A que veio o pós-modernismo

Jo Pires-O’Brien

O pós-modernismo é definido como sendo “um estilo ou conceito surgido no século XX, nas artes, na arquitetura e no criticismo, representado pela rejeição às noções existentes de arte e à modernidade em geral, e centrado numa desconfiança generalizada das grandes teorias e ideologias” (1). O pós-modernismo veio em duas levas de focos diferentes. A primeira, no final da Segunda Guerra Mundial, manifestou-se na reação contra os critérios estéticos da arte, da arquitetura e da literatura. A segunda, no último quarto do século XX, manifestou-se em torno de uma escola de ‘pensamento’ que proclamava “não existem verdades, mas apenas interpretações”.

O pós-modernismo que veio na primeira leva atacou a conceituação estética aplicada à arte e à arquitetura. É difícil avaliar possíveis danos à sociedade causados pelo pós-modernismo que veio na primeira leva. Afinal de contas, que importa à sociedade que alguém resolva construir a sua casa em estilo pasticho? Ou que uma galeria de arte resolva exibir uma cama ‘dormida’ e com lençóis sujos como se fosse uma peça de arte? (2) Afinal de contas, gosto é gosto. Todavia, os danos à sociedade, causados pelo pós-modernismo da segunda leva, foram logo reconhecidos na sua negação dos valores do Iluminismo que deram origem à modernidade e foram cristalizados a partir da segunda metade do século XVIII.

A modernidade foi muito bem descrita no ensaio de Joel Mokyr que foi publicado em português e em espanhol, em 2011, na revista eletrônica PortVitoria. Segue abaixo a conclusão de Mokyr acerca da modernidade:

Por mais improvável que pudesse parecer na época, uma comunidade relativamente pequena de intelectuais, num pequeno canto da Europa do século XVIII, mudou o curso da história universal. Eles não apenas concordaram que o progresso era algo desejável; eles escreveram um programa pormenorizado de como implementá-lo, e, o que é mais admirável, levaram-no adiante. Hoje em dia usufruímos de confortos materiais, acesso a informação e entretenimento, melhor saúde, de ver praticamente todos os nossos filhos chegarem à idade adulta (mesmo se optamos por ter poucos filhos), e de uma razoável expectativa de que passaremos muitos anos de uma aposentadoria economicamente segura e dotada de lazer. Essas coisas eram os luxos que Smith, Hume, Watt e Wedgwood apenas sonhavam. Entretanto, sem o Iluminismo, elas nunca teriam se tornado realidade.

Não há como negar que a modernidade melhorou consideravelmente a qualidade de vida das pessoas. Todavia, essa modernidade não veio de supetão. Foi um produto do amadurecimento da mente ocidental e dos esforços dos pensadores que insistiram em entender o mundo natural por ele próprio, sem levar em conta a revelação religiosa. Os pensadores no centro desse movimento não foram os primeiros a pensar desse modo, mas os primeiros que tiveram coragem de desafiar o poder da Igreja.

A modernidade não jogou fora o conhecimento antigo, pelo contrário, preservou-o junto ao novo conhecimento. A modernidade não apenas transformou o Ocidente, como também acabou sendo incorporada na sua identidade. Dada essa constatação, é mister perguntar por que lhe atiram pedras. De onde veio o pós-modernismo? Por que rejeita e ataca a modernidade?

As raízes do pós-modernismo

As raízes do pós-modernismo estendem-se até a escola de linguística fundada pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913) na Universidade de Genebra, na Suíça, no início do século XX. A escola saussuriana deu origem ao movimento conhecido como ‘estruturalismo’, que surgiu em torno da natureza estruturada do ‘signo linguístico’ (a palavra) – formado por um ‘significante’ e um ‘significado’ – o qual forma a base da linguística sincrônica que Saussure priorizou sobre a linguística diacrônica ou histórica. O estruturalismo linguístico preocupou-se em identificar não apenas o que está evidente no texto, mas também o que não está nas estruturas do ‘significado’. Em outras palavras, o estruturalismo linguístico se preocupou em descobrir eventuais discursos escondidos nas entrelinhas.

