Sobre o colapso da União Soviética

Jo Pires-O’Brien

Para Yale Richmond, um escritor e um ex-diplomata americano que serviu na União Soviética, Polônia e Alemanha, a causa do colapso da União Soviética em 1991 foi o intercâmbio cultural firmado com os Estados Unidos em 1958, que permitiu com que mais de cinquenta mil cidadãos soviéticos visitassem os Estados Unidos e algumas dezenas de milhares visitassem a Europa Ocidental. Segundo Richmond, até a implantação desse intercâmbio cultural em 1958, a Cortina de Ferro havia permanecido impenetrável e as informações sobre o Ocidente eram cuidadosamente controladas. A maior parte dos russos julgavam ter um padrão de vida superior àquele dos Estados Unidos e dos outros países ricos do Ocidente. Aos poucos, os visitantes russos que retornavam do Ocidente trouxeram outras informações, que prepararam o cenário para as reformas implementadas por Mikhail Gorbachev.

Um fenômeno equiparável ao intercâmbio cultural acima mencionado, foi o intercâmbio espontâneo que levou diversos membros da Esquerda Latina que eram perseguidos pelas diversas ditaduras militares a se refugiarem noutros países incluindo os Estados Unidos. Para esses companheiros mais esclarecidos da Esquerda Latina, a ficha da utopia Marxista também caiu bem antes de 1991.

Após o colapso da União Soviética a Rússia decidiu disponibilizar para a pesquisa histórica os arquivos do antigo regime. A maior parte das falsidades e meias-verdades produzidas pela colossal máquina de propaganda soviética já foi explicada. Robert John Service (1947-), um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu a trilogia biográfica de Lênin, Stalin e Trotsky, reunindo as informações biográficas contidas dos arquivos soviéticos com as demais informações históricas, filosóficas e sociológicas da literatura. Nessa trilogia Service procurou corrigir as distorções existentes, dando ênfase aos aspectos pouco conhecidos dos biografados e aos seus perfis psicológicos.

A disponibilização dos arquivos soviéticos vem também esclarecendo a extensão dos braços do Comintern nos Estados Unidos, Canadá e na América Latina, bem como os seus contatos nessas regiões. Até que a verdade chegue aos movimentos de trabalhadores, a utopia Marxista continuará ajudando os líderes populistas latinos, perpetuando a esquizofrênica combinação de política de esquerda com economias capitalistas.


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Memórias da Guerra Fria

Jo Pires-O’Brien

Durante a Guerra Fria os intelectuais do Ocidente, cuja maioria era engajada com a Esquerda, viam os Estados Unidos como o grande vilão e a União Soviética como o exemplo do regime do bem. Milhares de jovens latino-americanos viajaram para a União Soviética a fim de estudar e receber treinamentos diversos. Os especialistas em história latino-americana ligados ao Projeto Inkomka já devem ter uma ideia da estatística desse intercâmbio por país.

A falta de equilíbrio das informações sobre os dois lados da Guerra Fria explica até certo ponto porque a intelectualidade latina era massivamente de esquerda. Todos os atos condenáveis da política externa dos Estados Unidos foram amplamente divulgados pela imprensa falada e escrita. Assim, a população da América Latina tomou conhecimento da malograda invasão da Baía dos Porcos em 1961, das missões militares na Nicarágua e noutros países da América Central e o apoio que foi dado aos governos militares da região. O que a população da América Latina não ficou sabendo, pela total falta de divulgação, foram os atos igualmente condenáveis da política externa da União Soviética que geraram as grandes crises da Iugoslávia, da Albânia e da Polônia.

