Doutrinação e radicalização

Doutrinação e radicalização

Doutrinação é fazer a cabeça de alguém acerca de qualquer coisa. Radicalização é fazer a cabeça de alguém uma forma tal que o indivíduo radicalizado abre mão dos valores recebidos de sua família e sua sociedade e aceita valores estranhos incompatíveis com os mesmos, como a permissão para cometer crimes. Outra diferença crucial entre doutrinação e radicalização é que a doutrinação não requer a presença física de um doutrinador, podendo ocorrer através da imitação de outros ou de leituras, enquanto que a radicalização requer uma relação direta com um radicalizador.

Todo ser humano possui uma predisposição ao gregarismo. Os jovens costumam ter problemas de inserção social, e embora tais problemas em geral se devem ao fato de ainda não terem vivido o tempo necessário para mostrar ao mundo quem são e assim ganhar o respeito da sociedade, eles acabam se tornando vítimas fáceis dos radicalizadores.

A inteligência emocional pouco desenvolvida é uma limitação que dificulta os relacionamentos dentro da família e no ambiente de trabalho. Entretanto, à medida em que as pessoas amadurecem, elas aprendem a se conhecer melhor e a aceitar as suas limitações. Adultos normais sabem reconhecer a sensação de não pertencer e aprendem a lidar com a mesma, mas os jovens em geral não sabem lidar com tal sensação, e acabam tomando decisões precipitadas na expectativa de resolver o problema. O que acontece com os jovens é a aceitação de uma identidade do tipo ‘aqui e agora’, baseada no ‘nós e eles’, isto é, em amigos e inimigos. A identidade do tipo ‘aqui e agora’ atrapalha a identidade orgânica, aquela que se desenvolve gradativamente durante o crescimento moral e intelectual do indivíduo.

A identidade é a moeda dos radicalizadores, que se aproveitam das incapacidades dos jovens de lidar com suas carências identitárias e de inserção social. Tal identidade vem sob a forma de afiliação a um determinado grupo. O grupo tem um enorme efeito psicológico no processo de radicalização. Mais de 80% daqueles que participam de redes de radicalização islâmicas o fazem através de amigos e em grupos, quase nunca individualmente.

As doutrinações e as radicalizações são motivadas pelo ódio ao inimigo comum. A radicalismo de Esquerda prega o ódio ao capitalismo e ao liberalismo e o radicalismo islâmico prega o ódio aos Estados Unidos em particular e ao Ocidente em geral, e ao seu estilo de vida secular e liberal. Esse ódio tanto pode vir de fora do Ocidente quanto de dentro. Enquanto que o ódio de Bin Laden veio de fora do Ocidente, o ódio dos terroristas suicidas do 9/11 foi fermentado dentro do Ocidente, junto com grupos terroristas políticos e organizações de esquerda.

O ódio dá motivo às doutrinações e radicalizações mas o objetivo dessas é sempre o poder. A extrema Esquerda internacional é uma rede global de grupos de poder cujo objetivo é ganhar mais poder. O radicalismo islâmico é também uma rede de grupos de poder, e o seu objetivo é dominar o mundo através da reconquista de todos os territórios que já pertenceram à teocracia islâmica, os quais incluem o sul da Espanha e de Portugal, a região do Cáucaso da Europa, Filipinas, Ásia Central, Índia, e norte da África.

Finalizando, é bom lembrar que toda radicalização é truculenta pois envolve um radicalizador tarimbado e um radicalizado emocionalmente inepto e ressentido com a sociedade. A radicalização islâmica no Ocidente é ainda mais truculenta pois envolve persuadir mentes jovens que vivem em meio a elevados valores de individualidade e liberdade a que renunciem a esses valores em troca de uma identidade instantânea mas cheia de efeitos indesejáveis.


Jo Pires-O’Brien é editora da revista PortVitoria da comunidade ibero-americana no mundo.

