Guerrilhas no Terceiro Mundo: as zonas quentes da Guerra Fria

Autor: Simon Heffer
Resenha do livro Small wars, far away places: the genesis of the Modern World – 1945-65 de Michael Burleigh. Macmillian. 588pp. £25. ISBN 978-0-230-75232-0

Pelas suas características os vinte anos após o final da Segunda Guerra Mundial foram tão aterrorizantes quanto o próprio conflito. O período representou uma ameaça equivalente à ordem mundial: a derrota do fascismo foi seguida da ascensão do comunismo. O período viu também uma mudança do poder global, da Europa, onde ele historicamente residia, para a América. Até os anos sessenta os americanos estabeleceram uma hegemonia rivalizada apenas pela União Soviética – que ainda estava a uma boa distância atrás. A Grã-Bretanha, o grande poder da era pré-guerra, estava arruinada mas compreendia apenas gradualmente a sua impotência. Dentro de poucos meses a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria começou. O monopólio da América sobre a contenda nuclear durou pouco tempo, pois em 1949 os espiões deram aos soviéticos os segredos necessários para a confecção de sua própria bomba. Com as nações da Europa determinadas a não voltar a fazer guerra umas com as outras, a nova superpotência e o seu inimigo procuraram lutar alternativamente através de agentes no Oriente, na África e no Caribe. Essas são as histórias, dentre outras, que Michael Burleigh relata nesta magnífica, bem-informada, penetrante e muitas vezes espirituosa narrativa dos conflitos ocorridos entre 1945 e 1965.

Burleigh não tenta abarcar o mundo inteiro, mas escolhe os episódios onde tem um interesse especial, que ilustram o tema primordial desta obra: como a América se transformou, na altura do término do mandato presidencial de Eisenhower, naquilo que em 1066 and All That [Título de uma história satírica da Inglaterra publicada na década de 1930 e serializada na revista Punch! N.T.] ficou conhecido como ‘Top Nation’ (a Nação Manda-Chuva). Isso foi a culminação da política de Woodrow Wilson que sustentou a abordagem norte-americana adotada na conferência de Versalhes de 1919: a destruição do poder imperial europeu. Os Habsburgos, os Hohenzollernes e os Ottomanos haviam todos desaparecido; a questão não-resolvida era o Império Britânico, que provou ser insustentável após 1945. Conforme Burleigh registra, a partir do momento em que entraram na Segunda Guerra Mundial em Dezembro de 1941, os americanos deixaram bastante claro que os seus objetivos não incluíam a salvação nem a prorrogação do Império Britânico. E, mesmo antes da independência da Índia em 1947, a América já estava se portando como se não estivesse disposta a tolerar as dissensões do mundo, estendendo o seu alcance tanto aos seus aliados quanto aos seus clientes. Isso ocorreu em parte porque a América se viu como a principal barreira natural contra a disseminação do comunismo, e em parte porque havia se acostumado, desde a época de Wilson, a aspirar o posto de manda-chuva. A arrogância que esta mentalidade criou foi muito bem ilustrada por Burleigh, quando a América interveio nas Filipinas, em Cuba e no Vietnam com resultados cada vez piores.

A abdicação britânica do poder é mostrada como um resultado direto de estar falida. Antes de 1947, o país já havia indicado ao seu principal aliado que já não dava conta de exercer o papel que era esperado dele no Oriente Médio. O país já havia estado ansioso para sair da Palestina o mais depressa possível, mas tal lição parece que foi esquecida pelo governo Conservador dos anos cinquenta, que retornou à região com desastrosas consequências. Burleigh muito corretamente descreve o fiasco de Suez de novembro de 1956 como o momento em que a realidade tomou conta da Grã-Bretanha e os seus dirigentes finalmente entenderam que seu país havia se tornado um jogador de menor importância. As suas tentativas de combater a insurgência malaia conteve a maré por algum tempo, mas logo os agricultores brancos foram escorraçados para costas mais seguras. A manutenção das colônias africanas só foi possível com base na brutalidade racista, como o campo Hola no Quênia, onde em 1959 os guardas espancaram até a morte os Mau Mau detidos, fato que antecedeu em alguns meses o discurso dos ‘ventos de mudança’ de Macmillan.

