Outubro de 2017. Centenário da Revolução Bolchevique

Em outubro de 2018 a Revolução Bolchevique que introduziu o regime marxista na União Soviética completará cem anos. Não será uma data de celebração e sim de recordação da memória de como um punhado de fanáticos russos atropelou o recém-nascido projeto democrático em andamento implantado em março do mesmo ano.

Abrindo um parênteses explicativo, o termo ‘bolchevique’ significa ‘maioria’, em contraposição ao termo ‘menchevique’, que significa minoria. A partir de 30 de junho de 1903, quando o Partido Operário Social-Democrata (POSDR, na sigla russa), durante o seu segundo congresso, em Bruxelas, elegeu Georgi Plekhanov como seu presidente, o partido começou o processo de racha completado em 1907. O resultado foi a emergência de duas principais facções: a dos bolcheviques e a dos mencheviques. Embora mantivessem o denominador comum de derrubar o regime do czar e destruir o capitalismo, os mensheviques, liderados por Yuliy Osipovich Tsederbaum (1873-1923), conhecido como Julius Martov, eram bem mais moderados do que os bolcheviques, liderados por Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924), conhecido como Lenin, pois pensavam democraticamente, tinham escrúpulos quanto ao uso de violência, e aceitavam negociar com os liberais.

Não foram os bolcheviques que derrubaram a monarquia russa e sim um grupo de descontentes que incluía liberais e mencheviques. O líder menchevique que teve um papel importante na Revolução de Março de 2017 era Nikolay Chkheidze (1864-1926), um professor que havia sido eleito para o Duma (o parlamento russo) durante a década de 1880s, e que ocupava o cargo de Presidente do Petrograd Soviet (Presidente da câmara de vereadores de Petrograd ou São Petersburgo).

Lenin encontrava-se hospedado numa pensão em Zurique quando ficou sabendo da queda do regime do czar. A fim de que ele, sua esposa e seus aliados mais chegados pudessem retornar à Rússia, era necessário cruzar a Alemanha, uma nação inimiga da Rússia. Como os seus pedidos de ajuda ao governo da Suíça e ao Governo Provisório da Rússia não deram resultados, Lenin então usou uma artimanha de influência e mentiras. Ele telegrafou a um amigo em Estocolmo pedindo ao mesmo que mandasse uma mensagem a Chkheidze, demandando a ajuda deste para o retorno de mencheviques exilados. O estratagema deu resultado. O embaixador da Alemanha na Suíça foi contatado, o qual conseguiu um salvo-conduto para que os exilados atravessassem a Alemanha, com a condição de que ninguém desembarcasse naquele país nem se comunicasse com ninguém de fora. Escoltados por um representante do governo suíço, Lenin, a esposa e cerca de trinta exilados russos, nenhum deles menchevique, partiram da Suíça no dia 8 de abril, chegando a Petrograd no dia 16 de abril.

Ao chegar a Petrograd, Lenin encontrou-se com Chkheidze dentro do antigo palácio do czar, quando este lhe disse:

“Camarada Lenin”, “em nome do Petrograd Soviet e de toda a revolução, seja bemvindo à Rússia… mas nós julgamos que levando em conta a situação presente, a principal tarefa da democracia revolucionária é defender a nossa revolução contra todo tipo de ataque, tanto de dentro quanto de fora… Nós esperamos que se junte a nós na luta por este objetivo”.

Lenin não respondeu a Chkheidze, mas caminhou na direção de uma janela e de lá ele falou para uma pequena multidão que se encontrava do lado de fora. No seu discurso ele afirmou que a revolução que haviam feito era apenas o primeiro passo de outra que estava por vir a fim de abrir as cortinas da nova época. E depois de sair do palácio, Lenin passou a atacar sem descanso o Governo Provisório.

O ocorrido acima é uma mostra das táticas de mentir, enganar e trair que caracterizaram o ethos dos revolucionários bolcheviques. Entretanto, muitos outros pormenores acerca de Lenin foram descobertas desde a que os arquivos soviéticos foram disponibilizados a partir da última década do século XX. Um dos fatos mais relevantes foi o fato de Lenin ter recebido dinheiro do inimigo (Alemanha), tornando-se de fato um traidor de seu próprio país.