A antiga república da Iugoslávia (1944-1992), ao ser libertada do domínio alemão no final da Segunda Guerra Mundial, passou a integrar o bloco soviético. O seu presidente, o Marechal Josip Broz Tito (1892-1980), havia participado da Revolução Bolchevique de 1918, sendo portanto um antigo conhecido do ditador Joseph Stalin. Entretanto, nas reuniões do Partido, Tito não hesitava em se expressar abertamente e fazer as críticas que julgava necessárias, o que em 1948 fez com que se tornasse mais um desafeto de Stalin. Após a morte de Stalin em 1953, um bilhete de Tito foi encontrado numa gaveta de sua escrivaninha, com os seguintes dizeres: ‘Stalin: pare de mandar enviados para me matar. Nós já capturamos cinco, um deles com uma bomba e outro com um rifle… Se você não parar de mandar assassinos, eu vou mandar um a Moscou, e não precisarei mandar um segundo’

Após o racha entre Tito e Stalin em 1948, a Albânia, desligou-se da Federação Iugoslava e se juntou diretamente ao bloco soviético, mas, em 1961, decidiu se alinhar à China de Mao Zedong. Os acontecimentos da Albânia reverberaram junto às esquerdas de todo o mundo, incluindo na América Latina, onde ganhou muitos adeptos, que eram chamados ‘comunistas da linha Albanesa’.

A Polônia, que também havia passado a integrar o bloco soviético após a Segunda Guerra Mundial, começou a se rebelar contra o domínio soviético ainda na década de 1950, através de greves e protestos de trabalhadores. A perseguição soviética aos poloneses das minorias étnicas como os pomeranos e os judeus, os obrigaram a emigrar para a Alemanha Ocidental e outros países do Ocidente. Dois fatos fortuitos permitiram que o Ocidente tomasse conhecimento do Sindicato Solidariedade, o primeiro sindicato independente do Partido Comunista, surgido em 1980. O primeiro foi o relaxamento das restrições às entradas e saídas do país após 1978, quando o polonês Karol Wojtyla tornou-se o Papa João Paulo II. O segundo foi o fato de ser situado numa cidade que é um importante porto internacional (Gdansk).

Durante a Guerra Fria cerca de 3,45 milhões de pessoas deixaram o Leste Europeu. Foi para conter tal êxodo que o Muro de Berlim foi erguido, como um projeto conjunto entre a Alemanha Oriental e a União Soviética. Foi construído em etapas que começaram em 1961 e terminaram em 1980. Inicialmente o muro era uma monstruosidade de concreto armado e arame farpado, numa extensão de 165,7 quilômetros. A última construção consistiu de blocos de concreto atingindo 3,6 m de altura e com uma espessura de 1,2 m, com uma tubulação lisa no topo para impedir que as pessoas escalassem o muro. Pelo menos 136 pessoas morreram em tentativas de vencer a barreira do Muro de Belém, tendo sido mortos pelos guardas armados, explosões de minas, ou afogamento no rio Spree. Estima-se que entre 1950 e 1988, quatro milhões de alemães do lado leste emigraram para o lado oeste, 86% destes antes da construção do Muro de Berlim.

Os intelectuais que deixaram o Leste Europeu e se fixaram no Ocidente procuraram alertar o Ocidente sobre a repressão do outro lado da Cortina de Ferro, mas suas vozes raramente eram ouvidas. Um desses intelectuais foi o filósofo polonês Leszek Kolakowski (1927-2009), professor de filosofia da Universidade de Cracóvia, que foi expulso da Polônia em 1968. Além de deixar uma extensa obra de crítica ao Marxismo, Kolakowski analisou o paradoxo da sociedade liberal, ou seja, a tendência de se tornar o seu próprio inimigo devido à sua liberdade de expressão e à sua tolerância às forças capazes de destruir as liberdades individuais.

Não se pode negar que durante a Guerra Fria ambos os Estados Unidos e a União Soviética portaram-se como superpoderes imperialistas. Entretanto, os imperialismos da União Soviética e dos Estados Unidos não eram iguais. O imperialismo americano era indireto e baseado no poderio econômico das grandes empresas, ao passo que o imperialismo da União Soviética era direto e político.