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Recessões e surtos de socialismo

Recessões e surtos de socialismo

Desde a Grande Depressão que se instalou nos Estados Unidos e no mundo após a Sexta-Feira Negra de novembro de 1929, todas as recessões econômicas provocaram surtos de solicialismo nos países de economia capitalista. A recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos não foi diferente. Uma ação típica do socialismo foi a intervenção governamental para salvar os bancos em dificuldades financeiras. As normas de mercado que regem o capitalismo apontam outro tipo de ação, no caso, deixar que os bancos solucionem eles próprios seus problemas, o que os torna mais resilientes a ameaças futuras similares.

A mesma recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos chegou à Europa e América Latina em 2009, onde também desencadeou surtos de socialismo. Na Europa, os cidadãos dos países cujas economias mais encolheram, como a Grécia, Espanha, França e Itália, continuaram esperando o mesmo nível de assistência social da época favorável, dificultando a implementação de medidas econômicas de prazo mais longo. A recessão econômica na América Latina é possivelmente a mais terrível do mundo. Só quem ganhou com ela foram os partidos de esquerda como o Partido dos Trabalhadores do Brasil, que prometeu manter os programas de assistência social criados durante o boom dos primeiros anos do século XXI.

Em 4 de julho de 2012, Stuart Jeffries escreveu na versão online do jornal de esquerda britânico The Guardian um artigo intitulado ‘Why Marxism is on the rise again’ (Porque o Marxismo está subindo de novo). Jeffries chama a atenção para o fato de que os jovens são os mais interessados no renascer do Marxismo. O apelo socialista não se restringe aos partidos socialistas. O atual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, escolhido em setembro de 2015, é um defensor aberto do socialismo. Corbyn foi citado nesse mesmo ano pelo jornal inglês The Mirror como tendo afirmado que o socialismo ‘é uma maneira óbvia de viver. As pessoas cuidam uns dos outros, todo mundo é cuidado, e todos cuidam de todos. Óbvio não?’ (… ‘is an obvious way of living. You care for each other, you care for everybody, and everybody cares for everyone else. It’s obvious, isn’t it?’)

Os especialistas creem que a economia global se encontra numa encruzilhada que tanto pode levar ao retorno do crescimento quanto a mais recessão. A melhor alternativa prevê um crescimento continuado porém pequeno, pelo menos no tocante aos próximos anos. Entretanto, o motor desse crescimento não é a besta do socialismo e sim a besta do livre mercado.

***Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.

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A massa e a democracia

O fato da democracia ser o governo do povo leva uma boa parte das pessoas a crer que a massa e a democracia andam de mãos dadas. Entretanto, a massa nada mais é do que uma facção poderosa da população com um tremendo potencial de abusar minorias. O abuso de um único indivíduo é uma violação do princípio de que a democracia não é um fim mas um meio para a liberdade. Nesse papel a democracia apoia-se no Estado de Direito, a estrutura legal garantidora dos direitos, que evolveu a partir do Iluminismo, e que pressupõe a ausência de privilégios. Portanto, o Estado de Direito não inclui todas as leis de um determinado Estado mas apenas aquelas que concernem a todos.

O crescimento da população do mundo veio acompanhado do crescimento das massas, um dos mais sérios problemas da atualidade. Dois pensadores e críticos sociais que estudaram o fenômeno das massas a partir da segunda década do século vinte foram o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94) e o espanhol José de Ortega y Gasset (1883-1955). Canetti procurou entender a psicologia do comportamento humano formador da massa, e  Ortega y Gasset concentrou-se mais nos efeitos deletérios que as massas podem causar nas democracias.

No seu livro A rebelião das massas, publicado em 1929, Ortega retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Para Ortega até a virada do século XX a estratificação social era ligada às classes econômicas, mas a partir de então surgiu uma nova extratificação social onde a sociedade passou a ser dividida entre massas e minorias. Ortega notou ainda que as massas caracterizavam-se pela dominância social, muitas vezes com o uso da força bruta contra os indivíduos não participantes. A nova estratificação social formada pelas massas e pela minoria resultava invariavelmente numa batalha entre esses dois estratos. Ortega notou que a democracia da década de vinte na Espanha era diferente da democracia do Estado de Direito pois as massas impunham as suas aspirações e desejos agindo diretamente, isto é, fora do Estado de Direito. Tal hegemonia das massas não poderia caracterizar a democracia saudável e sim a democracia doente, que ele designou de hiperdemocracia.