Um dos autores que fez bom uso dos arquivos soviéticos disponibilizados é Sean McMeekin, um premiado historiador americano e professor da Universidade de Kok, na Turquia. Ele acaba de publicar ‘The Russian Revolution. A New History’, pela editora Profile. Segundo McMeekin, Lenin tido pouco impacto político na Rússia se não tivesse recebido ajuda financeira da Alemanha. Quando os bolcheviques retornaram do exílio eles compraram uma gráfica por 250 mil rublos (equivalente a cerca de 13 milhões de dólares em dinheiro de hoje), o que permitiu que imprimisse uma quantidade inimaginável de materiais de propaganda revolucionária. É óbvio que tal propaganda disseminou sedição entre a gentalha ignorante tanto da cidade quanto do campo. O dinheiro inimigo permitiu que os bolcheviques batessem de frente contra o Governo Provisório. Entretanto, o contrapeso que mudou o jogo a favor de Lenin foi a promessa bolchevique de acabar com a guerra já, mesmo passando por cima do interesse nacional da Rússia. Segundo McMeekin, Lenin sabia que não poderia vencer a eleição marcada para janeiro de 1918, e portanto planejou uma revolução para outubro de 1917. A Revolução de Outubro, como ficou chamada, derrubou o Governo Provisório do então Primeiro Ministro Alexander Fyodorovich Kerensky (1881-1970).

O historiador britânico Robert Service (1947-), um dos maiores especialistas da história da União Soviética e autor de extensas biografias de Vladimir Lenin, Joseph Stalin e Leon Trotsky. Conforme escrevi na minha resenha da trilogia de Service (PortVitoria 4, Jan-Jun 2012), a minha resenha da trilogia de Service):

“Dentro da característica humana de ‘querer melhorar o mundo’ há duas distintas predisposições, uma revolucionária e outra reformista. A predisposição revolucionária difere da predisposição reformista pelo fato de aceitar a violência como meio de se chegar ao fim desejado, e inclui valores totalmente alheios ao humanitarismo. Tal comprometimento cego com o fim faz da predisposição revolucionária um distúrbio de personalidade. Como mostra a psicologia, os distúrbios de personalidade são invariavelmente complexos, isto é, tendem a vir acompanhados de outros distúrbios. A predisposição revolucionária era denominador comum de Lênin, Stalin e Trotsky. Esta foi alimentada pelo Marxismo, doutrina que passou a dominar no meio intelectual da Rússia desde a década de 1890, apesar de que a Rússia daquela época, e mesmo a das duas primeiras décadas do início do século vinte, tinha uma economia medieval, bem diferente do sistema capitalista que segundo Marx incitaria a revolução dos trabalhadores. As três biografias estão lotadas de exemplos de comportamentos que evidenciam valores marginais e distúrbios psicológicos”.

Que o centenário da Revolução Bolchevique seja uma lição negativa de história para todos os que dão valor à democracia e à liberdade.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é brasileira residente na Inglaterra e editora da revista PortVitoria, de generalidades, cultura e política (www.portvitoria.com). O seu e-book de ensaios O homem razoável (2016) encontra-se à venda na Amazon

 

 

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O museu do Comunismo Mundial: Link: http://www.thegulag.org/

Link: http://www.thegulag.org/

O link acima disponibiliza o portal do Museu do Comunismo Mundial – GLOBAL MUSEUM ON COMMUNISM.

O portal mostra exibições principais, como a Exibição Gulag, sobre a extensa rede de prisões descritas pelo escritor soviético Alexander Solzhenitsyn. Para escrever O Arquipélago Gulag, Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas.

O museu mostra também exibições especiais e nacionais.
Exibições Especiais:
The War on Religion
Post-Communist Economics
The Great Terror at 40
Communism in China
Chinese Persecution of Uyghurs
The Afghan People vs Communism
You Won the Cold War

Exibições Nacionais:
Bulgaria
China
Cuba – http://cuba.globalmuseumoncommunism.org/
Czechoslovakia
Estonia
Germany
Hungary
Latvia
Lithuania
North Korea [coming soon]
Poland
Romania
Soviet Union
Tibet
Ukraine
Vietmam
Coloquei o link de Cuba pois é o único país comunista das Américas.