Da linguística, o estruturalismo migrou para a crítica literária e a antropologia, que logo se ocuparam em descobrir eventuais conspirações em elusivas mensagens subliminares abrigadas nas entrelinhas da teoria. E, como quem procura, acha, os estruturalistas encontraram ‘planos’ e geraram uma teoria de conspiração, segundo a qual ideias e ideologias são impostas às pessoas.

O criticismo literário dos estruturalistas passou a enxergar a literatura não como algo baseado exclusivamente em conteúdo, mas como um sistema relativo capaz de sofrer mutações através da história. Luís Althusser (1918-90) tomou emprestado da linguística o radical ‘semio’ da palavra ‘semiótica’ ou ‘semiologia’, e propôs o termo ‘semio-criticismo’. Jacques Derrida (1930-2004) enxergou a literatura como um veículo de disseminação de ideologia; introduzindo o termo ‘desconstrucionismo’ para designar a técnica de revelar significados escondidos nas entrelinhas. Michel Foucault (1926-1984) reinterpretou a frase ‘saber é poder’ de Francis Bacon (1561-1626) como ‘o saber é um instrumento do poder’, acusando o desejo de adquirir conhecimento técnico de ser um discurso de poder e um instrumento de exclusão.

O movimento conhecido como ‘pós-estruturalismo’ é o próprio estruturalismo, porém criticado; ressalte-se que nem todos os críticos do estruturalismo identificaram-se como ‘pós-estruturalistas. Os proponentes mais conhecidos desse movimento são Althusser, Júlia Kristeva (1941-), Derrida e Foucault. Os pós-estruturalistas criaram uma crítica literária chamada ‘crítica pós-estruturalista, ‘crítica moderna’ ou ‘crítica pós-moderna’, baseada na desconstrução das estruturas conceituais do texto, a fim de revelar os significados ocultos nas entrelinhas do texto literário.

O pós-modernismo fincou raízes na antropologia e nas ciências sociais em geral, e, dessas raízes, surgiu o ‘construcionismo social’, a ideia da linguagem como um instrumento de alavancagem social e de revolução. Dois tipos de construcionismo social foram identificados: o universal e o particular. Ambos veem a linguagem e a comunicação como instrumentos de poder e de empoderamento. O construcionismo universal refere-se ao constructo geral, enquanto que o construtivismo particular refere-se ao constructo de uma realidade específica de uma categoria específica de indivíduos. Quer no construcionismo social universal, quer no particular, a realidade é confinada àquilo do qual se fala, ou seja, a única realidade que existe é aquela que aparece na mídia, e isso foi ressaltado num artigo de revisão assinado por Naveed Yazdani, Hasan S. Murad e Rana Zamin Abbas, publicado em 2011:

Para os filósofos pós-modernos os ‘estudos culturais’ ou estudo de identidade são o esteio principal da cultura e a questão da identidade está impregnada na humanidade. Os ícones da mídia são os componentes chaves da cultura pós-moderna e muitos filósofos contemporâneos sentem-se tão confortáveis escrevendo sobre Madonna quanto sobre política, os clássicos e a ética.

O construcionismo social está ligado à noção de indivíduos deslocados, oriundos dos mais diversos caminhos da vida, da qual vem a ‘morte do sujeito’, que ocorre quando a identidade é desfeita e a capacidade de ação é perdida. O apelo do construcionismo social é a esperança de que qualquer coisa que esteja errada possa ser consertada, uma vez que os significados não são fixos.

Derrida foi identificado como um dos principais instigadores dos protestos contra a globalização ocorridos na virada do século XX em Seattle, Praga, Québec e Gênova. Isso foi feito demonizando o capitalismo e plantando nas mentes jovens a ideia de que a globalização era uma ideologia que precisava ser desconstruída.

