Recessões e surtos de socialismo

Recessões e surtos de socialismo

Desde a Grande Depressão que se instalou nos Estados Unidos e no mundo após a Sexta-Feira Negra de novembro de 1929, todas as recessões econômicas provocaram surtos de solicialismo nos países de economia capitalista. A recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos não foi diferente. Uma ação típica do socialismo foi a intervenção governamental para salvar os bancos em dificuldades financeiras. As normas de mercado que regem o capitalismo apontam outro tipo de ação, no caso, deixar que os bancos solucionem eles próprios seus problemas, o que os torna mais resilientes a ameaças futuras similares.

A mesma recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos chegou à Europa e América Latina em 2009, onde também desencadeou surtos de socialismo. Na Europa, os cidadãos dos países cujas economias mais encolheram, como a Grécia, Espanha, França e Itália, continuaram esperando o mesmo nível de assistência social da época favorável, dificultando a implementação de medidas econômicas de prazo mais longo. A recessão econômica na América Latina é possivelmente a mais terrível do mundo. Só quem ganhou com ela foram os partidos de esquerda como o Partido dos Trabalhadores do Brasil, que prometeu manter os programas de assistência social criados durante o boom dos primeiros anos do século XXI.

Em 4 de julho de 2012, Stuart Jeffries escreveu na versão online do jornal de esquerda britânico The Guardian um artigo intitulado ‘Why Marxism is on the rise again’ (Porque o Marxismo está subindo de novo). Jeffries chama a atenção para o fato de que os jovens são os mais interessados no renascer do Marxismo. O apelo socialista não se restringe aos partidos socialistas. O atual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, escolhido em setembro de 2015, é um defensor aberto do socialismo. Corbyn foi citado nesse mesmo ano pelo jornal inglês The Mirror como tendo afirmado que o socialismo ‘é uma maneira óbvia de viver. As pessoas cuidam uns dos outros, todo mundo é cuidado, e todos cuidam de todos. Óbvio não?’ (… ‘is an obvious way of living. You care for each other, you care for everybody, and everybody cares for everyone else. It’s obvious, isn’t it?’)

Os especialistas creem que a economia global se encontra numa encruzilhada que tanto pode levar ao retorno do crescimento quanto a mais recessão. A melhor alternativa prevê um crescimento continuado porém pequeno, pelo menos no tocante aos próximos anos. Entretanto, o motor desse crescimento não é a besta do socialismo e sim a besta do livre mercado.

***Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.

 

 

Anúncios

Sem picadinho, sem ‘newspeak’

Resenha do livro Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda), de Roger Scruton. London, Bloomsbury, 2015.

O que é Esquerda? O que é Direita? O que é Nova Esquerda? Essas são algumas das perguntas que Roger Scruton explora no seu livro Fools, frauds and firebrands (Tolos, fraudes e incendiários, inédito em português). Esse título abrasivo está, sem dúvida, relacionado com o permanente confronto do autor com a Nova Esquerda. Nele, Scruton descreve como os acadêmicos e outros intelectuais da Nova Esquerda se empoderaram, unindo-se contra o inimigo comum – o capitalismo e sua burguesia –, bem como adotando um linguajar idiossincrático próprio, semelhante ao newspeak da fictícia sociedade totalitarista de George Orwell. Contrariamente àquilo que o provocante título possa sugerir, o tratamento de Scruton à Nova Esquerda é mais bondoso do que o tratamento que ele recebeu dos partidários desta, os quais puseram nele o rótulo calunioso de ‘sectarista da direita’. No seu estilo franco, sem picadinho ou newspeak, Scruton disseca o irracionalismo por detrás do ataque da Nova Esquerda a tudo aquilo que torna a sociedade possível – propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo e instituições –, mostrando que tal ataque tem sido feito na crença de que o mesmo vai levar a uma sociedade com absoluta igualdade. Ele também sublinha a injustiça da Nova Esquerda em comparar a sua perfeita sociedade imaginada com a sociedade real.

Qualquer pessoa de fora que esteja familiarizada com o liberalismo britânico ficaria chocada em descobrir que o livro de Scruton, Thinkers of the New Left, publicado em 1985, sua primeira tentativa de perseguir este assunto, foi retirado das livrarias pela editora devido à pressão recebida do establishment acadêmico. Qualquer semelhança disso com os julgamentos de hereges do Antigo Regime deve-se ao fato de que a ideologia da Nova Esquerda gozou um status dogmático parecido. Entretanto, o dogmatismo da Nova Esquerda dissolveu-se três anos depois com a queda do Muro de Berlim, que desencadeou o processo de desintegração da antiga União Soviética. Scruton conecta os dois eventos quando afirma que decidiu reescrever o livro em 1989, momento no qual ‘as pessoas começaram a perceber que nem tudo o que foi dito, pensado ou feito em nome do socialismo foi intelectualmente respeitável ou moralmente certo’.