Cannetti também impressionou-se com o fenômeno das massas ocorrido no início do século vinte, mas as suas observações se estenderam por diversas décadas. O seu livro Masse und Macht foi publicado em 1960, sendo que a tradução inglesa saiu pouco depois, em 1962. A versão em português, intitulada Massa e poder, foi publicada em 1983 pela Editora UnB e em 1995 pela Companhia das Letras. O que é interessante em Canetti é o modo como ele busca inspiração na química para explicar fenômenos sociais. Canetti reconhece dois tipos de massas humanas, as fechadas e as abertas, caracterizadas pelo baixo e alto nível de interação com o ambiente, respectivamente. Enquanto que as massas fechadas são necessárias para o equilíbrio social, as massas abertas são sintomáticas de um desequilíbrio. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial uma série de punições incluindo a proibição da formação de um exército. Tal proibição, segundo Canetti, privou os alemães da sua massa fechada mais essencial, possibilitando a ascensão do partido nazista. Nessa conjuntura, Hitler mostrou aos alemães que a proibição do exército era uma afronta que equivalia à proibição da fé religiosa. Para Canetti, quando uma massa fechada é dissolvida, ela se transforma numa massa aberta com as mesmas características, mas bem maior.

A ameaça das massas no século XXI é ainda maior do que foi no século XX. A solução para o combate dessa ameaça é a educação, incluindo a educação acerca do verdadeiro significado da democracia. Massa não é democracia e democracia não é a multiplicação de opiniões ignorantes. Alexis de Tocqueville reconheceu isso há quase duzentos anos atrás, quando escreveu: “A tirania da maioria não requer conhecimentos, boa educação, deliberações razoáveis, autoridade e experiência e nenhuma das coisas que o populista chama de ‘elitismo’”.

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O museu do comunismo mundial: Link: http://www.thegulag.org/

Link: http://www.thegulag.org/

O link acima disponibiliza o portal do Museu do Comunismo Mundial – GLOBAL MUSEUM ON COMMUNISM.

O portal mostra exibições principais, como a Exibição Gulag, sobre a extensa rede de prisões descritas pelo escritor soviético Alexander Solzhenitsyn. Para escrever O Arquipélago Gulag, Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas.

O museu mostra também exibições especiais e nacionais.
Exibições Especiais:
The War on Religion
Post-Communist Economics
The Great Terror at 40
Communism in China
Chinese Persecution of Uyghurs
The Afghan People vs Communism
You Won the Cold War

Exibições Nacionais:
Bulgaria
China
Cuba – http://cuba.globalmuseumoncommunism.org/
Czechoslovakia
Estonia
Germany
Hungary
Latvia
Lithuania
North Korea [coming soon]
Poland
Romania
Soviet Union
Tibet
Ukraine
Vietmam
Coloquei o link de Cuba pois é o único país comunista das Américas.

O mapa do comunismo
O museu virtual mostra um mapa mundial que mostra os países que viveram regimes comunistas. Embora Cuba seja o único país que consta no mapa das Américas, o comunismo agiu no nosso continente através de uma extensa rede de correlegionários da Esquerda. Quem sabe um dia saberemos mais sobre os efeitos dessa rede.

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Guerrilhas no terceiro mundo: as zonas quentes da Guerra Fria

Autor: Simon Heffer
Resenha do livro Small wars, far away places: the genesis of the Modern World – 1945-65 de Michael Burleigh. Macmillian. 588pp. £25. ISBN 978-0-230-75232-0