O mapa do comunismo
O museu virtual mostra um mapa mundial que mostra os países que viveram regimes comunistas. Embora Cuba seja o único país que consta no mapa das Américas, o comunismo agiu no nosso continente através de uma extensa rede de correlegionários da Esquerda. Quem sabe um dia saberemos mais sobre os efeitos dessa rede.

Guerrilhas no Terceiro Mundo: as zonas quentes da Guerra Fria

Autor: Simon Heffer
Resenha do livro Small wars, far away places: the genesis of the Modern World – 1945-65 de Michael Burleigh. Macmillian. 588pp. £25. ISBN 978-0-230-75232-0

Pelas suas características os vinte anos após o final da Segunda Guerra Mundial foram tão aterrorizantes quanto o próprio conflito. O período representou uma ameaça equivalente à ordem mundial: a derrota do fascismo foi seguida da ascensão do comunismo. O período viu também uma mudança do poder global, da Europa, onde ele historicamente residia, para a América. Até os anos sessenta os americanos estabeleceram uma hegemonia rivalizada apenas pela União Soviética – que ainda estava a uma boa distância atrás. A Grã-Bretanha, o grande poder da era pré-guerra, estava arruinada mas compreendia apenas gradualmente a sua impotência. Dentro de poucos meses a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria começou. O monopólio da América sobre a contenda nuclear durou pouco tempo, pois em 1949 os espiões deram aos soviéticos os segredos necessários para a confecção de sua própria bomba. Com as nações da Europa determinadas a não voltar a fazer guerra umas com as outras, a nova superpotência e o seu inimigo procuraram lutar alternativamente através de agentes no Oriente, na África e no Caribe. Essas são as histórias, dentre outras, que Michael Burleigh relata nesta magnífica, bem-informada, penetrante e muitas vezes espirituosa narrativa dos conflitos ocorridos entre 1945 e 1965.

Burleigh não tenta abarcar o mundo inteiro, mas escolhe os episódios onde tem um interesse especial, que ilustram o tema primordial desta obra: como a América se transformou, na altura do término do mandato presidencial de Eisenhower, naquilo que em 1066 and All That [Título de uma história satírica da Inglaterra publicada na década de 1930 e serializada na revista Punch! N.T.] ficou conhecido como ‘Top Nation’ (a Nação Manda-Chuva). Isso foi a culminação da política de Woodrow Wilson que sustentou a abordagem norte-americana adotada na conferência de Versalhes de 1919: a destruição do poder imperial europeu. Os Habsburgos, os Hohenzollernes e os Ottomanos haviam todos desaparecido; a questão não-resolvida era o Império Britânico, que provou ser insustentável após 1945. Conforme Burleigh registra, a partir do momento em que entraram na Segunda Guerra Mundial em Dezembro de 1941, os americanos deixaram bastante claro que os seus objetivos não incluíam a salvação nem a prorrogação do Império Britânico. E, mesmo antes da independência da Índia em 1947, a América já estava se portando como se não estivesse disposta a tolerar as dissensões do mundo, estendendo o seu alcance tanto aos seus aliados quanto aos seus clientes. Isso ocorreu em parte porque a América se viu como a principal barreira natural contra a disseminação do comunismo, e em parte porque havia se acostumado, desde a época de Wilson, a aspirar o posto de manda-chuva. A arrogância que esta mentalidade criou foi muito bem ilustrada por Burleigh, quando a América interveio nas Filipinas, em Cuba e no Vietnam com resultados cada vez piores.

A abdicação britânica do poder é mostrada como um resultado direto de estar falida. Antes de 1947, o país já havia indicado ao seu principal aliado que já não dava conta de exercer o papel que era esperado dele no Oriente Médio. O país já havia estado ansioso para sair da Palestina o mais depressa possível, mas tal lição parece que foi esquecida pelo governo Conservador dos anos cinquenta, que retornou à região com desastrosas consequências. Burleigh muito corretamente descreve o fiasco de Suez de novembro de 1956 como o momento em que a realidade tomou conta da Grã-Bretanha e os seus dirigentes finalmente entenderam que seu país havia se tornado um jogador de menor importância. As suas tentativas de combater a insurgência malaia conteve a maré por algum tempo, mas logo os agricultores brancos foram escorraçados para costas mais seguras. A manutenção das colônias africanas só foi possível com base na brutalidade racista, como o campo Hola no Quênia, onde em 1959 os guardas espancaram até a morte os Mau Mau detidos, fato que antecedeu em alguns meses o discurso dos ‘ventos de mudança’ de Macmillan.