Num capítulo especial, Scruton examina como a Nova Esquerda desenvolveu a sua ‘consciência revolucionária’ que causou as guerras da cultura da década de 1980. O processo retroage à década de 1960, quando o desaparecimento da real classe dos trabalhadores na Grã-Bretanha e noutras partes do Ocidente criou as condições perfeitas para a Nova Esquerda emergir. Primeiro, os intelectuais procuraram ser reconhecidos como membros honorários da classe dos trabalhadores e, em seguida, começaram a fazer uma revolução em nome desta, a ser travada no mundo dos livros. Eis como Scruton a descreve:

Pela primeira vez era possível observar de perto a ‘consciência revolucionária’, sem incorrer em nenhum risco de violência, tirando a violência das palavras. Em particular, era possível observar a rapidez e a destreza com que a mensagem da esquerda era envolvida em dogma, quão energeticamente os novos revolucionários levavam adiante o negócio de inventar perguntas falaciosas, polêmicas inúteis e pedantismos arcanos, a fim de desviar quaisquer interrogações intelectuais para longe das perguntas fundamentais, cuja necessidade emocional implorava um favorecimento, incluindo a questão da própria revolução: o que é exatamente uma revolução e para que serve?

Ao descrever o surgimento da Nova Esquerda na Grã-Bretanha, Scruton reflete sobre as idiossincrasias da sociedade britânica que facilitaram o processo, tais como a tradição britânica de tratar os historiadores como líderes no mundo das ideias e a sua tradição ímpar de crítica social e literária. Ele lembra mudanças nas instituições de ensino superior britânicas tão cedo quanto 1964, as quais, em sua opinião, marcaram a transição da Velha Esquerda para a Nova Esquerda. Scruton também descreve as opiniões dos socialistas britânicos mais influentes da época, tais como escritor e crítico galês Raymond Williams (1921-88), e os historiadores socialistas que forneceram versões socialistas da Revolução Industrial. Essas mudanças marcaram o início da revolução intelectual pelo controle da cultura. Na Grã-Bretanha, tais mudanças concentraram-se nos departamentos de humanidades, nos quais o antigo currículo, baseado nos padrões objetivos do Iluminismo, foi aos poucos substituído por um currículo pós-moderno guiado pelo consenso.

Scruton também descreve os primeiros dias da Nova Esquerda em outros países. Na Alemanha, os principais condutores da Nova Esquerda foram os professores e pensadores afiliados ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. A Escola de Frankfurt, como é melhor conhecida, foi a pioneira na ideia do ‘humanismo marxista’. Embora tivesse sido fechada em 1933 pelos nazistas, apenas três anos depois de ter sido fundada por Max Horkeheimer (1895-1973), ela sobreviveu através da cooperação com universidades nos Estados Unidos, voltando a funcionar em Frankfurt em 1951. Além de Horkeheimer, a Escola de Frankfurt incluiu muitos dos grandes nomes da Nova Esquerda como Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-80) e Theodor Adorno (1903-69). Scruton critica o fato de os membros da Escola de Frankfurt que tiveram a oportunidade de continuar as suas carreiras no ensino superior nos Estados Unidos não terem retribuído com a mesma moeda. Horkeheimer e Adorno deslancharam um ataque sem descanso ao Iluminismo, proclamando que o mesmo era um produto do raciocínio burguês, enquanto que Marcuse denunciou a ‘repressiva tolerância’ dos Estados Unidos e ‘o universo totalitário do racionalismo tecnológico’. Jürgen Habermas (1929-), o representante ainda vivo da Frankfurt School, é exonerado de culpa por ter sobrepujado a sua agenda absurda.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda nos Estados Unidos ressalta o pragmatismo de Richard Rorty (1931-2007) e de Edward Said (1935-2003), encapsulados por um conjunto de ideias relativistas segundo as quais ‘não importam as velhas ideias de objetividade e verdade universal, pois tudo o que importa é aquilo que foi concordado.’ Segundo Scruton, tanto Rorty quanto Said puseram dúvidas na mente americana e tentaram subtrair da herança cultural americana a crença em sua própria legitimidade. Rorty introduziu a ideia de um currículo novo e pós-moderno, para substituir o currículo antigo baseado no Iluminismo. No caso de Said, Scruton afirma que ele menosprezou e envenenou a maneira como o Ocidente retratou o Oriente, contudo nunca considerou a maneira como o Oriente retratou o Ocidente. Os ataques de Said incluíram não apenas os especialistas vivos, mas todo o saber ocidental, o que Scruton apresenta como uma evidência da miopia de Said. Entretanto, o que aconteceu no final das contas foi que o livro seminal de Edward Said, Orientalism, foi posteriormente exposto como sendo resultante de um estudo mal conduzido, quando Robert Irwing expôs seus erros, descuidos e mentiras descaradas. Scruton completa a sua crítica a Rorty e Said, mostrando os ótimos exemplos de Estudos Orientais que vieram do Iluminismo: a tradução francesa do livro As Mil e Uma Noites, feita por Antoine Galland em 1717, a tradução alemã da coleção de poemas persas West-Östlicher Diwan, feita por Johann Goethe, e a tradução inglesa do livro Rubaiyat, de Omar Khayan, por Edward FitzGerald. Scruton complementa seus exemplos, citando a dedicação de sir William Jones para preservar a poesia persa e árabe e a elaboração do seu estudo pioneiro sobre as línguas indianas.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda inclui a construção de sua própria marca, diferente da marca da Velha Esquerda. Ele também aponta duas coisas importantes que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda: o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos de idade. Houve motivos que fizeram com que escolhessem Gramsci em vez de outro qualquer. O primeiro foi a ideia da ‘práxis revolucionária’ de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia em dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