Pelas suas características os vinte anos após o final da Segunda Guerra Mundial foram tão aterrorizantes quanto o próprio conflito. O período representou uma ameaça equivalente à ordem mundial: a derrota do fascismo foi seguida da ascensão do comunismo. O período viu também uma mudança do poder global, da Europa, onde ele historicamente residia, para a América. Até os anos sessenta os americanos estabeleceram uma hegemonia rivalizada apenas pela União Soviética – que ainda estava a uma boa distância atrás. A Grã-Bretanha, o grande poder da era pré-guerra, estava arruinada mas compreendia apenas gradualmente a sua impotência. Dentro de poucos meses a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria começou. O monopólio da América sobre a contenda nuclear durou pouco tempo, pois em 1949 os espiões deram aos soviéticos os segredos necessários para a confecção de sua própria bomba. Com as nações da Europa determinadas a não voltar a fazer guerra umas com as outras, a nova superpotência e o seu inimigo procuraram lutar alternativamente através de agentes no Oriente, na África e no Caribe. Essas são as histórias, dentre outras, que Michael Burleigh relata nesta magnífica, bem-informada, penetrante e muitas vezes espirituosa narrativa dos conflitos ocorridos entre 1945 e 1965.

Burleigh não tenta abarcar o mundo inteiro, mas escolhe os episódios onde tem um interesse especial, que ilustram o tema primordial desta obra: como a América se transformou, na altura do término do mandato presidencial de Eisenhower, naquilo que em 1066 and All That [Título de uma história satírica da Inglaterra publicada na década de 1930 e serializada na revista Punch! N.T.] ficou conhecido como ‘Top Nation’ (a Nação Manda-Chuva). Isso foi a culminação da política de Woodrow Wilson que sustentou a abordagem norte-americana adotada na conferência de Versalhes de 1919: a destruição do poder imperial europeu. Os Habsburgos, os Hohenzollernes e os Ottomanos haviam todos desaparecido; a questão não-resolvida era o Império Britânico, que provou ser insustentável após 1945. Conforme Burleigh registra, a partir do momento em que entraram na Segunda Guerra Mundial em Dezembro de 1941, os americanos deixaram bastante claro que os seus objetivos não incluíam a salvação nem a prorrogação do Império Britânico. E, mesmo antes da independência da Índia em 1947, a América já estava se portando como se não estivesse disposta a tolerar as dissensões do mundo, estendendo o seu alcance tanto aos seus aliados quanto aos seus clientes. Isso ocorreu em parte porque a América se viu como a principal barreira natural contra a disseminação do comunismo, e em parte porque havia se acostumado, desde a época de Wilson, a aspirar o posto de manda-chuva. A arrogância que esta mentalidade criou foi muito bem ilustrada por Burleigh, quando a América interveio nas Filipinas, em Cuba e no Vietnam com resultados cada vez piores.

A abdicação britânica do poder é mostrada como um resultado direto de estar falida. Antes de 1947, o país já havia indicado ao seu principal aliado que já não dava conta de exercer o papel que era esperado dele no Oriente Médio. O país já havia estado ansioso para sair da Palestina o mais depressa possível, mas tal lição parece que foi esquecida pelo governo Conservador dos anos cinquenta, que retornou à região com desastrosas consequências. Burleigh muito corretamente descreve o fiasco de Suez de novembro de 1956 como o momento em que a realidade tomou conta da Grã-Bretanha e os seus dirigentes finalmente entenderam que seu país havia se tornado um jogador de menor importância. As suas tentativas de combater a insurgência malaia conteve a maré por algum tempo, mas logo os agricultores brancos foram escorraçados para costas mais seguras. A manutenção das colônias africanas só foi possível com base na brutalidade racista, como o campo Hola no Quênia, onde em 1959 os guardas espancaram até a morte os Mau Mau detidos, fato que antecedeu em alguns meses o discurso dos ‘ventos de mudança’ de Macmillan.

A Grã-Bretanha não foi, entretanto, o único império a se desmantelar durante esses anos. A mesma coisa ocorreu com a França, primeiramente na Indochina, ao enfrentar comunistas que tinham o apoio chinês, e depois na Argélia contra os nacionalistas. Apenas de Gaulle, o último homem que entregou um centímetro quadrado do território francês, enxergou a impossibilidade de manter a presença do seu país no Norte da África. Através de ambiguidade, duplicidade e da patente traição dos seus princípios – e os dos Harkis, que haviam servido lealmente a França – ele livrou o seu país de um banho de sangue. A Argélia, como tantas das velhas colônias britânicas, continuou a se brutalizar durante décadas, mas pelo menos a França podia lavar as suas mãos sobre isso. Mais ao sul na África, os belgas e os portugueses eram igualmente brutais e ineptos, especialmente na sua propensão para permitir que a influência soviética se espalhasse por toda a África através de organizações que promoviam guerrilhas Marxistas, frequentemente com resultados pouco esclarecedores.