A Grã-Bretanha não foi, entretanto, o único império a se desmantelar durante esses anos. A mesma coisa ocorreu com a França, primeiramente na Indochina, ao enfrentar comunistas que tinham o apoio chinês, e depois na Argélia contra os nacionalistas. Apenas de Gaulle, o último homem que entregou um centímetro quadrado do território francês, enxergou a impossibilidade de manter a presença do seu país no Norte da África. Através de ambiguidade, duplicidade e da patente traição dos seus princípios – e os dos Harkis, que haviam servido lealmente a França – ele livrou o seu país de um banho de sangue. A Argélia, como tantas das velhas colônias britânicas, continuou a se brutalizar durante décadas, mas pelo menos a França podia lavar as suas mãos sobre isso. Mais ao sul na África, os belgas e os portugueses eram igualmente brutais e ineptos, especialmente na sua propensão para permitir que a influência soviética se espalhasse por toda a África através de organizações que promoviam guerrilhas Marxistas, frequentemente com resultados pouco esclarecedores.

A América beneficiou-se desta hemorragia do poder europeu ainda mais do que a União Soviética. Embora o seu relacionamento com os países europeus individuais não fosse exatamente do tipo senhor e servo – pelo menos até os dias de Tony Blair, o crescimento do poderio americano, quando as últimas colônias europeias estavam sendo desativadas, lembrou a todos os interessados quem eram os verdadeiros senhores. Junto com esta sensibilidade veio uma infeliz arrogância. Burleigh é particularmente contundente nas suas descrições comparativas de Eisenhower e Kennedy, o seu sucessor: o primeiro, um homem de enorme experiência de comando e sem nenhum desejo de aparecer, e o segundo, um constructo do seu pavoroso pai, cuja entrada na política foi comprada com o dinheiro da família. Eisenhower é mostrado como um homem que moveu-se devagar e com sabedoria durante o período em que a América construía o seu poder nos anos cinquenta. Ele nunca perdeu a perspicácia de soldado sobre quais as guerras que poderiam ser ganhas, e portanto, enfrentadas com segurança. Ele também tinha pragmatismo para entender que a Grã-Bretanha estava posando (com Churchill como ‘posador’-em-chefe) nos anos cinquenta, apresentando-se como um poder mundial mesmo quando tal ilusão já se havia desvanecido, afirmando que a Grã-Bretanha merecia um lugar ‘especial’ nas relações internacionais com a América. Ike tinha uma atitude não-sentimental e apropriadamente rejeitou a noção, quase com um tom de pena.

Burleigh é um escritor bom e conciso, mas em nenhuma outra parte deste livro ele se excede mais do que na sua resumida descrição de Kennedy, como um ralo da moralidade, incapaz de levar qualquer coisa a sério afora a mulher que ele estivesse perseguindo na ocasião. Juntamente com o seu desagradável irmão Bobby, assassinado cinco anos depois dele, Kennedy meteu os pés pelas mãos no fiasco da Baía dos Porcos e só saiu intacto da Crise dos Mísseis Cubanos devido ao fortuito acidente da incompetência de Khrushchev e ao difícil relacionamento que o líder soviético tinha com Fidel Castro. Porém, foi Lyndon Johnson quem perpetrou a pior mancada da arrogância americana, com o seu pesado compromisso em termos de envio de tropas ao Vietnam. Harry Truman, que ainda estava vivo na ocasião, poderia ter-lhe advertido enfaticamente sobre as dores de cabeça que a Guerra da Coréia lhe haviam dado, e o alívio depois que a América conseguiu se safar. Mas Johnson acreditava na divina missão da América de lutar contra a ameaça comunista, e nunca imaginou que o seu país sofreria a humilhação que os franceses amargaram na década anterior, com a chocante derrota em Dien Bien Phu em 1954. O excepcional livro de Michael Burleigh termina antes do Vietnam virar o cemitério moral e literal da América: isso é no mínimo um bom motivo para esperar um volume sequente para ler a sua interpretação sobre como tal estória se desenrolou.
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Simon Heffer é um jornalista, escritor e editor britânico. O seu próximo livro High Minds, sobre a história intelectual e social da Grã-Bretanha do meio do século 19 será publicado pela editora Random House no final deste ano.