A existência de um espectro político, no qual a extremidade ‘Esquerda’ é o presumido domínio de todas as coisas ‘intelectualmente respeitáveis ou moralmente corretas’ e a extremidade ‘Direita’ o presumido domínio do oposto, é um disparate total para Scruton. Numa tentativa de jogar alguma luz sobre o tópico, Scruton mostra como os termos ‘Esquerda’ e ‘Direita’ se originaram, nos primeiros dias da França pós-revolucionária. Quando a possibilidade de transformar a França numa Monarquia Constitucional estava sendo considerada, os Estados Gerais, uma entidade representativa do clero (Primeiro Estado), da nobreza (Segundo Estado) e do povo comum (Terceiro Estado), que não se reunia desde 1614, foi reconvocada. Na Assembleia de 1789, os representantes do povo sentaram-se à esquerda do Rei Luís XVI, enquanto que os demais sentaram-se à sua direita. Esse evento marcou o início da associação da Esquerda com o povo e da Direita com a elite. Desde então, muitos truques foram empregados para esticar o significado da Esquerda para incluir anarquistas, marxistas dogmáticos, niilistas e liberais do estilo americano, e, para juntar, na Direita, fascistas, nazistas e liberais econômicos. Scruton fecha o seu argumento, relevando o denominador comum que une o comunismo e o fascismo:

O comunismo, como o fascismo, envolvia a tentativa de criar um movimento popular de massa e um Estado que fossem unidos sob um partido único no qual há uma coesão total em torno de um objetivo comum. Envolvia a eliminação da oposição, por qualquer meio, e a substituição da disputa ordenada entre partidos pela ‘discussão’ clandestina dentro de uma única elite governante. Envolvia assumir – ‘em nome do povo’ – o controle dos meios de comunicação e educação, e incutir uma base de comando através da economia.

Uma linguagem especial e idiossincrática é a outra característica que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda. Scruton a descreve como “um desdenhoso linguajar marxista criado para denunciar, exortar e condenar”. Ele também busca mostrar as similaridades entre o linguajar da Nova Esquerda e o newspeak, a língua oficial do país Oceania, no livro de Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Scruton descreve o newspeak como “uma nova língua fortificada, criada com o propósito de criar uma ‘política de verdade’ a ser empregada no lugar da verdade em si.” Esse linguajar, de acordo com Scruton, inclui o efeito maniqueísta em palavras, a fim de enganar as pessoas, fazendo com que pensem que só há duas alternativas, como na manipulação do significado de certas palavras como ‘capitalismo’ e ‘burguesia’. Ao apresentar a palavra ‘capitalismo’ como um sinônimo de exploração, a Nova Esquerda arranja uma desculpa para condenar economias livres. Ao apresentar a palavra ‘burguesia’ como ‘uma classe hegemônica de pessoas com propriedade que controlam os meios de produção e, por assim fazer, exploram a classe dos trabalhadores ou proletariado’, a Nova Esquerda justifica a sua chamada para a guerra entre classes. Scruton admite que muitas das coisas erradas da sociedade britânica identificadas pela Nova Esquerda são verdade, mas ele objeta à forma através da qual a Nova Esquerda descreve tais erros, arranjando as acusações de uma maneira tal que não deixa nenhum espaço para a defesa, quer pelas pessoas apontadas quer pelo sistema no qual tais erros estão inseridos.

O ponto central que Scruton acentua em Fools, frauds and firebrands é que a Nova Esquerda não está comparando coisa com coisa quando justapõe o seu projeto contra a Civilização Ocidental. A Grã-Bretanha pode ter muitas falhas, mas é uma sociedade real. Não é o caso do ‘Reino dos Fins’ (Kingdom of Ends), termo que Scruton usa para descrever a sociedade de perfeita igualdade imaginada pela Nova Esquerda.

Ele termina o seu livro defendendo a sua posição de que a Grã-Bretanha deve permanecer como é e apontando que quaisquer melhorias devem vir de dentro. Melhorias devem ser feitas através do aperfeiçoamento das sociedades civis, das instituições e da personalidade. Por sociedades civis, Scruton quer dizer os pequenos pelotões que existem em todo o país, tais como bandas de música, grupos de estudos, corais, clubes de críquetes, danças, clubes de férias etc. Como exemplos de instituições, Scruton cita organizações profissionais, tais como os ‘Inns of Court’, quatro organizações da profissão do direito na Inglaterra, embora essas sejam também sociedades civis. Por personalidade, Scruton quer dizer a agência e a responsabilização dos indivíduos e das instituições que os acolhem. A despeito de sua antipatia pela terminologia do espectro político, Scruton descreve o que a Direita representa:

A Direita baseia a sua defesa na representação e na lei. Advoga instituições autônomas que medeiam entre o Estado e o cidadão, e uma sociedade civil que cresce de baixo para cima sem pedir permissão aos seus governantes. Enxerga o governo da mesma forma que todas as questões responsabilizáveis: não como uma coisa, mas como uma pessoa. Tal governo responde a outras pessoas: ao cidadão individual, às corporações e a outros governos. É também responsabilizável perante a lei. Tem direitos contra os cidadãos individuais, mas também deveres para com os mesmos: é tutor e companheiro da sociedade civil, o objeto das nossas piadas e o ocasional recebedor da nossa irritação. Situa-se perante nós numa relação humana, e essa relação é mantida e vindicada pela lei, perante a qual apresenta-se como uma pessoa dentre outras, em pé de igualdade com aqueles que estão também sujeitos à sua soberania.

Tal Estado tem como acomodar e barganhar. Reconhece que é obrigado a respeitar as pessoas não apenas como um meio mas como fim por si próprias. Tenta não liquidar a oposição, mas acomodá-la, e os socialistas têm também um papel nesse processo, desde que reconheçam que nenhuma mudança, nem mesmo as mudanças em suas direções preferidas, é ou deve ser irreversível.