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A Nova Esquerda

Jo Pires-O’Brien

A Nova Esquerda surgiu em 1968 no meio universitário. Um dos seus principais teóricos foi o filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979), um professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em São Diego. A Nova Esquerda foi um produto da conjuntura política do ano de 1968, marcado não só pela impopular Guerra do Vietnã, mas também por dois grandes cataclismos sociais: o assassinato de Martin Luther King Júnior (1929-1978) e a Primavera de Praga.

Martin Luther King Júnior, um pastor da igreja Batista e um dos principais líderes do Movimento por Direitos Civis nos Estados Unidos, havia se notabilizado pelo seu famoso discurso ‘Eu Tenho um Sonho’ (I Have a Dream) durante a Grande Marcha de Washington de 28 de agosto de 1963, que ele havia ajudado a organizar, bem como por ter ganho o Prêmio Nobel da Paz em 1964 Martin Luther King. O seu assassinato, em quatro de abril de 1968, marca o início do processo de câmbio da liderança da Esquerda, dos sindicatos laborais para os estudantes universitários.

Três semanas depois do assassinato de Martin Luther King, os alunos da Universidade de Colúmbia, no estado de Nova Iorque, colocaram abaixo a cerca em torno da obra de um novo ginásio de esportes, por considerar racista a decisão de colocar apenas uma porta de fundos no lado do ginásio voltado para o bairro negro do Harlem, e começaram a ocupar setores da universidade incluindo a sala do reitor, situada na Baixa Biblioteca. Funcionários da universidade pediram aos estudantes que saíssem, mas como isso não ocorreu, a polícia foi chamada. A ocupação durou diversos dias e os protestos persistiram por diversas semanas.

A primavera de Praga ajudou a completar a passagem da liderança da Esquerda dos sindicatos laborais para as universidades. A Nova Esquerda fez valer seu poder durante as décadas de 1970 e 1980, quando esteve no centro da Guerra das Culturas do meio acadêmico americano. A ideologização da academia levou a uma série de erros de julgamento que fizeram diversas disciplinas das ciências humanas retroceder. Tais erros foram apontados no final da década de 1980 por diversos acadêmicos como Edward Wilson, Steve Pinker e Alan Bloom. A ideologização da academia possivelmente causou outros danos ligados à prática do ‘gate-keeping’ (vigilância de entrada), designação dada ao sistema criado nos Estados Unidos para impedir o ingresso na academia de indivíduos que não faziam parte do clube da Nova Esquerda.

O ano de 1968 ficou marcado pela grande quantidade de demonstrações estudantis que pipocaram em todas as grandes capitais do Ocidente. Embora os estudantes de cada país tivessem as suas próprias listas de descontentamentos, não há dúvidas de que o movimento estudantil de todo o mundo estava conectado. Em Paris, onde a agitação estudantil havia começado em março e se tornado visível no dia 3 de maio, o descontentamento girava em torno do arcaísmo do sistema de ensino superior e com a falta de oportunidades de empregos. Na Itália, o estopim do descontentamento foi o assassinato do ex Primeiro-ministro Aldo Mouro, líder do Partido Democrata Cristão, que havia sido sequestrado no dia 16 de março. Os estudantes e os intelectuais resolveram agir contra o autoritarismo do Estado, uma herança do fascismo. Na Alemanha, o descontentamento também girava em torno do fascismo estatal, mas foi levantado por grupos de jovens conhecidos como a gangue de Baader-Meinhof. Na América Latina também houve protestos estudantis no Chile, Argentina, México e Brasil, que envolveram tanto estudantes de universidades quanto estudantes secundaristas. No Brasil os protestos giravam em torno da repressão política da ditadura militar e da liberação sexual.