A Grã-Bretanha não foi, entretanto, o único império a se desmantelar durante esses anos. A mesma coisa ocorreu com a França, primeiramente na Indochina, ao enfrentar comunistas que tinham o apoio chinês, e depois na Argélia contra os nacionalistas. Apenas de Gaulle, o último homem que entregou um centímetro quadrado do território francês, enxergou a impossibilidade de manter a presença do seu país no Norte da África. Através de ambiguidade, duplicidade e da patente traição dos seus princípios – e os dos Harkis, que haviam servido lealmente a França – ele livrou o seu país de um banho de sangue. A Argélia, como tantas das velhas colônias britânicas, continuou a se brutalizar durante décadas, mas pelo menos a França podia lavar as suas mãos sobre isso. Mais ao sul na África, os belgas e os portugueses eram igualmente brutais e ineptos, especialmente na sua propensão para permitir que a influência soviética se espalhasse por toda a África através de organizações que promoviam guerrilhas Marxistas, frequentemente com resultados pouco esclarecedores.

A América beneficiou-se desta hemorragia do poder europeu ainda mais do que a União Soviética. Embora o seu relacionamento com os países europeus individuais não fosse exatamente do tipo senhor e servo – pelo menos até os dias de Tony Blair, o crescimento do poderio americano, quando as últimas colônias europeias estavam sendo desativadas, lembrou a todos os interessados quem eram os verdadeiros senhores. Junto com esta sensibilidade veio uma infeliz arrogância. Burleigh é particularmente contundente nas suas descrições comparativas de Eisenhower e Kennedy, o seu sucessor: o primeiro, um homem de enorme experiência de comando e sem nenhum desejo de aparecer, e o segundo, um constructo do seu pavoroso pai, cuja entrada na política foi comprada com o dinheiro da família. Eisenhower é mostrado como um homem que moveu-se devagar e com sabedoria durante o período em que a América construía o seu poder nos anos cinquenta. Ele nunca perdeu a perspicácia de soldado sobre quais as guerras que poderiam ser ganhas, e portanto, enfrentadas com segurança. Ele também tinha pragmatismo para entender que a Grã-Bretanha estava posando (com Churchill como ‘posador’-em-chefe) nos anos cinquenta, apresentando-se como um poder mundial mesmo quando tal ilusão já se havia desvanecido, afirmando que a Grã-Bretanha merecia um lugar ‘especial’ nas relações internacionais com a América. Ike tinha uma atitude não-sentimental e apropriadamente rejeitou a noção, quase com um tom de pena.

Burleigh é um escritor bom e conciso, mas em nenhuma outra parte deste livro ele se excede mais do que na sua resumida descrição de Kennedy, como um ralo da moralidade, incapaz de levar qualquer coisa a sério afora a mulher que ele estivesse perseguindo na ocasião. Juntamente com o seu desagradável irmão Bobby, assassinado cinco anos depois dele, Kennedy meteu os pés pelas mãos no fiasco da Baía dos Porcos e só saiu intacto da Crise dos Mísseis Cubanos devido ao fortuito acidente da incompetência de Khrushchev e ao difícil relacionamento que o líder soviético tinha com Fidel Castro. Porém, foi Lyndon Johnson quem perpetrou a pior mancada da arrogância americana, com o seu pesado compromisso em termos de envio de tropas ao Vietnam. Harry Truman, que ainda estava vivo na ocasião, poderia ter-lhe advertido enfaticamente sobre as dores de cabeça que a Guerra da Coréia lhe haviam dado, e o alívio depois que a América conseguiu se safar. Mas Johnson acreditava na divina missão da América de lutar contra a ameaça comunista, e nunca imaginou que o seu país sofreria a humilhação que os franceses amargaram na década anterior, com a chocante derrota em Dien Bien Phu em 1954. O excepcional livro de Michael Burleigh termina antes do Vietnam virar o cemitério moral e literal da América: isso é no mínimo um bom motivo para esperar um volume sequente para ler a sua interpretação sobre como tal estória se desenrolou.
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Simon Heffer é um jornalista, escritor e editor britânico. O seu próximo livro High Minds, sobre a história intelectual e social da Grã-Bretanha do meio do século 19 será publicado pela editora Random House no final deste ano.