A América beneficiou-se desta hemorragia do poder europeu ainda mais do que a União Soviética. Embora o seu relacionamento com os países europeus individuais não fosse exatamente do tipo senhor e servo – pelo menos até os dias de Tony Blair, o crescimento do poderio americano, quando as últimas colônias europeias estavam sendo desativadas, lembrou a todos os interessados quem eram os verdadeiros senhores. Junto com esta sensibilidade veio uma infeliz arrogância. Burleigh é particularmente contundente nas suas descrições comparativas de Eisenhower e Kennedy, o seu sucessor: o primeiro, um homem de enorme experiência de comando e sem nenhum desejo de aparecer, e o segundo, um constructo do seu pavoroso pai, cuja entrada na política foi comprada com o dinheiro da família. Eisenhower é mostrado como um homem que moveu-se devagar e com sabedoria durante o período em que a América construía o seu poder nos anos cinquenta. Ele nunca perdeu a perspicácia de soldado sobre quais as guerras que poderiam ser ganhas, e portanto, enfrentadas com segurança. Ele também tinha pragmatismo para entender que a Grã-Bretanha estava posando (com Churchill como ‘posador’-em-chefe) nos anos cinquenta, apresentando-se como um poder mundial mesmo quando tal ilusão já se havia desvanecido, afirmando que a Grã-Bretanha merecia um lugar ‘especial’ nas relações internacionais com a América. Ike tinha uma atitude não-sentimental e apropriadamente rejeitou a noção, quase com um tom de pena.

Burleigh é um escritor bom e conciso, mas em nenhuma outra parte deste livro ele se excede mais do que na sua resumida descrição de Kennedy, como um ralo da moralidade, incapaz de levar qualquer coisa a sério afora a mulher que ele estivesse perseguindo na ocasião. Juntamente com o seu desagradável irmão Bobby, assassinado cinco anos depois dele, Kennedy meteu os pés pelas mãos no fiasco da Baía dos Porcos e só saiu intacto da Crise dos Mísseis Cubanos devido ao fortuito acidente da incompetência de Khrushchev e ao difícil relacionamento que o líder soviético tinha com Fidel Castro. Porém, foi Lyndon Johnson quem perpetrou a pior mancada da arrogância americana, com o seu pesado compromisso em termos de envio de tropas ao Vietnam. Harry Truman, que ainda estava vivo na ocasião, poderia ter-lhe advertido enfaticamente sobre as dores de cabeça que a Guerra da Coréia lhe haviam dado, e o alívio depois que a América conseguiu se safar. Mas Johnson acreditava na divina missão da América de lutar contra a ameaça comunista, e nunca imaginou que o seu país sofreria a humilhação que os franceses amargaram na década anterior, com a chocante derrota em Dien Bien Phu em 1954. O excepcional livro de Michael Burleigh termina antes do Vietnam virar o cemitério moral e literal da América: isso é no mínimo um bom motivo para esperar um volume sequente para ler a sua interpretação sobre como tal estória se desenrolou.
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Simon Heffer é um jornalista, escritor e editor britânico. O seu próximo livro High Minds, sobre a história intelectual e social da Grã-Bretanha do meio do século 19 será publicado pela editora Random House no final deste ano.

Tradução: J Pires-O’Brien; Revisão: C Pires

Esta resenha saiu em inglês na revista Literary Review, edição de Maio de 2013. Com autorização desta, foi republicado em português na revista PortVitoria:
http://www.portvitoria.com/

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Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

“No coração de todas as pessoas há uma batalha constante entre o bem e o mal” A Solzhenitsyn

