A massa e a democracia

O fato da democracia ser o governo do povo leva uma boa parte das pessoas a crer que a massa e a democracia andam de mãos dadas. Entretanto, a massa nada mais é do que uma facção poderosa da população com um tremendo potencial de abusar minorias. O abuso de um único indivíduo é uma violação do princípio de que a democracia não é um fim mas um meio para a liberdade. Nesse papel a democracia apoia-se no Estado de Direito, a estrutura legal garantidora dos direitos, que evolveu a partir do Iluminismo, e que pressupõe a ausência de privilégios. Portanto, o Estado de Direito não inclui todas as leis de um determinado Estado mas apenas aquelas que concernem a todos.

O crescimento da população do mundo veio acompanhado do crescimento das massas, um dos mais sérios problemas da atualidade. Dois pensadores e críticos sociais que estudaram o fenômeno das massas a partir da segunda década do século vinte foram o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94) e o espanhol José de Ortega y Gasset (1883-1955). Canetti procurou entender a psicologia do comportamento humano formador da massa, e  Ortega y Gasset concentrou-se mais nos efeitos deletérios que as massas podem causar nas democracias.

No seu livro A rebelião das massas, publicado em 1929, Ortega retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Para Ortega até a virada do século XX a estratificação social era ligada às classes econômicas, mas a partir de então surgiu uma nova extratificação social onde a sociedade passou a ser dividida entre massas e minorias. Ortega notou ainda que as massas caracterizavam-se pela dominância social, muitas vezes com o uso da força bruta contra os indivíduos não participantes. A nova estratificação social formada pelas massas e pela minoria resultava invariavelmente numa batalha entre esses dois estratos. Ortega notou que a democracia da década de vinte na Espanha era diferente da democracia do Estado de Direito pois as massas impunham as suas aspirações e desejos agindo diretamente, isto é, fora do Estado de Direito. Tal hegemonia das massas não poderia caracterizar a democracia saudável e sim a democracia doente, que ele designou de hiperdemocracia.

Cannetti também impressionou-se com o fenômeno das massas ocorrido no início do século vinte, mas as suas observações se estenderam por diversas décadas. O seu livro Masse und Macht foi publicado em 1960, sendo que a tradução inglesa saiu pouco depois, em 1962. A versão em português, intitulada Massa e poder, foi publicada em 1983 pela Editora UnB e em 1995 pela Companhia das Letras. O que é interessante em Canetti é o modo como ele busca inspiração na química para explicar fenômenos sociais. Canetti reconhece dois tipos de massas humanas, as fechadas e as abertas, caracterizadas pelo baixo e alto nível de interação com o ambiente, respectivamente. Enquanto que as massas fechadas são necessárias para o equilíbrio social, as massas abertas são sintomáticas de um desequilíbrio. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial uma série de punições incluindo a proibição da formação de um exército. Tal proibição, segundo Canetti, privou os alemães da sua massa fechada mais essencial, possibilitando a ascensão do partido nazista. Nessa conjuntura, Hitler mostrou aos alemães que a proibição do exército era uma afronta que equivalia à proibição da fé religiosa. Para Canetti, quando uma massa fechada é dissolvida, ela se transforma numa massa aberta com as mesmas características, mas bem maior.

A ameaça das massas no século XXI é ainda maior do que foi no século XX. A solução para o combate dessa ameaça é a educação, incluindo a educação acerca do verdadeiro significado da democracia. Massa não é democracia e democracia não é a multiplicação de opiniões ignorantes. Alexis de Tocqueville reconheceu isso há quase duzentos anos atrás, quando escreveu: “A tirania da maioria não requer conhecimentos, boa educação, deliberações razoáveis, autoridade e experiência e nenhuma das coisas que o populista chama de ‘elitismo’“.

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