Tradução: J Pires-O’Brien; Revisão: C Pires

Esta resenha saiu em inglês na revista Literary Review, edição de Maio de 2013. Com autorização desta, foi republicado em português na revista PortVitoria:
http://www.portvitoria.com/

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Citações de Alexander Solzhenitsyn

Citações de Alexander Solzhenitsyn no livro O Arquipelago Gulag: 1918-1956
Versão na língua inglesa. Collins/Harvill Press and Fontana,1974.
Traduzido para o inglês por Thomas P. Whitney

“Eu dedico este livro a todos aqueles que não viveram para contar. Que eles por favor me perdoem por eu não ter visto tudo nem lembrado tudo, por não ter adivinhado tudo aquilo.”

“As prisões rolaram pelas ruas e prédios de apartamentos como uma epidemia. Assim como as pessoas transmitem uma infecção contagiosa umas às outras sem saber, pelas maneiras mais inocentes como um aperto de mão, uma expiração, um encontro casual na rua, assim também, elas passaram a infecção das prisões inevitáveis através de um um aperto de mão, uma respiração, um encontro casual na rua. Pois se você estiver destinado a amanhã confessar que organizou um grupo clandestino para envenenar o reservatório de água da cidade, e hoje eu apertei a suas mão na rua, isso implica que, eu também estou perdido.” (p. 75)

“Seja dono apenas aquilo que você possa carregar consigo: conheça línguas, conheça países, conheça pessoas. Deixe que a sua memória seja a sua mala. Use a sua memória! Ela é a semente amarga que algum dia poderá germinar e crescer.” (p. 516)

“Extensões delgadas de vidas humanas se estendem de uma ilha para outra no Arquipélago. Elas se enroscam, se tocam umas nas outras durante uma única noite em algum vagão semi-escuro que faz clique e claque assim como este e depois se separam para sempre. Coloque o ouvido no brando ruído dele e no clique claque debaixo do vagão. Afinal de contas, é a roda da vida que está lá fora cliqueando e claqueando.” (p. 517)

“A natureza humana, se é que ela muda, não muda mais rápido do que a camada geológica da Terra. E as mesmas sensações de curiosidade e prazer de avaliação que os mercadores de escravos sentiam nos mercados de escravas de vinte e cinco séculos atrás, eram sentidas pelos chefões do Gulag lotados na Prisão Usman em 1947, quando eles, duas dúzias de homens trajando o uniforme da MVD, se sentaram ao redor de diversas mesas cobertas por toalhas (uma expressão da própria importância, caso contrário poderia parecer estranho), e todas as prisioneiras eram obrigadas a se despir num cubículo ao lado e a caminhar descalças e nuas em frente a eles, virar, parar, e responder perguntas. ‘Abaixe as mãos,’ eles ordenavam àquelas que adotavam a pose defensiva de uma escultura clássica. (Afinal de contas, esses oficiais estavam muito seriamente selecionando parceiras de cama para si próprios e para os seus colegas).” (p. 562)

