Citações de Alexander Solzhenitsyn

Citações de Alexander Solzhenitsyn no livro O Arquipelago Gulag: 1918-1956
Versão na língua inglesa. Collins/Harvill Press and Fontana,1974.
Traduzido para o inglês por Thomas P. Whitney

“Eu dedico este livro a todos aqueles que não viveram para contar. Que eles por favor me perdoem por eu não ter visto tudo nem lembrado tudo, por não ter adivinhado tudo aquilo.”

“As prisões rolaram pelas ruas e prédios de apartamentos como uma epidemia. Assim como as pessoas transmitem uma infecção contagiosa umas às outras sem saber, pelas maneiras mais inocentes como um aperto de mão, uma expiração, um encontro casual na rua, assim também, elas passaram a infecção das prisões inevitáveis através de um um aperto de mão, uma respiração, um encontro casual na rua. Pois se você estiver destinado a amanhã confessar que organizou um grupo clandestino para envenenar o reservatório de água da cidade, e hoje eu apertei a suas mão na rua, isso implica que, eu também estou perdido.” (p. 75)

“Seja dono apenas aquilo que você possa carregar consigo: conheça línguas, conheça países, conheça pessoas. Deixe que a sua memória seja a sua mala. Use a sua memória! Ela é a semente amarga que algum dia poderá germinar e crescer.” (p. 516)

“Extensões delgadas de vidas humanas se estendem de uma ilha para outra no Arquipélago. Elas se enroscam, se tocam umas nas outras durante uma única noite em algum vagão semi-escuro que faz clique e claque assim como este e depois se separam para sempre. Coloque o ouvido no brando ruído dele e no clique claque debaixo do vagão. Afinal de contas, é a roda da vida que está lá fora cliqueando e claqueando.” (p. 517)

“A natureza humana, se é que ela muda, não muda mais rápido do que a camada geológica da Terra. E as mesmas sensações de curiosidade e prazer de avaliação que os mercadores de escravos sentiam nos mercados de escravas de vinte e cinco séculos atrás, eram sentidas pelos chefões do Gulag lotados na Prisão Usman em 1947, quando eles, duas dúzias de homens trajando o uniforme da MVD, se sentaram ao redor de diversas mesas cobertas por toalhas (uma expressão da própria importância, caso contrário poderia parecer estranho), e todas as prisioneiras eram obrigadas a se despir num cubículo ao lado e a caminhar descalças e nuas em frente a eles, virar, parar, e responder perguntas. ‘Abaixe as mãos,’ eles ordenavam àquelas que adotavam a pose defensiva de uma escultura clássica. (Afinal de contas, esses oficiais estavam muito seriamente selecionando parceiras de cama para si próprios e para os seus colegas).” (p. 562)

“E como você pode entregá-la [a verdade] a eles? Por uma inspiração? Por uma visão? Um sonho? Irmãos! Gente! Por que a vida lhes foi dada? Na calada funda e surda da meia-noite, as portas das celas da morte são abertas – e pessoas de boa alma são levadas para fora para serem fuziladas. Em todas as estradas de ferro do país, neste minuto, agora mesmo, pessoas que acabam de ser alimentadas com arenques salgados lambem os lábios secos com línguas amargas. Elas sonham com a felicidade do esticar das pernas e o alívio que sentem depois de ir ao banheiro. Em Orotukan, o solo só descongela durante o verão e apenas por três pés – e só então eles conseguem enterrar os ossos daqueles que morreram durante o inverno.” (p. 591)

Uma das verdades que você aprende na prisão é que o mundo é pequeno, muito pequeno mesmo. É verdade, o Arquipélago Gulag, embora se estendesse por toda a União Soviética, teve muito menos habitantes que o total da União Soviética. Quantos havia de fato no Arquipélago não se pode afirmar ao certo. Podemos presumir que, em qualquer momento, não havia mais do que doze milhões nos campos (pois se alguns haviam partido para debaixo da terra, a Máquina continuava a trazer substitutos). E não mais que a metade deles eram políticos. Seis milhões? Bem, aquilo era um pequeno país, uma Suíça ou uma Grécia, onde muitas pessoas se conhecem. E é bem natural que quando você chegasse em uma cela qualquer de uma prisão qualquer, e escutasse e conversasse, você certamente descobriria que tinha conhecidos em comum com alguns dos seus companheiros de cela. (p. 595-596)

…Eu era um Marxista… /…Mas o meu primeiro ano como prisioneiro deixou as suas marcas dentro de mim – precisamente, quando foi que isso aconteceu? Eu não percebi: houve tantos eventos novos, visões e significados que eu já não podia mais afirmar: ‘Eles não existem! Isso é uma mentira dos burgueses!’ E agora eu tive que admitir: ‘Sim, existem’. E precisamente naquela altura toda a minha linha de raciocínio começou a enfraquecer, e assim, eles podiam vencer-me nas discussões sem o menor esforço. (p. 602)

Tradução do inglês: JPO

Anúncios