Muitas das ideias do livro Fools, frauds and Firebrands de Scruton serão cuidadosamente consideradas pelos seus admiradores do Leste Europeu e da América Latina, muito embora ele o tenha escrito pensando na Grã-Bretanha. Scruton deseja preservar a Grã-Bretanha, porque ele a ama e porque acredita que merece ser preservada. Ele também acha que, caso a ideologia da Nova Esquerda se torne realidade, o resultado será a escravidão. A chamada de Scruton para preservar a sociedade não exclui microajustes. Entretanto, antes de se decidir quais ajustes são necessários, as pessoas precisam compreender os dois componentes básicos da sociedade: o Estado e a sociedade civil. Na visão de Scruton, a sociedade civil é que deve aplicar mudanças ao Estado e não o contrário. Assim sendo, todas as mudanças devem vir de baixo para cima, a partir de mudanças dentro das pessoas. Somos nós que precisamos mudar para uma vida que leve ao autoconhecimento, o qual por sua vez nos permitirá reconhecer que a nossa felicidade depende do desejo das coisas certas, ao invés das coisas que capturam a nossa atenção ou que inspiram a nossa luxúria. Tais sugestões ressonam como ideias frequentemente associadas com a Esquerda e, por conseguinte, ilustram o contrassenso do espectro político.

Scruton não acha que tudo o que os pensadores da Nova Esquerda escreveram está errado. Em sua avaliação de Gramsci, por exemplo, embora Scruton tivesse qualificado a obra deste como uma ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta, ele reconheceu nele uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

Fools, frauds and firebrands de Roger Scruton é produto do embate de toda uma vida do autor contra a Nova Esquerda e a nova ordem de coisas que a Nova Direita buscou introduzir na Grã-Bretanha. Scruton viveu consideráveis tormentas em resultado desse embate, e isso pode explicar o veio de pessimismo que ele revela no final desse livro, sob a forma de perguntas deixadas sem respostas. Se os professores das universidades mais prestigiadas do Ocidente podem se enganar dessa forma, que esperança pode haver para o restante da humanidade? Se a espécie humana possui uma carência religiosa intrínseca que nenhum pensamento racional consegue vencer, por acaso isso não torna todos os argumentos sem significado? Se as pessoas são muito mais predispostas ao abstrato do que ao concreto, qual é o ponto em defender aquilo que é meramente real? Essas perguntas servem como alimento de reflexão para todos aqueles que amam o seu país e desejam preservá-lo. Talvez fosse isso o que Scruton tinha em mente quando as formulou.

                                                                                                                                                            

Jo Pires-O’Brien edita a revista digital  PortVitoria, sobre a cultura ibérica e sua diáspora no mundo.O seu e-book O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas atemporais e contemporâneos, está disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo.

Agradecimento: Débora Finamore, revisora

A massa e a democracia

O fato da democracia ser o governo do povo leva uma boa parte das pessoas a crer que a massa e a democracia andam de mãos dadas. Entretanto, a massa nada mais é do que uma facção poderosa da população com um tremendo potencial de abusar minorias. O abuso de um único indivíduo é uma violação do princípio de que a democracia não é um fim mas um meio para a liberdade. Nesse papel a democracia apoia-se no Estado de Direito, a estrutura legal garantidora dos direitos, que evolveu a partir do Iluminismo, e que pressupõe a ausência de privilégios. Portanto, o Estado de Direito não inclui todas as leis de um determinado Estado mas apenas aquelas que concernem a todos.

O crescimento da população do mundo veio acompanhado do crescimento das massas, um dos mais sérios problemas da atualidade. Dois pensadores e críticos sociais que estudaram o fenômeno das massas a partir da segunda década do século vinte foram o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94) e o espanhol José de Ortega y Gasset (1883-1955). Canetti procurou entender a psicologia do comportamento humano formador da massa, e  Ortega y Gasset concentrou-se mais nos efeitos deletérios que as massas podem causar nas democracias.

No seu livro A rebelião das massas, publicado em 1929, Ortega retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Para Ortega até a virada do século XX a estratificação social era ligada às classes econômicas, mas a partir de então surgiu uma nova extratificação social onde a sociedade passou a ser dividida entre massas e minorias. Ortega notou ainda que as massas caracterizavam-se pela dominância social, muitas vezes com o uso da força bruta contra os indivíduos não participantes. A nova estratificação social formada pelas massas e pela minoria resultava invariavelmente numa batalha entre esses dois estratos. Ortega notou que a democracia da década de vinte na Espanha era diferente da democracia do Estado de Direito pois as massas impunham as suas aspirações e desejos agindo diretamente, isto é, fora do Estado de Direito. Tal hegemonia das massas não poderia caracterizar a democracia saudável e sim a democracia doente, que ele designou de hiperdemocracia.