A inculcação pós-modernista

A inculcação pós-modernista, no meio acadêmico, tem grande acolhimento no anseio dos professores de manter as coisas como sempre estiveram, principalmente as cercas imaginárias em torno das disciplinas acadêmicas. Tal inculcação é uma sabotagem da educação de mais de uma geração de jovens. Como tais indivíduos vão encontrar significado em suas profissões depois de formados? Como é que vão resolver problemas que requerem discernir a verdade da inverdade, ou o racional do irracional?

Apesar de todas as suas faltas, o pós-modernismo no meio acadêmico norte-americano sobreviveu bastante tempo sem ser incomodado. A explicação mais provável para isso é a continuação da separação entre as ciências e as humanidades, a qual foi o tópico de uma palestra de C. P. Snow (1905-80) em 1959, posteriormente transformada no livro The two cultures (As duas culturas). É provável que muitos cientistas sequer tenham tomado conhecimento do desprezo e dos insultos dos pós-modernistas à ciência.

Quatro acadêmicos que enfrentaram com vigor o pós-modernismo e suas idiossincrasias foram o físico e matemático norte-americano, Alan Sokal (1955-); o filósofo da ciência canadense, Ian Hacking (1936-); o filósofo e classicista, Allan Bloom (1930-92); e o psicólogo Steven Pinker (1954-), professor da Universidade de Harvard e autor de diversos livros acerca da natureza humana.

Sokal é sem dúvida o crítico mais criativo do pós-modernismo. A fim de mostrar a frivolidade desse movimento, ele escreveu um artigo falso, carregado de ininteligibilidade, verbiagem e subjetividade, o qual foi publicado em 1996, no periódico Social Text. Sokal escreveu outro artigo para anunciar o trote, o qual foi publicado um ano depois, no periódico Lingua Franca. O trote de Sokal não acabou de vez com o pós-modernismo, mas pelo menos abalou-o consideravelmente. Contudo, Sokal não parou aí. Em 1997, ele e o francês Jean Bricmont, publicaram o livro Impostures intellectuelles (Imposturas intelectuais), cuja edição em inglês teve o título Fashionable nonsense: postmodern intellectual’s abuse of science (1998; O absurdo que é moda: o abuso da ciência pelos intelectuais pós-modernos). Nesse livro, Sokal e Bricmont mostraram as absurdidades do artigo-trote de Sokal, bem como diversos exemplos de abusos em conceitos e terminologias científicas cometidos por intelectuais famosos.

A crítica de Hacking ao pós-modernismo consistiu em examinar minunciosamente o conteúdo de diversos livros que tinham no título a palavra ‘construção’ com a finalidade de destrinchar os principais fatores unificadores do construcionismo social. O resultado disso foi publicado, em 1999, no livro The social construction of what? (Construção social do quê?). Nesse livro, Hacking lista uma enorme relação de coisas apontadas como tendo sido ‘socialmente construídas’, incluindo raça, gênero, masculinidade, natureza, fatos, realidade e o passado.

Bloom atacou a chamada Nova Crítica (New Criticism) literária, um dos pilares do pós-modernismo. No seu livro The closing of the american mind, publicado em 1986, Bloom denunciou o perigo das influências irracionais, como a Nova Crítica, que grassaram no meio acadêmico dos Estados Unidos. Para Bloom, tais influências comprometem as humanidades e destroem boa cultura universitária dos Estados Unidos. O grande problema, aponta Bloom, é que não existe reciprocidade para a ‘abertura ao fechado’ (openness to closeness) do Ocidente.

