Antonio Gramsci (1891-1937) o guru da esquerda acadêmica

Joaquina Pires-O`Brien

Segundo o filósofo inglês Roger Scruton (1944 -) o surgimento da Nova Esquerda envolveu a construção de uma marca nova, diferente da marca da Velha Esquerda. Entretanto, a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar peculiar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo e exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos de idade. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

Scruton identificou dois importantes motivos para a escolha de Gramsci. O primeiro foi a ideia da ‘práxis  revolucionária’ de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia de dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

Gramsci foi transformado no principal guru da Nova Esquerda, venerado nas academias da América Latina, da África e do resto do mundo. Gramsci é considerado um ‘Marxista Hegeliano’ de segunda geração, juntamente com o pensador e crítico literário húngaro György Lukács (1885-1971) e o pensador alemão Karl Korsch (1886-1961). Todos três eram ligados a partidos comunistas vinculados ao Comintern soviético. A aparente preferencia brasileira por Gramsci deve-se ao fato dele ter escrito em italiano, língua que os falantes de português conseguem entender com facilidade, bem como por ter-se preocupado com a educação e também pelo seu livro ‘O príncipe moderno’, uma paródia de O príncipe de Nicolau Machiavelli onde ele oferece conselhos às lideranças da esquerda sobre como alcançar e segurar o poder.

No seu livro Sobre a educação, Gramsci escreveu: “Os novos curriculums devem abolir por completo os exames; pois fazer um exame hoje é muito mais uma questão de sorte do que antigamente. Seja quem for o examinador, uma data é sempre uma data e uma definição é sempre uma definição. Mas, é um julgamento estético ou uma análise filosófica?” Há um paradoxo reconhecido nessa obra de Gramsci na busca de uma política educativa radical através de um currículo e pedagogias tradicionais”. E, conforme perguntou Entwhistle, “Se as escolas são um principal instrumento hegemónico da existência de regras na classe, como pode uma mudança contra-hegemónica ocorrer senão através de uma reforma radical e de uma pedagogia liberal?” .

É de Gramsci a expressão ‘hegemonia cultural’ um dos mais batidos termos do vocabulário da Esquerda latina, uma referência domínio domínio que a classe dominante exerce na sociedade através da cultura. Em Homens ou Máquinas (1916) Gramsci escreveu:

“Um proletário, por mais inteligente que seja, não importa o quão apto seja para se tornar um indivíduo de cultura, é forçado a desperdiçar suas qualidades em algum outro tipo de atividade ou então a se tornar um rebelde e autodidata – i.e., na mediocridade (tirando algumas exceções); um homem que não pode dar tudo o que é capaz caso tivesse se formado pela disciplina da escola e se aperfeiçoado. A cultura é um privilégio. A educação é um privilégio. E nós não queremos que seja assim. Todos os jovens devem ser iguais perante a cultura. O Estado não deve financiar com o dinheiro de todos os cidadãos, a educação dos filhos de pais abastados, seja lá quão medíocres ou deficientes eles sejam, enquanto exclui os mais inteligentes e capazes que são filhos de proletários. O curso colegial e o ensino superior devem ser facultados àquele que conseguem demonstrar que os merecem”.

Em 1913 Gramsci ingressou na Universidade de Turim onde começou a estudar literatura e linguística, mas deixou os estudos em 1915 por motivos financeiros e de saúde. Ainda em 1913 Gramsci se associou ao Partido Socialista Italiano, época que coincidiu com o começo da indústria automobilística italiana, onde as fábricas como a Fiat e a Lancia começaram a recrutar operários nas regiões mais pobres. Em 1914 ele começou a publicar artigos em jornais socialistas como ‘Il Grido del Popolo’ e logo granhou uma reputação jornalística. Em 1916 ele tornou co-editor da edição Pedmont do Avanti!, o jornal oficial do Partido Socialista, e em 1919 ele foi um dos fundadores do jornal semanal ‘L’Ordine Nuovo’ (A Nova Ordem), junto com três outros colegas, que foi considerado por Vladimir Lenin como sendo o de orientação mais próxima dos Bolcheviques. Desavenças entre os editores do ‘L’Ordine Nuovo’ e a central do Partido Socialista Italiano causaram uma ruptura e em 21 de janeiro de 1921 eles fundaram o Partido Comunista Italiano (Partito Comunista d’Italia – PCI). Gramsci foi um dos líderes do Partido, sendo entretanto subalterno a Bordiga.

Em 1922 Gramsci foi para a Rússia onde conheceu Julia Schucht, uma jovem violinista, que lhe deu dois filhos, o segundo dos quais ele não chegou a conhecer. A viagem de Gramsci coincidiu com a implantação do fascismo na Itália e ele foi instruído a organizar uma aliança da Esquerda contra o fascismo, o que era contrário aos desejos dos outros líderes do PCI. Em 1924 Gramsci foi eleito deputado por Veneto, e logo em seguida fundou L’Unità (União), o porta-voz do partido, o qual ele também passou a liderar. Em 1926 Gramsci escreveu uma carta ao Comintern onde afirmou que não concordava com a oposição de Leon Trotsky mas também fez críticas ao mesmo. O representante do PCI em Moscou, Togliatti, abriu a carta em primeira mão e decidiu não entrega-la, o que causou uma fissura permanente entre ele e Gramsci. Gramsci morreu aos 46 anos de idade numa prisão do regime fascista de Mussolini. A obra que deixou foi dividida em dois grupos, a dos anos revolucionários e a dos anos na prisão. O pensamento de Gramsci relativo à educação tem recebido interpretações diferentes mesmo dentro da própria esquerda.

A avaliação que Scruton fez de Gramsci, é de que a obra deste é uma espécie de ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta. Mesmo assim, Scruton reconheceu em Gramsci uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

 Referências

Entwistle, Harold (1979). António Gramsci: Conservative Schooling for Radical Politics. London: Routiedge & Kegan Paul;1979.

Scruton Roger. Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda). London, Bloomsbury, 2015.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien acaba de publicar o ebook O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas como: o instinto da massa, a voz do povo, a aprendizagem ao longo da vida ou ALV, a utopia, as ‘duas culturas’, o pós-modernismo, religiões e crenças religiosas e o 9/11. O livro de JPO é disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo. É também a editora fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo, que sai duas vezes ao ano: www.portvitoria.com.

 

 

 

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