Cannetti também impressionou-se com o fenômeno das massas ocorrido no início do século vinte, mas as suas observações se estenderam por diversas décadas. O seu livro Masse und Macht foi publicado em 1960, sendo que a tradução inglesa saiu pouco depois, em 1962. A versão em português, intitulada Massa e poder, foi publicada em 1983 pela Editora UnB e em 1995 pela Companhia das Letras. O que é interessante em Canetti é o modo como ele busca inspiração na química para explicar fenômenos sociais. Canetti reconhece dois tipos de massas humanas, as fechadas e as abertas, caracterizadas pelo baixo e alto nível de interação com o ambiente, respectivamente. Enquanto que as massas fechadas são necessárias para o equilíbrio social, as massas abertas são sintomáticas de um desequilíbrio. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha derrotada na Primeira Guerra Mundial uma série de punições incluindo a proibição da formação de um exército. Tal proibição, segundo Canetti, privou os alemães da sua massa fechada mais essencial, possibilitando a ascensão do partido nazista. Nessa conjuntura, Hitler mostrou aos alemães que a proibição do exército era uma afronta que equivalia à proibição da fé religiosa. Para Canetti, quando uma massa fechada é dissolvida, ela se transforma numa massa aberta com as mesmas características, mas bem maior.

A ameaça das massas no século XXI é ainda maior do que foi no século XX. A solução para o combate dessa ameaça é a educação, incluindo a educação acerca do verdadeiro significado da democracia. Massa não é democracia e democracia não é a multiplicação de opiniões ignorantes. Alexis de Tocqueville reconheceu isso há quase duzentos anos atrás, quando escreveu: “A tirania da maioria não requer conhecimentos, boa educação, deliberações razoáveis, autoridade e experiência e nenhuma das coisas que o populista chama de ‘elitismo’“.

O museu do Comunismo Mundial: Link: http://www.thegulag.org/

Link: http://www.thegulag.org/

O link acima disponibiliza o portal do Museu do Comunismo Mundial – GLOBAL MUSEUM ON COMMUNISM.

O portal mostra exibições principais, como a Exibição Gulag, sobre a extensa rede de prisões descritas pelo escritor soviético Alexander Solzhenitsyn. Para escrever O Arquipélago Gulag, Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas.

O museu mostra também exibições especiais e nacionais.
Exibições Especiais:
The War on Religion
Post-Communist Economics
The Great Terror at 40
Communism in China
Chinese Persecution of Uyghurs
The Afghan People vs Communism
You Won the Cold War

Exibições Nacionais:
Bulgaria
China
Cuba – http://cuba.globalmuseumoncommunism.org/
Czechoslovakia
Estonia
Germany
Hungary
Latvia
Lithuania
North Korea [coming soon]
Poland
Romania
Soviet Union
Tibet
Ukraine
Vietmam
Coloquei o link de Cuba pois é o único país comunista das Américas.

O mapa do comunismo
O museu virtual mostra um mapa mundial que mostra os países que viveram regimes comunistas. Embora Cuba seja o único país que consta no mapa das Américas, o comunismo agiu no nosso continente através de uma extensa rede de correlegionários da Esquerda. Quem sabe um dia saberemos mais sobre os efeitos dessa rede.

Guerrilhas no Terceiro Mundo: as zonas quentes da Guerra Fria

Autor: Simon Heffer
Resenha do livro Small wars, far away places: the genesis of the Modern World – 1945-65 de Michael Burleigh. Macmillian. 588pp. £25. ISBN 978-0-230-75232-0

Pelas suas características os vinte anos após o final da Segunda Guerra Mundial foram tão aterrorizantes quanto o próprio conflito. O período representou uma ameaça equivalente à ordem mundial: a derrota do fascismo foi seguida da ascensão do comunismo. O período viu também uma mudança do poder global, da Europa, onde ele historicamente residia, para a América. Até os anos sessenta os americanos estabeleceram uma hegemonia rivalizada apenas pela União Soviética – que ainda estava a uma boa distância atrás. A Grã-Bretanha, o grande poder da era pré-guerra, estava arruinada mas compreendia apenas gradualmente a sua impotência. Dentro de poucos meses a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria começou. O monopólio da América sobre a contenda nuclear durou pouco tempo, pois em 1949 os espiões deram aos soviéticos os segredos necessários para a confecção de sua própria bomba. Com as nações da Europa determinadas a não voltar a fazer guerra umas com as outras, a nova superpotência e o seu inimigo procuraram lutar alternativamente através de agentes no Oriente, na África e no Caribe. Essas são as histórias, dentre outras, que Michael Burleigh relata nesta magnífica, bem-informada, penetrante e muitas vezes espirituosa narrativa dos conflitos ocorridos entre 1945 e 1965.

Burleigh não tenta abarcar o mundo inteiro, mas escolhe os episódios onde tem um interesse especial, que ilustram o tema primordial desta obra: como a América se transformou, na altura do término do mandato presidencial de Eisenhower, naquilo que em 1066 and All That [Título de uma história satírica da Inglaterra publicada na década de 1930 e serializada na revista Punch! N.T.] ficou conhecido como ‘Top Nation’ (a Nação Manda-Chuva). Isso foi a culminação da política de Woodrow Wilson que sustentou a abordagem norte-americana adotada na conferência de Versalhes de 1919: a destruição do poder imperial europeu. Os Habsburgos, os Hohenzollernes e os Ottomanos haviam todos desaparecido; a questão não-resolvida era o Império Britânico, que provou ser insustentável após 1945. Conforme Burleigh registra, a partir do momento em que entraram na Segunda Guerra Mundial em Dezembro de 1941, os americanos deixaram bastante claro que os seus objetivos não incluíam a salvação nem a prorrogação do Império Britânico. E, mesmo antes da independência da Índia em 1947, a América já estava se portando como se não estivesse disposta a tolerar as dissensões do mundo, estendendo o seu alcance tanto aos seus aliados quanto aos seus clientes. Isso ocorreu em parte porque a América se viu como a principal barreira natural contra a disseminação do comunismo, e em parte porque havia se acostumado, desde a época de Wilson, a aspirar o posto de manda-chuva. A arrogância que esta mentalidade criou foi muito bem ilustrada por Burleigh, quando a América interveio nas Filipinas, em Cuba e no Vietnam com resultados cada vez piores.