A primavera de Praga ajudou a completar a passagem da liderança da Esquerda dos sindicatos laborais para as universidades. A Nova Esquerda fez valer seu poder durante as décadas de 1970 e 1980, quando esteve no centro da Guerra das Culturas do meio acadêmico americano. A ideologização da academia levou a uma série de erros de julgamento que fez diversas disciplinas das ciências humanas retroceder. Tais erros foram apontados no final da década de 1980 por diversos acadêmicos como Edward Wilson, Steve Pinker e Alan Bloom. A ideologização da academia possivelmente causou outros danos ligados à prática do ‘gate-keeping’ (vigilância da entrada), designação dada ao sistema criado nos Estados Unidos para impedir o ingresso na academia de indivíduos que não faziam parte do clube da Nova Esquerda.

Hoje em dia a Nova Esquerda é um anacronismo. Desprezada nos países mais industrializados do Ocidente, a Nova Esquerda encontrou refúgio na América Latina, onde virou um pasticho de ideologias e doutrinas que as lideranças demagógicas têm todo o interesse de preservar.

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A origem do Marxismo na América Latina

Jo Pires-O’Brien

A esquerda latina minimizou o choque da desintegração da União Soviética em dezembro de 1991, procurando mostrar que já existia mesmo antes da criação do Comintern em março de 1919. De fato, antes desta data já haviam sindicatos laborais bem organizados na América Latina. Entretanto, o forte catolicismo da América Latina havia gerado um socialismo sindical diferente daquele pregado pela União Soviética, sem o cunho revolucionário e anatemático ao ateísmo comunista. No tocante a Partidos Comunistas, apenas a Argentina possuía um organizado e atuante.

O sindicalismo chegou à América Latina logo depois da primeira convenção internacional dos trabalhadores, realizada em Londres, em 1864. Antes da mesma o papa Leão XIII, cujo papado se entendeu de 1878 a 1903, já havia percebido que o socialismo era uma ameaça à fé cristã. Entretanto, ao perceber a enorme atração que o socialismo exercia junto à classe trabalhadora, o papa contemporizou sua visão na encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas) onde advertiu os trabalhadores cristãos a que formassem suas próprias associações e somassem seus esforços para repelir as associações que sejam injustas e intolerantes. Mostrando-se contrário à militância revolucionária, o papa escreveu: “é do interesse da comunidade bem como do indivíduo, que a paz e a boa ordem sejam mantidos; que tudo seja conduzido de acordo com as leis de Deus e as da natureza”. E sobre o direito à propriedade: “O direito de possuir bens privados deriva da natureza, e não do homem; e o Estado tem o direito de controlar o seu uso no interesse apenas do bem público, mas de nenhuma forma absorvê-lo totalmente”.

Quando o Comintern soviético chegou na América Latina ainda em 1919 com o propósito aberto de promover a revolução mundial dos trabalhadores, era natural que encontrasse resistências de fundo religioso. Aliás, em todo o continente americano a resistência inicial contra o socialismo era de fundo religioso, sendo que apenas no final do século vinte o motivo maior passou a ser a falta de liberdade.

A presença do Comintern foi decisiva para a criação dos Partidos Comunistas em toda a América Latina. Cada país ganhou seu escritório central do Partido, denominado Politburo: Cuba em 1920, Brasil e Chile em 1922, Equador em 1926, e Venezuela em 1931, etc. O racha entre Trotsky e Stalin em 1929 fez com que Trotsky lançasse mais tarde uma Quarta Internacional, que embora não tivesse alcançado o sucesso esperado, gerou um racha os Partidos Comunistas de toda a América Latina. A afeição a Trotski deveu-se ao fato do Bolchevista ter fixado residência no México em 1936, onde permaneceu até o seu assassinato em 1940 a mando de Stalin.