Apenas recentemente eu tive a oportunidade de ler O Arquipélago Gulag, o famoso livro de Alexander Solzhenitsyn sobre os ‘gulags’ da União Soviética, campos e colônias de trabalho forçado por onde passaram cerca de 14 milhões de pessoas, detidas tanto por crimes ordinários e pequenas infrações quanto por motivos políticos. Embora Solzhenitsyn tivesse usado o termo ‘gulag’ nesse sentido, o termo ‘Gulag’ é um acrônimo para Alta Administração dos Campos e Colônias de Trabalho Corretivo do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (NKVD), a agência do governo soviético encarregada dos campos de trabalho forçado, criada oficialmente em 1930 e extinta em 13 de Janeiro de 1960. Escrito entre 1958 e 1968, O Arquipélago Gulag é um registro da arbitrariedade e da violência do regime implantado em 1917 na União Soviética. Solzhenitsyn mostra que já existiam campos e colônias de trabalho forçado antes de 1930 e que Lenin também havia cometido o mesmo tipo de violência que Stalin, embora numa escala menor.

Alexander Solzhenitsyn nasceu em Kislovodsky, no sudoeste da Rússia e perto da fronteira com a Georgia, em 11 de dezembro de 1918, tendo estudado matemática na Universidade de Rostov. Durante a Segunda Guerra Mundial Solzhenitsyn serviu no Exército Vermelho e chegou à categoria de capitão de artilharia. Apesar de ter sido condecorado por bravura, em 1945 ele foi preso e condenado por ter criticado Joseph Stalin numa carta a um amigo, quando foi mandado para um campo de trabalho forçado no Cazaquistão.

O primeiro livro de Solzhenitsyn foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, cujo cenário era um campo de trabalho forçado soviético, foi publicado em 1962, durante o governo de Khrushev. Entretanto, o livro foi posteriormente banido depois da queda de Khrushev em outubro de 1964. Os próximos dois livros de Solzhenitsyn, The First Circle (O Primeiro Círculo) (1968) e Cancer Ward (A Enfermaria do Câncer) (1968) também foram banidos. Em 1970, Solzhenitsyn ganhou o Premio Nobel de Literatura mas o governo soviético não lhe deu permissão para ir a Estocolmo para recebê-lo. O seu próximo livro foi o romance Agosto de 1914, sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado em 1971 fora da União Soviética. Em 1973 Solzhenitsyn publicou O Arquipélago Gulag, fora da União Soviética, motivo pelo qual ele foi acusado de traição e deportado. Já nos Estados Unidos, Solzhenitsyn escreveu Lenin in Zurich (1975), The Oak and the Calf (1980) e The Mortal Danger (1983). Após sua morte em 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade, Solzhenitsyn teve um funeral com honras de Estado e foi enterrado no cemitério de Donskoy em Moscou.

Depois que Nikita Khruschev denunciou as arbitrariedades de Stalin inicialmente no 20º Congresso do Partido reunido em fevereiro de 1956, e depois no 22º Congresso em outubro de 1961, a imprensa começou a divulgar o assunto. Durante o seu governo Khrushev, que durou até outubro de 1964, Solzhenitsyn e outros autores críticos de Stalin conseguiram publicar seus livros na União Soviética. Entretanto, Solzhenitsyn achava que as informações que haviam sido disseminadas representavam apenas uma verdade parcial e que não bastavam para desagravar as pessoas que perdido suas liberdades e suas vidas nos gulags. Depois da substituição de Khruschev por Leonid Brezhnev, houve um retrocesso na liberdade de imprensa, causada pelo receio das consequências de um confronto entre os que desejavam reabilitar a imagem histórica de Stalin e os que desejavam colocá-lo no banco dos réus.

Solzhenitsyn enfrentou uma enorme pressão para não desenterrar o passado, inclusive por parte da Associação de Escritores de Moscou. Entretanto, ele insistiu na importância de trazer a verdade à tona e atribui a maldade dos homens à ideologia, como mostra o trecho abaixo retirado de O Arquipélago Gulag:

“Ideologia é aquilo que dá ao malefício a justificativa tão procurada e ao malfeitor a determinação e a sustentação necessárias. É esta a teoria social que ajuda a fazer com que os seus atos pareçam bons ao invés de maus, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros, de forma que ele não ouvirá repreensões e maldições mas receberá elogios e honrarias. Foi assim que os agentes da Inquisição fortificaram as suas vontades: invocando a Cristianismo; os conquistadores de terras estrangeiras, louvando a grandeza da Pátria Mãe; os colonizadores, a civilização; os Nazistas, a raça; e os Jacobinos (do início e do fim), a igualdade, a irmandade, e a felicidade das gerações futuras. Foi graças à ideologia que o século vinte foi fadado a experimentar malefícios numa escala calculada em milhões. Isso não pode ser negado, ignorado ou suprimido. Como é então que nós nos atrevemos a insistir que os malfeitores não existem? E quem foi que destruiu esses milhões de pessoas? Sem malfeitores não teria existido o Arquipélago.”