A abdicação britânica do poder é mostrada como um resultado direto de estar falida. Antes de 1947, o país já havia indicado ao seu principal aliado que já não dava conta de exercer o papel que era esperado dele no Oriente Médio. O país já havia estado ansioso para sair da Palestina o mais depressa possível, mas tal lição parece que foi esquecida pelo governo Conservador dos anos cinquenta, que retornou à região com desastrosas consequências. Burleigh muito corretamente descreve o fiasco de Suez de novembro de 1956 como o momento em que a realidade tomou conta da Grã-Bretanha e os seus dirigentes finalmente entenderam que seu país havia se tornado um jogador de menor importância. As suas tentativas de combater a insurgência malaia conteve a maré por algum tempo, mas logo os agricultores brancos foram escorraçados para costas mais seguras. A manutenção das colônias africanas só foi possível com base na brutalidade racista, como o campo Hola no Quênia, onde em 1959 os guardas espancaram até a morte os Mau Mau detidos, fato que antecedeu em alguns meses o discurso dos ‘ventos de mudança’ de Macmillan.

A Grã-Bretanha não foi, entretanto, o único império a se desmantelar durante esses anos. A mesma coisa ocorreu com a França, primeiramente na Indochina, ao enfrentar comunistas que tinham o apoio chinês, e depois na Argélia contra os nacionalistas. Apenas de Gaulle, o último homem que entregou um centímetro quadrado do território francês, enxergou a impossibilidade de manter a presença do seu país no Norte da África. Através de ambiguidade, duplicidade e da patente traição dos seus princípios – e os dos Harkis, que haviam servido lealmente a França – ele livrou o seu país de um banho de sangue. A Argélia, como tantas das velhas colônias britânicas, continuou a se brutalizar durante décadas, mas pelo menos a França podia lavar as suas mãos sobre isso. Mais ao sul na África, os belgas e os portugueses eram igualmente brutais e ineptos, especialmente na sua propensão para permitir que a influência soviética se espalhasse por toda a África através de organizações que promoviam guerrilhas Marxistas, frequentemente com resultados pouco esclarecedores.

A América beneficiou-se desta hemorragia do poder europeu ainda mais do que a União Soviética. Embora o seu relacionamento com os países europeus individuais não fosse exatamente do tipo senhor e servo – pelo menos até os dias de Tony Blair, o crescimento do poderio americano, quando as últimas colônias europeias estavam sendo desativadas, lembrou a todos os interessados quem eram os verdadeiros senhores. Junto com esta sensibilidade veio uma infeliz arrogância. Burleigh é particularmente contundente nas suas descrições comparativas de Eisenhower e Kennedy, o seu sucessor: o primeiro, um homem de enorme experiência de comando e sem nenhum desejo de aparecer, e o segundo, um constructo do seu pavoroso pai, cuja entrada na política foi comprada com o dinheiro da família. Eisenhower é mostrado como um homem que moveu-se devagar e com sabedoria durante o período em que a América construía o seu poder nos anos cinquenta. Ele nunca perdeu a perspicácia de soldado sobre quais as guerras que poderiam ser ganhas, e portanto, enfrentadas com segurança. Ele também tinha pragmatismo para entender que a Grã-Bretanha estava posando (com Churchill como ‘posador’-em-chefe) nos anos cinquenta, apresentando-se como um poder mundial mesmo quando tal ilusão já se havia desvanecido, afirmando que a Grã-Bretanha merecia um lugar ‘especial’ nas relações internacionais com a América. Ike tinha uma atitude não-sentimental e apropriadamente rejeitou a noção, quase com um tom de pena.

Burleigh é um escritor bom e conciso, mas em nenhuma outra parte deste livro ele se excede mais do que na sua resumida descrição de Kennedy, como um ralo da moralidade, incapaz de levar qualquer coisa a sério afora a mulher que ele estivesse perseguindo na ocasião. Juntamente com o seu desagradável irmão Bobby, assassinado cinco anos depois dele, Kennedy meteu os pés pelas mãos no fiasco da Baía dos Porcos e só saiu intacto da Crise dos Mísseis Cubanos devido ao fortuito acidente da incompetência de Khrushchev e ao difícil relacionamento que o líder soviético tinha com Fidel Castro. Porém, foi Lyndon Johnson quem perpetrou a pior mancada da arrogância americana, com o seu pesado compromisso em termos de envio de tropas ao Vietnam. Harry Truman, que ainda estava vivo na ocasião, poderia ter-lhe advertido enfaticamente sobre as dores de cabeça que a Guerra da Coréia lhe haviam dado, e o alívio depois que a América conseguiu se safar. Mas Johnson acreditava na divina missão da América de lutar contra a ameaça comunista, e nunca imaginou que o seu país sofreria a humilhação que os franceses amargaram na década anterior, com a chocante derrota em Dien Bien Phu em 1954. O excepcional livro de Michael Burleigh termina antes do Vietnam virar o cemitério moral e literal da América: isso é no mínimo um bom motivo para esperar um volume sequente para ler a sua interpretação sobre como tal estória se desenrolou.
__________________________________________
Simon Heffer é um jornalista, escritor e editor britânico. O seu próximo livro High Minds, sobre a história intelectual e social da Grã-Bretanha do meio do século 19 será publicado pela editora Random House no final deste ano.