Pinker criticou o pós-modernismo e as suas diversas facetas no seu livro Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. A crítica de Pinker concentra-se no mau entendimento da natureza humana, causado pelas diversas teorias de conspiração do pós-modernismo, segundo as quais ‘as observações são sempre contaminadas por teorias, e as teorias são saturadas de ideologia e doutrinas políticas; portanto, quem afirma estar em posse dos fatos ou saber a verdade está apenas tentando exercer poder sobre todo o resto’. Pinker aborda, ainda, o relativismo criado especificamente para impedir a crítica das coisas que são tidas como ‘culturais’, o que acaba permitindo diversas violações da integridade física das pessoas como a mutilação genital feminina, o apedrejamento de mulheres e as punições corporais de grande crueldade. Eis como Pinker conclui a sua crítica:

É irônico que uma filosofia que se orgulha de desconstruir o instrumental do poder adote um relativismo que impossibilita contestar o poder, pois nega que existam referenciais objetivos em relação aos quais os logros dos poderosos possam ser avaliados. Pela mesma razão, o texto deveria refrear os cientistas radicais que asseveram que as aspirações de outros cientistas a teorias com realidade objetiva (incluindo teorias sobre a natureza humana) são, na realidade, armas para preservar os interesses da classe, sexo e raça dominantes. Sem uma noção da verdade objetiva, a vida intelectual degenera em uma luta para saber quem melhor consegue exercer a força bruta para ‘controlar o passado’.

Dos quatro críticos do pós-modernismo acima listados, apenas Pinker continua batalhando para corrigir os erros e mal-entendidos do pós-modernismo. Num artigo publicado, em 2013, na revista eletrônica New Republic (3) Pinker fez um apelo, aos autores oriundos das humanidades, contra a mentalidade anticientífica que tem prevalecido nesse meio. Ele explica que as práticas da ciência, como a ‘revisão por pares’ (peer review), o debate aberto e o método duplo-cego, foram criados especificamente para driblar os erros e pecados aos quais os cientistas, por serem humanos, são vulneráveis.

O artigo de Pinker ilustra bem a ofensiva anticiência da mentalidade pós-modernista nos Estados Unidos. No meio do artigo de Pinker apareceu um hyperlink de um vídeo de três minutos com o seguinte título: “ASSISTA a réplica de Leon Wieseltier”. Este último era o próprio editor literário da New Republic. Mas isso não foi tudo. Poucas semanas depois, Wieseltier publica na própria New Republic um longo ensaio, carregado de sarcasmo e termos derrogatórios, intitulado Crimes against humanities: Now science wants to invade the liberal arts. Don’t let it happen (Crimes contra as humanidades: Agora a ciência deseja invadir as artes liberais. Não permita que isso aconteça). Por alguma razão, Pinker aceitou participar de uma terceira rodada desse ‘debate’, numa matéria intitulada ‘Science vs. the Humanities, round III’ (Ciência versus Humanidades, III round), também publicada na New Republic, a qual consistiu de uma tréplica de Pinker seguida de outra de Wieseltier. Outros artigos e blogs foram publicados; em geral, atacando não apenas Pinker e a sua visão da consiliência (a união entre a ciência e as humanidades), mas também as aberrações do darwinismo social e da eugenia, que nada tinham a ver com o artigo inicial de Pinker. Todavia, Pinker foi defendido pelo filósofo e cientista cognitivo Daniel Dennett (1942-), numa matéria publicada na Edge Conversations, considerado o portal mais interessante e estimulante da internet.

Na matéria acima mencionada, Dennett dá uma síntese da situação do setor de humanidades das universidades norte-americanas. Segundo ele, existe uma geração de acadêmicos deficitários que não têm respeito pela evidência e tampouco acreditam na verdade; tais acadêmicos conformam-se com ‘conversações’ nas quais ninguém é errado, e, nada pode ser confirmado, mas apenas afirmado em qualquer estilo que for capaz de desenvolver.

Conclusão

O pós-modernismo é uma investida contra a modernidade que veio em duas levas. Na primeira leva, o pós-modernismo denunciou a cultura como um instrumento do poder, e, na segunda, denunciou a ciência. Todavia, o pós-modernismo não representa a primeira investida contra a modernidade, a qual foi bastante combatida pelos pensadores que insistiam em colocar a Divina Providência na equação do conhecimento.