“E como você pode entregá-la [a verdade] a eles? Por uma inspiração? Por uma visão? Um sonho? Irmãos! Gente! Por que a vida lhes foi dada? Na calada funda e surda da meia-noite, as portas das celas da morte são abertas – e pessoas de boa alma são levadas para fora para serem fuziladas. Em todas as estradas de ferro do país, neste minuto, agora mesmo, pessoas que acabam de ser alimentadas com arenques salgados lambem os lábios secos com línguas amargas. Elas sonham com a felicidade do esticar das pernas e o alívio que sentem depois de ir ao banheiro. Em Orotukan, o solo só descongela durante o verão e apenas por três pés – e só então eles conseguem enterrar os ossos daqueles que morreram durante o inverno.” (p. 591)

Uma das verdades que você aprende na prisão é que o mundo é pequeno, muito pequeno mesmo. É verdade, o Arquipélago Gulag, embora se estendesse por toda a União Soviética, teve muito menos habitantes que o total da União Soviética. Quantos havia de fato no Arquipélago não se pode afirmar ao certo. Podemos presumir que, em qualquer momento, não havia mais do que doze milhões nos campos (pois se alguns haviam partido para debaixo da terra, a Máquina continuava a trazer substitutos). E não mais que a metade deles eram políticos. Seis milhões? Bem, aquilo era um pequeno país, uma Suíça ou uma Grécia, onde muitas pessoas se conhecem. E é bem natural que quando você chegasse em uma cela qualquer de uma prisão qualquer, e escutasse e conversasse, você certamente descobriria que tinha conhecidos em comum com alguns dos seus companheiros de cela. (p. 595-596)

…Eu era um Marxista… /…Mas o meu primeiro ano como prisioneiro deixou as suas marcas dentro de mim – precisamente, quando foi que isso aconteceu? Eu não percebi: houve tantos eventos novos, visões e significados que eu já não podia mais afirmar: ‘Eles não existem! Isso é uma mentira dos burgueses!’ E agora eu tive que admitir: ‘Sim, existem’. E precisamente naquela altura toda a minha linha de raciocínio começou a enfraquecer, e assim, eles podiam vencer-me nas discussões sem o menor esforço. (p. 602)

Tradução do inglês: JPO

Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

“No coração de todas as pessoas há uma batalha constante entre o bem e o mal” A Solzhenitsyn

Apenas recentemente eu tive a oportunidade de ler O Arquipélago Gulag, o famoso livro de Alexander Solzhenitsyn sobre os ‘gulags’ da União Soviética, campos e colônias de trabalho forçado por onde passaram cerca de 14 milhões de pessoas, detidas tanto por crimes ordinários e pequenas infrações quanto por motivos políticos. Embora Solzhenitsyn tivesse usado o termo ‘gulag’ nesse sentido, o termo ‘Gulag’ é um acrônimo para Alta Administração dos Campos e Colônias de Trabalho Corretivo do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (NKVD), a agência do governo soviético encarregada dos campos de trabalho forçado, criada oficialmente em 1930 e extinta em 13 de Janeiro de 1960. Escrito entre 1958 e 1968, O Arquipélago Gulag é um registro da arbitrariedade e da violência do regime implantado em 1917 na União Soviética. Solzhenitsyn mostra que já existiam campos e colônias de trabalho forçado antes de 1930 e que Lenin também havia cometido o mesmo tipo de violência que Stalin, embora numa escala menor.

Alexander Solzhenitsyn nasceu em Kislovodsky, no sudoeste da Rússia e perto da fronteira com a Georgia, em 11 de dezembro de 1918, tendo estudado matemática na Universidade de Rostov. Durante a Segunda Guerra Mundial Solzhenitsyn serviu no Exército Vermelho e chegou à categoria de capitão de artilharia. Apesar de ter sido condecorado por bravura, em 1945 ele foi preso e condenado por ter criticado Joseph Stalin numa carta a um amigo, quando foi mandado para um campo de trabalho forçado no Cazaquistão.