O socialismo latino teve uma fase de renascimento logo depois da Revolução Cubana de 1959, que levou Fidel Castro ao poder, quando toda a América Latina foi alvo de uma trama internacional para a implantação do socialismo de estilo soviético em toda a região. Golpes militares pipocaram por todo o continente, todos motivados pela crença patriótica de que eram indispensáveis para de conter a ameaça do socialismo comunista. Lutas armadas foram organizadas para derrubar os regimes militares totalitários e substituí-los por outros regimes igualmente totalitários.


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O socialismo e a Guerra Civil Espanhola

Jo Pires-O’Brien

Em 1919 quando a Terceira Internacional Comunista, reunida em São Petersburgo, criou o Comintern, a esquerda espanhola já era altamente ativa e não deu muita importância ao acontecimento. A Espanha, então uma monarquia constitucional, não tinha nenhuma simpatia pelo governo revolucionário soviético que havia executado a família real russa.

A situação econômica da Espanha após a Primeira Guerra Mundial era tão calamitosa quanto a do resto da Europa. Apesar da sua neutralidade nesse conflito, a Espanha enfrentava uma penosa desestabilização causada por diversos conflitos internos entre proprietários e arrendatários de terras, anticlericalismo e a Igreja, conservadores e liberais, monarquistas e republicanos e entre membros das culturas rurais e urbanas. Em cima disso tudo havia ainda as pressões das regiões internas para ganhar autonomia, o anarquismo e a contumaz interferência dos militares no governo. Foi dentro dessa conjuntura que o golpe militar de 23 de setembro de 1923 obteve sucesso e colocou no governo o general Miguel Primo de Rivera.

No final de 1929, a Espanha sofreu uma nova crise econômica decorrente da recessão mundial provocada pela quebra da bolsa de valores dos Estados Unidos. Embora em janeiro de 1930, o rei Alfonso XIII tivesse conseguido a renúncia de Primo de Rivera, a sua vitória durou pouco, pois em 14 de abril de 1931 um outro golpe militar proclamou a Segunda República Espanhola1, obrigando o rei a deixar o país. A Segunda República Espanhola durou até 1939.

Em junho e julho de 1931 as Cortes Constitucionais foram eleitas e em dezembro do mesmo ano uma nova Constituição foi introduzida. Apesar de tudo, certas divisões internas, como aquelas causadas pelo anti-clericalismo, não foram resolvidas. O Artigo 26 da nova Constituição, que tratava das relações entre o Estado e as ordens religiosas, acabou provocando a renúncia do Primeiro-ministro Niceto Alcalá-Zamora.

O novo governo foi coroado pelas pressões do crescente anticlericalismo e da corrente favorável à implantação de um regime anarquista (comunista libertário). As eleições de novembro de 1933 foram ganhas graças à coalizão dos partidos de direita, sendo que o cargo de Primeiro-ministro ficou para Diego Martínez Barrio do Partido Republicano Radical.

O partido de direita que rivalizava com o Partido Republicano Radical era a Falange, fundada em 1933 por José Antonio Primo de Rivera, filho do ex-ditador Miguel Primo de Rivera. No seu manifesto, a Falange condenou o socialismo, o Marxismo e o capitalismo e propôs que a Espanha se tornasse um país fascista semelhante à Itália de Benito Mussolini. José Antonio foi capturado pelos republicanos em julho de 1936, e em 20 de novembro do mesmo ano foi executado.

Um golpe militar contra o governo do Primeiro-ministro Diego Barrio teve início em 19 de julho de 1936 gerando revoltas em diversos lugares da Espanha, Ilhas Canárias, Marrocos, Sevilha e Aragão. O General Francisco Franco, então no comando do exército na África, aderiu à revolta e retornou à Espanha e passou a liderou a revolta, contando com o apoio de partidos católicos, conservadores, monarquistas e fascistas. Era o início da Guerra Civil Espanhola que perduraria até 1939.