Tradução: J Pires-O’Brien; Revisão: C Pires

Esta resenha saiu em inglês na revista Literary Review, edição de Maio de 2013. Com autorização desta, foi republicado em português na revista PortVitoria:
http://www.portvitoria.com/

Citações de Alexander Solzhenitsyn

Citações de Alexander Solzhenitsyn no livro O Arquipelago Gulag: 1918-1956
Versão na língua inglesa. Collins/Harvill Press and Fontana,1974.
Traduzido para o inglês por Thomas P. Whitney

“Eu dedico este livro a todos aqueles que não viveram para contar. Que eles por favor me perdoem por eu não ter visto tudo nem lembrado tudo, por não ter adivinhado tudo aquilo.”

“As prisões rolaram pelas ruas e prédios de apartamentos como uma epidemia. Assim como as pessoas transmitem uma infecção contagiosa umas às outras sem saber, pelas maneiras mais inocentes como um aperto de mão, uma expiração, um encontro casual na rua, assim também, elas passaram a infecção das prisões inevitáveis através de um um aperto de mão, uma respiração, um encontro casual na rua. Pois se você estiver destinado a amanhã confessar que organizou um grupo clandestino para envenenar o reservatório de água da cidade, e hoje eu apertei a suas mão na rua, isso implica que, eu também estou perdido.” (p. 75)

“Seja dono apenas aquilo que você possa carregar consigo: conheça línguas, conheça países, conheça pessoas. Deixe que a sua memória seja a sua mala. Use a sua memória! Ela é a semente amarga que algum dia poderá germinar e crescer.” (p. 516)

“Extensões delgadas de vidas humanas se estendem de uma ilha para outra no Arquipélago. Elas se enroscam, se tocam umas nas outras durante uma única noite em algum vagão semi-escuro que faz clique e claque assim como este e depois se separam para sempre. Coloque o ouvido no brando ruído dele e no clique claque debaixo do vagão. Afinal de contas, é a roda da vida que está lá fora cliqueando e claqueando.” (p. 517)

“A natureza humana, se é que ela muda, não muda mais rápido do que a camada geológica da Terra. E as mesmas sensações de curiosidade e prazer de avaliação que os mercadores de escravos sentiam nos mercados de escravas de vinte e cinco séculos atrás, eram sentidas pelos chefões do Gulag lotados na Prisão Usman em 1947, quando eles, duas dúzias de homens trajando o uniforme da MVD, se sentaram ao redor de diversas mesas cobertas por toalhas (uma expressão da própria importância, caso contrário poderia parecer estranho), e todas as prisioneiras eram obrigadas a se despir num cubículo ao lado e a caminhar descalças e nuas em frente a eles, virar, parar, e responder perguntas. ‘Abaixe as mãos,’ eles ordenavam àquelas que adotavam a pose defensiva de uma escultura clássica. (Afinal de contas, esses oficiais estavam muito seriamente selecionando parceiras de cama para si próprios e para os seus colegas).” (p. 562)

“E como você pode entregá-la [a verdade] a eles? Por uma inspiração? Por uma visão? Um sonho? Irmãos! Gente! Por que a vida lhes foi dada? Na calada funda e surda da meia-noite, as portas das celas da morte são abertas – e pessoas de boa alma são levadas para fora para serem fuziladas. Em todas as estradas de ferro do país, neste minuto, agora mesmo, pessoas que acabam de ser alimentadas com arenques salgados lambem os lábios secos com línguas amargas. Elas sonham com a felicidade do esticar das pernas e o alívio que sentem depois de ir ao banheiro. Em Orotukan, o solo só descongela durante o verão e apenas por três pés – e só então eles conseguem enterrar os ossos daqueles que morreram durante o inverno.” (p. 591)

