As revoluções de fevereiro e de outubro de 1917

Jo Pires-O’Brien

Ao contrário do que muita gente pressupõe, a Revolução Russa de fevereiro de 1917 não foi feita pelos bolcheviques. Na antevéspera da Revolução de Fevereiro, a Rússia estava sofrendo uma terrível falta de alimentos, e como o governo do Czar Nicolau II estava enfraquecido devido à oposição popular à Segunda Guerra, este não conseguiu conter a série de insurreições e as greves de trabalhadores que pipocaram em todo o país. A situação era pior em São Petersburgo (Petrograd),  onde o povo enfurecido começou a saquear armazéns e padarias. Em 27 de fevereiro, um Governo Provisório foi formado. No dia 2 de março o Czar procurou mudar o curso dos acontecimentos abdicando em favor do seu irmão Miguel, mas não conseguiu.

O Partido Operário Social-Democrata — POSDR — aguardava há anos uma oportunidade de tomar o poder, mas isso não foi possível em fevereiro de 1917 pois Lênin e outros líderes revolucionários ainda se encontravam no exílio. Assim que souberam que a monarquia havia sido derrubada eles retornaram a Petrograd e começaram a tramar o modo de derrubar o Governo Provisório.

Em outubro Lênin fez a sua famosa Revolução de Outubro, também conhecida como Revolução Bolchevista, designação da ala majoritária do POSDR, que teve uma participação mais atuante. Quando Lênin montou o novo governo ele deixou de lado os mencheviques por julgar que eles não tinham o espírito revolucionário necessário.  E, foi assim que poucos meses depois da Revolução de Outubro a estrutura do novo estado se cristalizou em torno de um só partido – o Partido Comunista – e um poder judiciário altamente politizado, com o Estado totalitário controlador da economia e da própria sociedade. Em 1918, em plena Guerra Civil, Lênin mandou executar o ex-Czar Nicolau II e toda a sua família. A Revolução de Outubro não tinha o apoio da população, e para obtê-lo, criou uma poderosa e altamente nacionalista máquina de propaganda.


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