O pensamento pós-moderno interpreta os critérios de excelência e objetividade da ciência moderna como uma forma de elitismo. Por essa razão, a mentalidade pós-modernista é incapaz de enxergar as coisas boas que resultaram do Iluminismo. Perseguiu os valores iluministas da busca da verdade do mundo natural – em oposição ao mundo supranatural –, o que incluiu a crença no conhecimento unificado, a superioridade do conhecimento científico sobre outros tipos de conhecimento, e, o reconhecimento de um cânone civilizacional e do seu importante papel na Educação Liberal e no ensino das humanidades. Como se não bastasse, preconizou, a impressionáveis mentes jovens, a ideia estapafúrdia de que a ciência moderna e o cânone literário são construtos sociais, manifestações da arrogância e do imperialismo do Ocidente. Causou a guerra das culturas das décadas de 1980 e 1990, e continua atrapalhando o ensino das humanidades, cujos alunos são inculcados a aceitar o relativismo e outras ideias obscurantistas, e a rejeitar a consiliência do conhecimento.

Embora a inculcação pós-modernista tenha sido registrada com firmeza apenas no meio acadêmico dos Estados Unidos, isso não significa que não tenha ocorrido em outros países. Os indivíduos mais bem preparados de qualquer país ou sociedade devem tomar cuidado com as visões radicais de ponta cujas implicações éticas ainda não foram completamente esclarecidas. É esse o caso do pós-modernismo, ideologia que gira em torno da ideia irracional de que os valores da modernidade, característicos da civilização ocidental, fazem parte de uma grande conspiração do Ocidente para manter o poder e a hegemonia. O pós-modernismo é uma doutrina absurda, irracional e enganosa. É o cavalo de Troia da civilização.

Notas

(1) Tradução da definição mais comum em inglês, obtida através do Google: “a late 20th-century style and concept in the arts, architecture, and criticism, which represents a departure from modernism and is characterized by the self-conscious use of earlier styles and conventions, a mixing of different artistic styles and media, and a general distrust of theories.”<https://www.google.co.uk/?gws_rd=cr#q=postmodernism+definition&gt;.

(2) Em 1998, a artista plástica britânica Tracey Emin (1963-) exibiu a sua própria cama ‘dormida’ como uma ‘peça’ de arte intitulada My bed, a qual foi exibida no ano seguinte na galeria Tate Modern, quando foi indicada para o Turner Prize. Em 2000, Charles Staachi, proprietário de uma galeria de arte comprou a My bed por £150.000 libras. A segunda vez que a My bed foi colocada no mercado de arte foi em julho de 2015, quando foi comprada por um colecionador alemão chamado Christian Duerckheim, o qual emprestou a peça de arte à galeria Tate por dez anos. Emin havia expressado o seu desejo de que a sua ‘peça’ ficasse para sempre na galeria Tate Modern, mas esta não dispunha de recursos suficientes. No leilão da Christie, a peça My bed foi vendida por £2,54 milhões, mais do que o dobro do estimado. Numa entrevista, Duerckheim explicou ter comprado a My bed pelo fato de ela ser “uma metáfora para a vida, onde os problemas começam e a lógica morre”. Consultado na Wikepedia e no portal do The Guardian: <https://www.theguardian.com/uk-news/2015/mar/30/tracey-emins-messy-bed-displayed-tate-britain-first-time-in-15-years&gt;.