Uma das verdades que você aprende na prisão é que o mundo é pequeno, muito pequeno mesmo. É verdade, o Arquipélago Gulag, embora se estendesse por toda a União Soviética, teve muito menos habitantes que o total da União Soviética. Quantos havia de fato no Arquipélago não se pode afirmar ao certo. Podemos presumir que, em qualquer momento, não havia mais do que doze milhões nos campos (pois se alguns haviam partido para debaixo da terra, a Máquina continuava a trazer substitutos). E não mais que a metade deles eram políticos. Seis milhões? Bem, aquilo era um pequeno país, uma Suíça ou uma Grécia, onde muitas pessoas se conhecem. E é bem natural que quando você chegasse em uma cela qualquer de uma prisão qualquer, e escutasse e conversasse, você certamente descobriria que tinha conhecidos em comum com alguns dos seus companheiros de cela. (p. 595-596)

…Eu era um Marxista… /…Mas o meu primeiro ano como prisioneiro deixou as suas marcas dentro de mim – precisamente, quando foi que isso aconteceu? Eu não percebi: houve tantos eventos novos, visões e significados que eu já não podia mais afirmar: ‘Eles não existem! Isso é uma mentira dos burgueses!’ E agora eu tive que admitir: ‘Sim, existem’. E precisamente naquela altura toda a minha linha de raciocínio começou a enfraquecer, e assim, eles podiam vencer-me nas discussões sem o menor esforço. (p. 602)

Tradução do inglês: JPO

Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

“No coração de todas as pessoas há uma batalha constante entre o bem e o mal” A Solzhenitsyn

Apenas recentemente eu tive a oportunidade de ler O Arquipélago Gulag, o famoso livro de Alexander Solzhenitsyn sobre os ‘gulags’ da União Soviética, campos e colônias de trabalho forçado por onde passaram cerca de 14 milhões de pessoas, detidas tanto por crimes ordinários e pequenas infrações quanto por motivos políticos. Embora Solzhenitsyn tivesse usado o termo ‘gulag’ nesse sentido, o termo ‘Gulag’ é um acrônimo para Alta Administração dos Campos e Colônias de Trabalho Corretivo do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (NKVD), a agência do governo soviético encarregada dos campos de trabalho forçado, criada oficialmente em 1930 e extinta em 13 de Janeiro de 1960. Escrito entre 1958 e 1968, O Arquipélago Gulag é um registro da arbitrariedade e da violência do regime implantado em 1917 na União Soviética. Solzhenitsyn mostra que já existiam campos e colônias de trabalho forçado antes de 1930 e que Lenin também havia cometido o mesmo tipo de violência que Stalin, embora numa escala menor.

Alexander Solzhenitsyn nasceu em Kislovodsky, no sudoeste da Rússia e perto da fronteira com a Georgia, em 11 de dezembro de 1918, tendo estudado matemática na Universidade de Rostov. Durante a Segunda Guerra Mundial Solzhenitsyn serviu no Exército Vermelho e chegou à categoria de capitão de artilharia. Apesar de ter sido condecorado por bravura, em 1945 ele foi preso e condenado por ter criticado Joseph Stalin numa carta a um amigo, quando foi mandado para um campo de trabalho forçado no Cazaquistão.

O primeiro livro de Solzhenitsyn foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, cujo cenário era um campo de trabalho forçado soviético, foi publicado em 1962, durante o governo de Khrushev. Entretanto, o livro foi posteriormente banido depois da queda de Khrushev em outubro de 1964. Os próximos dois livros de Solzhenitsyn, The First Circle (O Primeiro Círculo) (1968) e Cancer Ward (A Enfermaria do Câncer) (1968) também foram banidos. Em 1970, Solzhenitsyn ganhou o Premio Nobel de Literatura mas o governo soviético não lhe deu permissão para ir a Estocolmo para recebê-lo. O seu próximo livro foi o romance Agosto de 1914, sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado em 1971 fora da União Soviética. Em 1973 Solzhenitsyn publicou O Arquipélago Gulag, fora da União Soviética, motivo pelo qual ele foi acusado de traição e deportado. Já nos Estados Unidos, Solzhenitsyn escreveu Lenin in Zurich (1975), The Oak and the Calf (1980) e The Mortal Danger (1983). Após sua morte em 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade, Solzhenitsyn teve um funeral com honras de Estado e foi enterrado no cemitério de Donskoy em Moscou.