O primeiro livro de Solzhenitsyn foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, cujo cenário era um campo de trabalho forçado soviético, foi publicado em 1962, durante o governo de Khrushev. Entretanto, o livro foi posteriormente banido depois da queda de Khrushev em outubro de 1964. Os próximos dois livros de Solzhenitsyn, The First Circle (O Primeiro Círculo) (1968) e Cancer Ward (A Enfermaria do Câncer) (1968) também foram banidos. Em 1970, Solzhenitsyn ganhou o Premio Nobel de Literatura mas o governo soviético não lhe deu permissão para ir a Estocolmo para recebê-lo. O seu próximo livro foi o romance Agosto de 1914, sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado em 1971 fora da União Soviética. Em 1973 Solzhenitsyn publicou O Arquipélago Gulag, fora da União Soviética, motivo pelo qual ele foi acusado de traição e deportado. Já nos Estados Unidos, Solzhenitsyn escreveu Lenin in Zurich (1975), The Oak and the Calf (1980) e The Mortal Danger (1983). Após sua morte em 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade, Solzhenitsyn teve um funeral com honras de Estado e foi enterrado no cemitério de Donskoy em Moscou.

Depois que Nikita Khruschev denunciou as arbitrariedades de Stalin inicialmente no 20º Congresso do Partido reunido em fevereiro de 1956, e depois no 22º Congresso em outubro de 1961, a imprensa começou a divulgar o assunto. Durante o seu governo Khrushev, que durou até outubro de 1964, Solzhenitsyn e outros autores críticos de Stalin conseguiram publicar seus livros na União Soviética. Entretanto, Solzhenitsyn achava que as informações que haviam sido disseminadas representavam apenas uma verdade parcial e que não bastavam para desagravar as pessoas que perdido suas liberdades e suas vidas nos gulags. Depois da substituição de Khruschev por Leonid Brezhnev, houve um retrocesso na liberdade de imprensa, causada pelo receio das consequências de um confronto entre os que desejavam reabilitar a imagem histórica de Stalin e os que desejavam colocá-lo no banco dos réus.

Solzhenitsyn enfrentou uma enorme pressão para não desenterrar o passado, inclusive por parte da Associação de Escritores de Moscou. Entretanto, ele insistiu na importância de trazer a verdade à tona e atribui a maldade dos homens à ideologia, como mostra o trecho abaixo retirado de O Arquipélago Gulag:

“Ideologia é aquilo que dá ao malefício a justificativa tão procurada e ao malfeitor a determinação e a sustentação necessárias. É esta a teoria social que ajuda a fazer com que os seus atos pareçam bons ao invés de maus, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros, de forma que ele não ouvirá repreensões e maldições mas receberá elogios e honrarias. Foi assim que os agentes da Inquisição fortificaram as suas vontades: invocando a Cristianismo; os conquistadores de terras estrangeiras, louvando a grandeza da Pátria Mãe; os colonizadores, a civilização; os Nazistas, a raça; e os Jacobinos (do início e do fim), a igualdade, a irmandade, e a felicidade das gerações futuras. Foi graças à ideologia que o século vinte foi fadado a experimentar malefícios numa escala calculada em milhões. Isso não pode ser negado, ignorado ou suprimido. Como é então que nós nos atrevemos a insistir que os malfeitores não existem? E quem foi que destruiu esses milhões de pessoas? Sem malfeitores não teria existido o Arquipélago.”