Tradução: J Pires-O’Brien; Revisão: C Pires

Esta resenha saiu em inglês na revista Literary Review, edição de Maio de 2013. Com autorização desta, foi republicado em português na revista PortVitoria:
http://www.portvitoria.com/

Citações de Alexander Solzhenitsyn

Citações de Alexander Solzhenitsyn no livro O Arquipelago Gulag: 1918-1956
Versão na língua inglesa. Collins/Harvill Press and Fontana,1974.
Traduzido para o inglês por Thomas P. Whitney

“Eu dedico este livro a todos aqueles que não viveram para contar. Que eles por favor me perdoem por eu não ter visto tudo nem lembrado tudo, por não ter adivinhado tudo aquilo.”

“As prisões rolaram pelas ruas e prédios de apartamentos como uma epidemia. Assim como as pessoas transmitem uma infecção contagiosa umas às outras sem saber, pelas maneiras mais inocentes como um aperto de mão, uma expiração, um encontro casual na rua, assim também, elas passaram a infecção das prisões inevitáveis através de um um aperto de mão, uma respiração, um encontro casual na rua. Pois se você estiver destinado a amanhã confessar que organizou um grupo clandestino para envenenar o reservatório de água da cidade, e hoje eu apertei a suas mão na rua, isso implica que, eu também estou perdido.” (p. 75)

“Seja dono apenas aquilo que você possa carregar consigo: conheça línguas, conheça países, conheça pessoas. Deixe que a sua memória seja a sua mala. Use a sua memória! Ela é a semente amarga que algum dia poderá germinar e crescer.” (p. 516)

“Extensões delgadas de vidas humanas se estendem de uma ilha para outra no Arquipélago. Elas se enroscam, se tocam umas nas outras durante uma única noite em algum vagão semi-escuro que faz clique e claque assim como este e depois se separam para sempre. Coloque o ouvido no brando ruído dele e no clique claque debaixo do vagão. Afinal de contas, é a roda da vida que está lá fora cliqueando e claqueando.” (p. 517)

“A natureza humana, se é que ela muda, não muda mais rápido do que a camada geológica da Terra. E as mesmas sensações de curiosidade e prazer de avaliação que os mercadores de escravos sentiam nos mercados de escravas de vinte e cinco séculos atrás, eram sentidas pelos chefões do Gulag lotados na Prisão Usman em 1947, quando eles, duas dúzias de homens trajando o uniforme da MVD, se sentaram ao redor de diversas mesas cobertas por toalhas (uma expressão da própria importância, caso contrário poderia parecer estranho), e todas as prisioneiras eram obrigadas a se despir num cubículo ao lado e a caminhar descalças e nuas em frente a eles, virar, parar, e responder perguntas. ‘Abaixe as mãos,’ eles ordenavam àquelas que adotavam a pose defensiva de uma escultura clássica. (Afinal de contas, esses oficiais estavam muito seriamente selecionando parceiras de cama para si próprios e para os seus colegas).” (p. 562)

“E como você pode entregá-la [a verdade] a eles? Por uma inspiração? Por uma visão? Um sonho? Irmãos! Gente! Por que a vida lhes foi dada? Na calada funda e surda da meia-noite, as portas das celas da morte são abertas – e pessoas de boa alma são levadas para fora para serem fuziladas. Em todas as estradas de ferro do país, neste minuto, agora mesmo, pessoas que acabam de ser alimentadas com arenques salgados lambem os lábios secos com línguas amargas. Elas sonham com a felicidade do esticar das pernas e o alívio que sentem depois de ir ao banheiro. Em Orotukan, o solo só descongela durante o verão e apenas por três pés – e só então eles conseguem enterrar os ossos daqueles que morreram durante o inverno.” (p. 591)

Uma das verdades que você aprende na prisão é que o mundo é pequeno, muito pequeno mesmo. É verdade, o Arquipélago Gulag, embora se estendesse por toda a União Soviética, teve muito menos habitantes que o total da União Soviética. Quantos havia de fato no Arquipélago não se pode afirmar ao certo. Podemos presumir que, em qualquer momento, não havia mais do que doze milhões nos campos (pois se alguns haviam partido para debaixo da terra, a Máquina continuava a trazer substitutos). E não mais que a metade deles eram políticos. Seis milhões? Bem, aquilo era um pequeno país, uma Suíça ou uma Grécia, onde muitas pessoas se conhecem. E é bem natural que quando você chegasse em uma cela qualquer de uma prisão qualquer, e escutasse e conversasse, você certamente descobriria que tinha conhecidos em comum com alguns dos seus companheiros de cela. (p. 595-596)

…Eu era um Marxista… /…Mas o meu primeiro ano como prisioneiro deixou as suas marcas dentro de mim – precisamente, quando foi que isso aconteceu? Eu não percebi: houve tantos eventos novos, visões e significados que eu já não podia mais afirmar: ‘Eles não existem! Isso é uma mentira dos burgueses!’ E agora eu tive que admitir: ‘Sim, existem’. E precisamente naquela altura toda a minha linha de raciocínio começou a enfraquecer, e assim, eles podiam vencer-me nas discussões sem o menor esforço. (p. 602)

Tradução do inglês: JPO

Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

“No coração de todas as pessoas há uma batalha constante entre o bem e o mal” A Solzhenitsyn