Depois que Nikita Khruschev denunciou as arbitrariedades de Stalin inicialmente no 20º Congresso do Partido reunido em fevereiro de 1956, e depois no 22º Congresso em outubro de 1961, a imprensa começou a divulgar o assunto. Durante o seu governo Khrushev, que durou até outubro de 1964, Solzhenitsyn e outros autores críticos de Stalin conseguiram publicar seus livros na União Soviética. Entretanto, Solzhenitsyn achava que as informações que haviam sido disseminadas representavam apenas uma verdade parcial e que não bastavam para desagravar as pessoas que perdido suas liberdades e suas vidas nos gulags. Depois da substituição de Khruschev por Leonid Brezhnev, houve um retrocesso na liberdade de imprensa, causada pelo receio das consequências de um confronto entre os que desejavam reabilitar a imagem histórica de Stalin e os que desejavam colocá-lo no banco dos réus.

Solzhenitsyn enfrentou uma enorme pressão para não desenterrar o passado, inclusive por parte da Associação de Escritores de Moscou. Entretanto, ele insistiu na importância de trazer a verdade à tona e atribui a maldade dos homens à ideologia, como mostra o trecho abaixo retirado de O Arquipélago Gulag:

“Ideologia é aquilo que dá ao malefício a justificativa tão procurada e ao malfeitor a determinação e a sustentação necessárias. É esta a teoria social que ajuda a fazer com que os seus atos pareçam bons ao invés de maus, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros, de forma que ele não ouvirá repreensões e maldições mas receberá elogios e honrarias. Foi assim que os agentes da Inquisição fortificaram as suas vontades: invocando a Cristianismo; os conquistadores de terras estrangeiras, louvando a grandeza da Pátria Mãe; os colonizadores, a civilização; os Nazistas, a raça; e os Jacobinos (do início e do fim), a igualdade, a irmandade, e a felicidade das gerações futuras. Foi graças à ideologia que o século vinte foi fadado a experimentar malefícios numa escala calculada em milhões. Isso não pode ser negado, ignorado ou suprimido. Como é então que nós nos atrevemos a insistir que os malfeitores não existem? E quem foi que destruiu esses milhões de pessoas? Sem malfeitores não teria existido o Arquipélago.”

Para escrever O Arquipélago Gulag Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas. Após ter sido expulso da Associação de Escritores de Moscou e m 1974 ele também foi expulso da União Soviética, quando obteve asilo político nos Estados Unidos e foi morar em Vermont. Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, depois que Mikhail Gorbachev lhe restituiu a cidadania e retirou a acusação de traição, o que é bastante sugestivo do enorme apego dele à sua pátria natal.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

O anti-capitalismo e a Esquerda latina

O regime político-econômico que serviu de modelo da Esquerda Latina foi o da União Soviética. No século vinte a Esquerda Latina procurou repetir na América a revolução Bolchevique de 1917, e para esse fim passou a buscar a adesão dos trabalhadores e dos estudantes. Mas o modelo soviético esteve longe de ser o paraíso dos trabalhadores, apesar da sua alcunha de ‘ditadura do proletariado’. Nos primeiros anos que se seguiram à Revolução Bolchevique de Outubro de 1917, a desapropriação das grandes propriedades de terras pelo Estado provocou uma enorme falta de alimentos, o que levou o Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkcom) a obrigar os camponeses a vender seus produtos exclusivamente para o Estado ao invés de no costumeiro mercado. O novo regime eliminou todas as micro iniciativas de negócios prestação de serviços, que passaram a ser vistas como atividades capitalistas.