Para escrever O Arquipélago Gulag Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas. Após ter sido expulso da Associação de Escritores de Moscou e m 1974 ele também foi expulso da União Soviética, quando obteve asilo político nos Estados Unidos e foi morar em Vermont. Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, depois que Mikhail Gorbachev lhe restituiu a cidadania e retirou a acusação de traição, o que é bastante sugestivo do enorme apego dele à sua pátria natal.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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O anti-capitalismo e a Esquerda latina

O regime político-econômico que serviu de modelo da Esquerda Latina foi o da União Soviética. No século vinte a Esquerda Latina procurou repetir na América a revolução Bolchevique de 1917, e para esse fim passou a buscar a adesão dos trabalhadores e dos estudantes. Mas o modelo soviético esteve longe de ser o paraíso dos trabalhadores, apesar da sua alcunha de ‘ditadura do proletariado’. Nos primeiros anos que se seguiram à Revolução Bolchevique de Outubro de 1917, a desapropriação das grandes propriedades de terras pelo Estado provocou uma enorme falta de alimentos, o que levou o Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkcom) a obrigar os camponeses a vender seus produtos exclusivamente para o Estado ao invés de no costumeiro mercado. O novo regime eliminou todas as micro iniciativas de negócios prestação de serviços, que passaram a ser vistas como atividades capitalistas.

O Marxismo imputou um sentido pejorativo ao‘capitalismo’ a fim de ajudar a promover a revolução dos trabalhadores. A Esquerda Latina soube tirar proveito disso, mostrando os vícios mais facilmente reconhecíveis do capitalismo como a formação de cartéis e monopólios pelas grandes empresas. Entretanto, o capitalismo é simplesmente um sistema econômico onde o capital está nas mãos das pessoas, ao contrário do sistema econômico do socialismo, onde o capital maior pertence ao Estado. Dessa forma, a atividade capitalista inclui também os negócios médios e pequenos e todos trabalhadores autônomos, que na verdade são são mercadores solitários (sole traders, em inglês) que comercializam produtos ou serviços. Os agricultores, pecuaristas, feirantes, negociantes, vendedores ambulantes, alfaiates, costureiros, sapateiros, doceiros, pipoqueiros, jardineiros, manicures, cabeleireiros, faxineiros e professores particulares também fazem parte do sistema econômico do capitalismo. Nos últimos anos, Cuba tem aberto a sua economia para permitir que as pessoas abram seus pequenos negócios e trabalhem por conta própria. Apesar disso ser um importante passo para a liberalização da economia cubana, o governo de Cuba insiste em preservar o rótulo de ‘socialista’, possivelmente por ser mais condizente com as expectativas da população menos esclarecida.

Mas o colapso soviético não significou o colapso da Esquerda Latina e sua ideologia Marxista. Há apenas duas explicações isso: ignorância e cinismo. Desses dois motivos o pior é a ignorância, pois impede a compreensão da realidade e o exercício da cidadania. Qualquer indivíduo que saiba ler deve procurar ler mais. A educação informal de adultos através da leitura são as melhores armas contra a manipulação dos cínicos, os únicos que têm interesse na preservação da ignorância.

Todos os cidadãos que votam devem procurar entender por si próprios as informações chaves para a compreensão da política e da governança, a fim de entender o funcionamento da ordem econômica e social de um Estados democrático. Essa ordem existe independentemente das pessoas que se encontram no poder. Quem entende isso também entende que não faz sentido por fé em políticos com promessas de milagres, cujos atos de despir um santo para cobrir outro são verdadeiros golpes contra a democracia e a liberdade.


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