(3) A revista New Republic foi fundada em 1914, por líderes do ‘Movimento Progressista’ (de esquerda), como uma revista de opinião que busca atender o desafio da nova época. Na década de 1980, a New Republic incorporou alguns elementos do conservadorismo. A revista foi posta à venda em 2012 e adquirida por Chris Hughes, cofundador do Facebook. Em 4 de dezembro de 2014, foi anunciado que Gabriel Snyder, oriundo da Gawker e da Bloomberg, seria seu novo editor chefe, em substituição a Franklin Foer. Além disso, o novo diretor executivo, Guy Vidra, oriundo da Yahoo, anunciou a sua intenção de reduzir o número de edições anuais de 20 para 10, o que provocou uma onda de pedidos de demissão, a qual incluiu a do editor literário Leon Wieseltier. O resultado disso foi a suspensão da edição de dezembro de 2014. A New Republic era inicialmente semanal, passando a 20 edições ao ano. Durante um curto espaço de tempo, publicou 10 edições ao ano, com uma circulação de 50000 exemplares. Em 11 de janeiro de 2016, Chris Hughes colocou a New Republic à venda, a qual foi comprada em 26 de fevereiro por Win McComack. Este assumiu o posto de editor-chefe e nomeou Eric N. Bates, ex-editor executivo da Rolling Stone, editor. A New Republic tem um registro impressionante de colaboradores notáveis. Entretanto, tem também diversas associações questionáveis, como Michael Whitney Staight, que foi editor de 1948 a 1956, o qual, como foi descoberto, era um espião da KGB. Fonte: <//en.wikepedia.org/wiki/The_New_Republic>.


Joaquina Pires-O’Brien é tradutora, ensaísta e ex-botânica e bióloga brasileira, residente na Inglaterra. O seu livro de ensaios O homem razoável (2016) foi também publicado em espanhol e encontra-se disponível na Amazon em edições brochura e Kindle. Em 2010 ela criou a revista digital PortVitoria, voltada para cultura ibérica no mundo, em inglês, português e espanhol. O presente ensaio foi extraido do livro  O homem razoável .

 

Antonio Gramsci (1891-1937) o guru da esquerda acadêmica

Jo Pires-O`Brien

Segundo o filósofo inglês Roger Scruton (1944 -) o surgimento da Nova Esquerda envolveu a construção de uma marca nova, diferente da marca da Velha Esquerda. Entretanto, a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar peculiar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo e exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

Scruton identificou dois importantes motivos para a escolha de Gramsci. O primeiro foi a ideia da ‘práxis’  revolucionária de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia de dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

Gramsci foi transformado no principal guru da Nova Esquerda, venerado nas academias da América Latina, da África e do resto do mundo. Gramsci é considerado um ‘Marxista Hegeliano’ de segunda geração, juntamente com o pensador e crítico literário húngaro György Lukács (1885-1971) e o pensador alemão Karl Korsch (1886-1961). Todos três eram ligados a partidos comunistas vinculados ao Comintern soviético. A aparente preferencia brasileira por Gramsci deve-se ao fato dele ter escrito em italiano, língua que os falantes de português conseguem entender com facilidade, bem como por ter-se preocupado com a educação e também pelo seu livro ‘O príncipe moderno’, uma paródia de O príncipe de Nicolau Machiavelli onde ele oferece conselhos às lideranças da esquerda sobre como alcançar e segurar o poder.

No seu livro Sobre a educação, Gramsci escreveu: “Os novos curricula devem abolir por completo os exames; pois fazer um exame hoje é muito mais uma questão de sorte do que antigamente. Seja quem for o examinador, uma data é sempre uma data e uma definição é sempre uma definição. Mas, é um julgamento estético ou uma análise filosófica?” Há um paradoxo reconhecido nessa obra de Gramsci na busca de uma política educativa radical através de um currículo e pedagogias tradicionais”. E, conforme perguntou Entwhistle, “Se as escolas são um principal instrumento hegemônico da existência de regras na classe, como pode uma mudança contra-hegemônica ocorrer senão através de uma reforma radical e de uma pedagogia liberal?”