O Marxismo imputou um sentido pejorativo ao‘capitalismo’ a fim de ajudar a promover a revolução dos trabalhadores. A Esquerda Latina soube tirar proveito disso, mostrando os vícios facilmente reconhecíveis do capitalismo como a formação de cartéis e monopólios pelas grandes empresas. Entretanto, o capitalismo é simplesmente um sistema econômico onde o capital está nas mãos das pessoas, ao contrário do sistema econômico do socialismo, onde o capital maior pertence ao Estado. Dessa forma, a atividade capitalista inclui também os negócios médios e pequenos e todos trabalhadores autônomos, que na verdade são são mercadores solitários (sole traders, em inglês) que comercializam produtos ou serviços. Os agricultores, pecuaristas, feirantes, negociantes, vendedores ambulantes, alfaiates, costureiros, sapateiros, doceiros, pipoqueiros, jardineiros, manicures, cabeleireiros, faxineiros e professores particulares também fazem parte do sistema econômico do capitalismo. Nos últimos anos, Cuba tem aberto a sua economia para permitir que as pessoas abram seus pequenos negócios e trabalhem por conta própria. Apesar disso ser um importante passo para a liberalização da economia cubana, o governo de Cuba insiste em preservar o rótulo de ‘socialista’, possivelmente por ser mais condizente com as expectativas da população menos esclarecida.

Mas o colapso soviético não significou o colapso da Esquerda Latina e sua ideologia Marxista. Há apenas duas explicações isso: ignorância e cinismo. Desses dois motivos o pior é a ignorância, pois impede a compreensão da realidade e o exercício da cidadania. Qualquer indivíduo que saiba ler deve procurar ler mais. A educação informal de adultos através da leitura são as melhores armas contra a manipulação dos cínicos, os únicos que têm interesse na preservação da ignorância.

Todos os cidadãos que votam devem procurar entender por si próprios as informações chaves para a compreensão da política e da governança, a fim de entender o funcionamento da ordem econômica e social de um Estados democrático. Essa ordem existe independentemente das pessoas que se encontram no poder. Quem entende isso também entende que não faz sentido por fé em políticos com promessas de milagres, cujos atos de despir um santo para cobrir outro são verdadeiros golpes contra a democracia e a liberdade.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

Sobre o colapso da União Soviética

Para Yale Richmond, um escritor e um ex-diplomata americano que serviu na União Soviética, Polônia e Alemanha, a causa do colapso da União Soviética em 1991 foi o intercâmbio cultural firmado com os Estados Unidos em 1958, que permitiu com que mais de cinquenta mil cidadãos soviéticos visitassem os Estados Unidos e algumas dezenas de milhares visitassem a Europa Ocidental. Segundo Richmond, até a implantação desse intercâmbio cultural em 1958, a Cortina de Ferro havia permanecido impenetrável e as informações sobre o Ocidente eram cuidadosamente controladas. A maior parte dos russos julgavam ter um padrão de vida superior àquele dos Estados Unidos e dos outros países ricos do Ocidente. Aos poucos, os visitantes russos que retornavam do Ocidente trouxeram outras informações, que prepararam o cenário para as reformas implementadas por Gorbachev.

Um fenômeno equiparável ao intercâmbio cultural acima mencionado, foi o intercâmbio espontâneo que levou diversos membros da Esquerda Latina que eram perseguidos pelas diversas ditaduras militares a se refugiarem noutros países incluindo os Estados Unidos. Para esses companheiros mais esclarecidos da Esquerda Latina, a ficha da utopia Marxista também caiu bem antes de 1991.

Após o colapso da União Soviética a Rússia decidiu disponibilizar para a pesquisa histórica os arquivos do antigo regime. A maior parte das falsidades e meias verdades produzidas pela colossal máquina de propaganda soviética havia inventado já foi explicada. Robert John Service (1947-), um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu a trilogia biográfica de Lênin, Stalin e Trotsky, reunindo as informações biográficas contidas dos arquivos soviéticos com as demais informações históricas, filosóficas e sociológicas da literatura. Nessa trilogia Service procurou corrigir as distorções existentes, dando ênfase aos aspectos pouco conhecidos dos biografados e aos seus perfis psicológicos.

A disponibilização dos arquivos soviéticos vem também esclarecendo a extensão dos braços do Comintern nos Estados Unidos, Canadá e América Latina, bem como os seus contatos nessas regiões. Até que a verdade chegue aos movimentos de trabalhadores, a utopia Marxista continuará ajudando os líderes populistas latinos, perpetuando a esquizofrênica combinação de política de esquerda com economias capitalistas.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.