Durante a Guerra Civil na Espanha o General Francisco Franco pediu ajuda à Alemanha e à Itália, enquanto que Diego Barrio solicitou a ajuda do Kremlin. O Comintern soviético mandou o líder do Partido Comunista italiano, Palmiro Togliatti, de codinome Ercoli, para ajudar a formar a ‘frente popular’ republicana liderada pelo espanhol José Diaz. Isso não foi uma tarefa fácil devido às divisões existentes entre os diversos partidos de esquerda, como os trotskistas, os anarquistas e os comunistas independentes.

No cenário mundial a Guerra Civil Espanhola criou uma imagem positiva da esquerda como sendo a força política capaz de enfrentar o nazismo e o fascismo, atraindo o apoio dos comunistas de diversos países principalmente dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. É pertinente lembrar que a imagem positiva da esquerda contou com uma máquina de propaganda muito parecida com àquela empregada na União Soviética. As dezenas de pôsteres produzidos tiveram o efeito esperado, principalmente junto aos jovens como o futuro escritor e jornalista britânico George Orwell (1903-50). É também pertinente lembrar que Orwell registrou nos seus livros Lutando na Espanha (Homage to Cataluña), 1984 e A revolta dos bichos (Animal Farm) o seu desencanto com o socialismo.

A Guerra Civil deixou sequelas de longa duração na sociedade espanhola, como as recriminações mútuas entre os simpatizantes da Falange e os simpatizantes dos partidos socialistas e fascistas. Infelizmente os esforços de reconciliação que vinham sendo feitos foram neutralizados pela severa recessão econômica que a Espanha experimentou entre 2008 e 2011; o período provocou na Espanha um período de tumultos e revoltas populares e o eleitorado espanhol elegeu o atual governo socialista.

Nota. 1. A Espanha teve uma brevíssima Primeira República que durou de fevereiro de 1873 a janeiro de 1874.


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Apresentação do blog ‘Armadilhas do Marxismo’

Jo Pires-O’Brien

A sociedade brasileira deixou na minha lembrança algumas obscuridades inquietadoras que eu resolvi tentar compreender à luz da distância física e do tempo. Uma dessas obscuridades tem a ver com o fracasso na comunicação com uma certa categoria de indivíduos que me pareciam refratários à troca de ideias. Talvez para diminuir o desassossego da omissão do refrator, eu havia assumido a culpa, atribuindo a falha de comunicação à própria inépcia.

No desenrolar do meu projeto de passar a limpo o passado, descobri que eu não era a única pessoa a se frustrar com o fracasso da comunicação com pessoas refratárias. Descobri que o filósofo Karl Raymond Popper (1902-94) havia experimentado algo parecido, quando disse: “Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere nos matar a ser convencido pelos nossos argumentos”. Popper atribuiu à doutrinação ideológica a barreira das pessoas à argumentação, e procurou mostrar que o Marxismo foi a ideologia que mais causou incompreensões, divisões e conflitos durante todo o século vinte. Segundo Popper, a desinclinação para ouvir argumentos e reavaliar posições faz parte da atitude do irracionalismo, o único problema realmente sério da humanidade.

Popper mostrou como Marx abusou da história para construir as suas falsas leis profetícias da sociedade perfeita. No tocante ao experimento do socialismo Marxista que se estendeu na União Soviética de 1917 até 1991, a própria história deu o parecer final: “os 74 anos do período comunista foram um retrocesso à era da obscuridade e resultaram de um enorme erro cometido por dois terroristas chamados Lênin e Trotsky” Essa frase condensa a narrativa histórica do período comunista, conforme descrito pelos museus de história contemporânea da Rússia, de acordo com o relatório de uma viagem Rússia publicado em 2010 em Contemporary Review.