É de Gramsci a expressão ‘hegemonia cultural’ um dos mais batidos termos do vocabulário da Esquerda latina, uma referência de que a classe dominante exerce na sociedade através da cultura. Em Homens ou Máquinas (1916) Gramsci escreveu:

Um proletário, por mais inteligente que seja, não importa o quão apto seja para se tornar um indivíduo de cultura, é forçado a desperdiçar suas qualidades em algum outro tipo de atividade, ou então, a se tornar um rebelde e autodidata – i.e., na mediocridade (tirando algumas exceções); um homem que não pode dar tudo o que é capaz caso tivesse se formado pela disciplina da escola e se aperfeiçoado. A cultura é um privilégio. A educação é um privilégio. E nós não queremos que seja assim. Todos os jovens devem ser iguais perante a cultura. O Estado não deve financiar com o dinheiro de todos os cidadãos, a educação dos filhos de pais abastados, seja lá quão medíocres ou deficientes eles sejam, enquanto exclui os mais inteligentes e capazes que são filhos de proletários. O curso colegial e o ensino superior devem ser facultados àquele que conseguem demonstrar que os merecem.

Em 1913 Gramsci ingressou na Universidade de Turim onde começou a estudar literatura e linguística, mas deixou os estudos em 1915 por motivos financeiros e de saúde. Ainda em 1913 Gramsci se associou ao Partido Socialista Italiano, época que coincidiu com o começo da indústria automobilística italiana, onde as fábricas como a Fiat e a Lancia começaram a recrutar operários nas regiões mais pobres. Em 1914 ele começou a publicar artigos em jornais socialistas como ‘Il Grido del Popolo’ e logo granhou uma reputação jornalística. Em 1916 ele tornou co-editor da edição Pedmont do Avanti!, o jornal oficial do Partido Socialista, e em 1919 ele foi um dos fundadores do jornal semanal ‘L’Ordine Nuovo’ (A Nova Ordem), junto com três outros colegas, que foi considerado por Vladimir Lenin como sendo o de orientação mais próxima dos Bolcheviques. Desavenças entre os editores do ‘L’Ordine Nuovo’ e a central do Partido Socialista Italiano causaram uma ruptura e em 21 de janeiro de 1921 eles fundaram o Partido Comunista Italiano (Partito Comunista d’Italia – PCI). Gramsci foi um dos líderes do Partido, sendo, entretanto subalterno a Bordiga.

Em 1922 Gramsci foi para a Rússia onde conheceu Julia Schucht, uma jovem violinista, que lhe deu dois filhos, o segundo dos quais ele não chegou a conhecer. A viagem de Gramsci coincidiu com a implantação do fascismo na Itália e ele foi instruído a organizar uma aliança da Esquerda contra o fascismo, o que era contrário aos desejos dos outros líderes do PCI. Em 1924 Gramsci foi eleito deputado por Veneto, e logo em seguida fundou L’Unità (União), o porta-voz do partido, o qual ele também passou a liderar. Em 1926 Gramsci escreveu uma carta ao Comintern onde afirmou que não concordava com a oposição de Leon Trotsky mas também fez críticas ao mesmo. O representante do PCI em Moscou, Togliatti, abriu a carta em primeira mão e decidiu não entrega-la, o que causou uma fissura permanente entre ele e Gramsci. Gramsci morreu aos 46 anos de idade, numa prisão do regime fascista de Mussolini. A obra que deixou foi dividida em dois grupos, a dos anos revolucionários e a dos anos na prisão. O pensamento de Gramsci relativo à educação tem recebido interpretações diferentes mesmo dentro da própria esquerda.

A avaliação que Scruton fez de Gramsci, é de que a obra deste é uma espécie de ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta. Mesmo assim, Scruton reconheceu em Gramsci uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

 Referências

Entwistle, Harold (1979). António Gramsci: Conservative Schooling for Radical Politics. London: Routiedge & Kegan Paul;1979.