Apenas recentemente eu tive a oportunidade de ler O Arquipélago Gulag, o famoso livro de Alexander Solzhenitsyn sobre os ‘gulags’ da União Soviética, campos e colônias de trabalho forçado por onde passaram cerca de 14 milhões de pessoas, detidas tanto por crimes ordinários e pequenas infrações quanto por motivos políticos. Embora Solzhenitsyn tivesse usado o termo ‘gulag’ nesse sentido, o termo ‘Gulag’ é um acrônimo para Alta Administração dos Campos e Colônias de Trabalho Corretivo do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (NKVD), a agência do governo soviético encarregada dos campos de trabalho forçado, criada oficialmente em 1930 e extinta em 13 de Janeiro de 1960. Escrito entre 1958 e 1968, O Arquipélago Gulag é um registro da arbitrariedade e da violência do regime implantado em 1917 na União Soviética. Solzhenitsyn mostra que já existiam campos e colônias de trabalho forçado antes de 1930 e que Lenin também havia cometido o mesmo tipo de violência que Stalin, embora numa escala menor.

Alexander Solzhenitsyn nasceu em Kislovodsky, no sudoeste da Rússia e perto da fronteira com a Georgia, em 11 de dezembro de 1918, tendo estudado matemática na Universidade de Rostov. Durante a Segunda Guerra Mundial Solzhenitsyn serviu no Exército Vermelho e chegou à categoria de capitão de artilharia. Apesar de ter sido condecorado por bravura, em 1945 ele foi preso e condenado por ter criticado Joseph Stalin numa carta a um amigo, quando foi mandado para um campo de trabalho forçado no Cazaquistão.

O primeiro livro de Solzhenitsyn foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, cujo cenário era um campo de trabalho forçado soviético, foi publicado em 1962, durante o governo de Khrushev. Entretanto, o livro foi posteriormente banido depois da queda de Khrushev em outubro de 1964. Os próximos dois livros de Solzhenitsyn, The First Circle (O Primeiro Círculo) (1968) e Cancer Ward (A Enfermaria do Câncer) (1968) também foram banidos. Em 1970, Solzhenitsyn ganhou o Premio Nobel de Literatura mas o governo soviético não lhe deu permissão para ir a Estocolmo para recebê-lo. O seu próximo livro foi o romance Agosto de 1914, sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado em 1971 fora da União Soviética. Em 1973 Solzhenitsyn publicou O Arquipélago Gulag, fora da União Soviética, motivo pelo qual ele foi acusado de traição e deportado. Já nos Estados Unidos, Solzhenitsyn escreveu Lenin in Zurich (1975), The Oak and the Calf (1980) e The Mortal Danger (1983). Após sua morte em 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade, Solzhenitsyn teve um funeral com honras de Estado e foi enterrado no cemitério de Donskoy em Moscou.

Depois que Nikita Khruschev denunciou as arbitrariedades de Stalin inicialmente no 20º Congresso do Partido reunido em fevereiro de 1956, e depois no 22º Congresso em outubro de 1961, a imprensa começou a divulgar o assunto. Durante o seu governo Khrushev, que durou até outubro de 1964, Solzhenitsyn e outros autores críticos de Stalin conseguiram publicar seus livros na União Soviética. Entretanto, Solzhenitsyn achava que as informações que haviam sido disseminadas representavam apenas uma verdade parcial e que não bastavam para desagravar as pessoas que perdido suas liberdades e suas vidas nos gulags. Depois da substituição de Khruschev por Leonid Brezhnev, houve um retrocesso na liberdade de imprensa, causada pelo receio das consequências de um confronto entre os que desejavam reabilitar a imagem histórica de Stalin e os que desejavam colocá-lo no banco dos réus.

Solzhenitsyn enfrentou uma enorme pressão para não desenterrar o passado, inclusive por parte da Associação de Escritores de Moscou. Entretanto, ele insistiu na importância de trazer a verdade à tona e atribui a maldade dos homens à ideologia, como mostra o trecho abaixo retirado de O Arquipélago Gulag:

“Ideologia é aquilo que dá ao malefício a justificativa tão procurada e ao malfeitor a determinação e a sustentação necessárias. É esta a teoria social que ajuda a fazer com que os seus atos pareçam bons ao invés de maus, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros, de forma que ele não ouvirá repreensões e maldições mas receberá elogios e honrarias. Foi assim que os agentes da Inquisição fortificaram as suas vontades: invocando a Cristianismo; os conquistadores de terras estrangeiras, louvando a grandeza da Pátria Mãe; os colonizadores, a civilização; os Nazistas, a raça; e os Jacobinos (do início e do fim), a igualdade, a irmandade, e a felicidade das gerações futuras. Foi graças à ideologia que o século vinte foi fadado a experimentar malefícios numa escala calculada em milhões. Isso não pode ser negado, ignorado ou suprimido. Como é então que nós nos atrevemos a insistir que os malfeitores não existem? E quem foi que destruiu esses milhões de pessoas? Sem malfeitores não teria existido o Arquipélago.”

Para escrever O Arquipélago Gulag Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas. Após ter sido expulso da Associação de Escritores de Moscou e m 1974 ele também foi expulso da União Soviética, quando obteve asilo político nos Estados Unidos e foi morar em Vermont. Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, depois que Mikhail Gorbachev lhe restituiu a cidadania e retirou a acusação de traição, o que é bastante sugestivo do enorme apego dele à sua pátria natal.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.