Tendo aceitado a explicação de Popper sobre o irracionalismo das pessoas refratárias, resolvi escrever este blog sobre os enganos do Marxismo e a herança negativa que o socialismo deixou e continua deixando na sociedade. Eu espero mostrar esses enganos através de curtos resumos críticos de fatos e temas selecionados. Embora muitos desses enganos tenham sido causados pela cegueira ideológica, outros tantos foram erros cometidos deliberadamente em nome de um objetivo. Como a revolução internacional dos trabalhadores era absolutamente necessária para acabar com o capitalismo que os oprimia, alguns milhares de vidas e um punhado de violações de direitos humanos pouco representavam em comparação como o grandioso objetivo final. Sem capitalismo e sem propriedade privada, tudo seria de todos; os vícios do ócio e do parasitismo social seriam extirpados por algum decreto do governo; cada qual contribuiria conforme as suas capacidades e receberia conforme as suas necessidades; e como todos os trabalhadores teriam a mesma remuneração, não haveria mais classes sociais. O Marxismo prometeu um paraíso na terra, mas resultou apenas em distopias.

No conjunto das histórias relatadas procurarei mostrar como é injusto comparar regimes políticos da sociedade real com idealizações da sociedade perfeita que o Marxismo prometeu. Nem a melhor democracia liberal, em que há igualdade perante a lei e na qual cada indivíduo é livre para tirar o melhor proveito de suas capacidades e oportunidades, –– com a ressalva de não interferir na liberdade dos outros de usufruir o mesmo direito –– , pode competir com a sociedade de prancheta do socialismo Marxista.

Comentários e críticas construtivas são bem-vindos.


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A rede Comintern-Politburo

Jo Pires-O’Brien

A sociedade perfeita projetada por Marx, conquistou corações e mentes em toda a Europa enquanto que o experimento Marxista na Rússia gerou uma expectativa em todo o mundo de que a revolução dos trabalhadores estava prestes a acontecer.

Lênin (Lenine) era líder do Partido Comunista soviético, cujo Politburo havia convocado a Terceira Internacional Comunista, realizada em 1919 em São Petersburgo, com a participação de representantes de treze países. Como já foi mostrei numa postagem anterior, a Terceira Internacional criou o Comintern a fim de ser o seu braço executivo, responsável pela organização da revolução mundial dos trabalhadores, elegendo Grigory Zinoviev como o seu primeiro presidente. Assim, os dois mandachuvas do movimento internacional revolução dos trabalhadores eram o Comintern, mais o Politburo do Partido Comunista russo.

Diversos países já tinham partidos socialistas antes da criação do Comintern, como a França e a Argentina. Na França, a decisão do partido socialista de se associar ao Comintern foi uma deliberação da reunião realizada em Tours em dezembro de 1920. Entretanto, os partidos comunistas e socialistas sob o guarda-chuva do Comintern, na verdade ficavam sob o Politburo de Moscou. Até o final da década de 1930 a maior parte dos partidos de esquerda de todo o mundo estava sob o guarda-chuva do Comintern e de Moscou.

Nas grandes cidades do Ocidente crescia o número de intelectuais atuantes na promoção do socialismo Marxista. Entretanto, a capital mundial do Marxismo era Paris. Era para lá que convergiam os escritores, poetas, músicos e artistas de todo o mundo que eram simpáticos ao Marxismo. Paris era também um destino frequente dos oficiais do Politburo e do Comintern.

A real extensão da rede mundial do comunismo ligado ao Comintern e ao Politburo soviético entre 1919 e 1943 começou a ser revelada no final da Guerra Fria, quando os arquivos do Kremlin foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, através de um acordo de cooperação bilateral. Desde então, a Biblioteca do Congresso vem coordenando o projeto INCOMKA, voltado à digitação desses arquivos, por nove instituições participantes as quais contam com a colaboração de indivíduos em todo o mundo. Uma das tarefas mais árduas foi converter nomes de pessoas escritos no alfabeto cirílico para o alfabeto latino. Outra tarefa incluía traduzir trechos principais do arquivo do russo para o inglês. O banco de dados do Incomka já se encontra disponível aos usuários da Biblioteca do Congresso e breve deverá ser disponibilizado através da internet.


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