Scruton Roger. Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda). London, Bloomsbury, 2015.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien acaba de publicar O homem razoável (2016), uma coletânea de 23 ensaios sobre temas como: o instinto da massa, a voz do povo, a aprendizagem ao longo da vida ou ALV, a utopia, as ‘duas culturas’, o pós-modernismo, religiões e crenças religiosas e o 9/11. O livro de JPO é disponível na www.amazon.com e noutros portais da Amazon ao redor do mundo. É também a editora fundadora de PortVitoria, revista digital sobre a cultura ibérica em todo o mundo, que sai duas vezes ao ano: www.portvitoria.com.

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A ‘impessoa’ de Orwell e Stalin

Jo Pires-O’Brien

A ‘impessoa’ é uma das diversas sátiras de George Orwell ao regime despótico de Stalin, descrita no seu livro 1984. Uma ‘impessoa’ é alguém que foi riscado do mapa em represália por ter contrariado a ordem vigente em Oceania, recriando, na ficção, uma prática real na União Soviética de Stalin, voltada a punir impertinências e, ao mesmo tempo, impedir que a memória de um indivíduo seja usada para incitar insurgência conta o Partido. Syme era um entusiasta do Partido, dedicado ao desenvolvimento da nova linguagem (novilíngua) e era, também, um membro da Comissão de Xadrez. Um dia, ele falta ao trabalho, e, quando torna a faltar nos próximos dias, alguns colegas comentam a sua ausência. Entretanto, quando diversos dias passam sem que ele retorne, ninguém mais menciona o seu nome. Winston, o protagonista, é a única pessoa que desconfia que algo pode ter acontecido. Ele resolve ir até o vestíbulo do Departamento onde havia uma placa com os nomes dos membros da Comissão de Xadrez. Examina a placa e não nota nada de anormal, nenhum nome riscado. Numa segunda inspeção, nota que havia um nome a menos na placa. Todos os registros da existência de Syme desaparecem, e ele perde, até mesmo, o passado da própria existência. A missão do Ministério da Verdade, onde Winston trabalhava, era destruir os registros dos prisioneiros executados e substituí-los por outros falsos.

A verdade sobre o regime de Stalin

Nikkita Krushchev (1894-1971), que substituiu Stalin após a morte deste em 1953, expôs os terríveis crimes deste e descreveu-o como ‘violento’, ‘caprichoso’ e ‘despótico’. Denunciou os grandes ‘purgos’ da década de 1930 e mostrou como no final da mesma quase todos os indivíduos que tinham conexões com a revolução de 1917 foram mortos em execuções sumárias após serem coagidos a confessar.

O que aconteceu a Nikolai Yezhov, Chefe da Polícia Secreta soviética e o braço direito, dá uma ideia da maldade de Stalin. O próprio Yezhov era um pau-mandado de Stalin e o seu trabalho consistia de encontrar formas de implicar os inimigos de Stalin a fim de que fossem processados em julgamentos-shows, e, em seguida, executados. Implicado nas intrigas do governo, Yexhov caiu na desgraça, e quando isso aconteceu, Stalin não se contentou em mandar executá-lo, mas ordenou que os registros que o ligavam a Yexhov fossem destruídos. Entretanto, uma fotografia onde Stalin e Yexhof apareciam lado a lado escapou da destruição. e A mesma fotografia tinha uma correspondente no arquivo oficial, embora sem a imagem de Yezhov.

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Figura 1. Uma ‘impessoa’ soviética que evapora: a imagem de Nikolai Yezhov foi removida depois que ele virou um desafeto de Stalin e foi executado em 1940. (Fonte: Wikipédia. https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Newspeak_words).

Fazer de alguém uma ‘impessoa’ é um castigo pior do que a morte pois em adição a matar a pessoa, destrói o registro de sua vida. A morte é banal uma vez que todos morrem. A vida sim é que é importante, pois através dela o ser humano pode fazer uso integral de suas capacidades.

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Jo Pires-O’Brien é editora de PortVitoria, revista da cultura ibérica no mundo.

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