Para escrever O Arquipélago Gulag Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas. Após ter sido expulso da Associação de Escritores de Moscou e m 1974 ele também foi expulso da União Soviética, quando obteve asilo político nos Estados Unidos e foi morar em Vermont. Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, depois que Mikhail Gorbachev lhe restituiu a cidadania e retirou a acusação de traição, o que é bastante sugestivo do enorme apego dele à sua pátria natal.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

O anti-capitalismo e a Esquerda latina

O regime político-econômico que serviu de modelo da Esquerda Latina foi o da União Soviética. No século vinte a Esquerda Latina procurou repetir na América a revolução Bolchevique de 1917, e para esse fim passou a buscar a adesão dos trabalhadores e dos estudantes. Mas o modelo soviético esteve longe de ser o paraíso dos trabalhadores, apesar da sua alcunha de ‘ditadura do proletariado’. Nos primeiros anos que se seguiram à Revolução Bolchevique de Outubro de 1917, a desapropriação das grandes propriedades de terras pelo Estado provocou uma enorme falta de alimentos, o que levou o Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkcom) a obrigar os camponeses a vender seus produtos exclusivamente para o Estado ao invés de no costumeiro mercado. O novo regime eliminou todas as micro iniciativas de negócios prestação de serviços, que passaram a ser vistas como atividades capitalistas.

O Marxismo imputou um sentido pejorativo ao‘capitalismo’ a fim de ajudar a promover a revolução dos trabalhadores. A Esquerda Latina soube tirar proveito disso, mostrando os vícios facilmente reconhecíveis do capitalismo como a formação de cartéis e monopólios pelas grandes empresas. Entretanto, o capitalismo é simplesmente um sistema econômico onde o capital está nas mãos das pessoas, ao contrário do sistema econômico do socialismo, onde o capital maior pertence ao Estado. Dessa forma, a atividade capitalista inclui também os negócios médios e pequenos e todos trabalhadores autônomos, que na verdade são são mercadores solitários (sole traders, em inglês) que comercializam produtos ou serviços. Os agricultores, pecuaristas, feirantes, negociantes, vendedores ambulantes, alfaiates, costureiros, sapateiros, doceiros, pipoqueiros, jardineiros, manicures, cabeleireiros, faxineiros e professores particulares também fazem parte do sistema econômico do capitalismo. Nos últimos anos, Cuba tem aberto a sua economia para permitir que as pessoas abram seus pequenos negócios e trabalhem por conta própria. Apesar disso ser um importante passo para a liberalização da economia cubana, o governo de Cuba insiste em preservar o rótulo de ‘socialista’, possivelmente por ser mais condizente com as expectativas da população menos esclarecida.

Mas o colapso soviético não significou o colapso da Esquerda Latina e sua ideologia Marxista. Há apenas duas explicações isso: ignorância e cinismo. Desses dois motivos o pior é a ignorância, pois impede a compreensão da realidade e o exercício da cidadania. Qualquer indivíduo que saiba ler deve procurar ler mais. A educação informal de adultos através da leitura são as melhores armas contra a manipulação dos cínicos, os únicos que têm interesse na preservação da ignorância.

Todos os cidadãos que votam devem procurar entender por si próprios as informações chaves para a compreensão da política e da governança, a fim de entender o funcionamento da ordem econômica e social de um Estados democrático. Essa ordem existe independentemente das pessoas que se encontram no poder. Quem entende isso também entende que não faz sentido por fé em políticos com promessas de milagres, cujos atos de despir um santo para cobrir outro são verdadeiros golpes contra a democracia e a liberdade.


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Sobre o colapso da União Soviética

Para Yale Richmond, um escritor e um ex-diplomata americano que serviu na União Soviética, Polônia e Alemanha, a causa do colapso da União Soviética em 1991 foi o intercâmbio cultural firmado com os Estados Unidos em 1958, que permitiu com que mais de cinquenta mil cidadãos soviéticos visitassem os Estados Unidos e algumas dezenas de milhares visitassem a Europa Ocidental. Segundo Richmond, até a implantação desse intercâmbio cultural em 1958, a Cortina de Ferro havia permanecido impenetrável e as informações sobre o Ocidente eram cuidadosamente controladas. A maior parte dos russos julgavam ter um padrão de vida superior àquele dos Estados Unidos e dos outros países ricos do Ocidente. Aos poucos, os visitantes russos que retornavam do Ocidente trouxeram outras informações, que prepararam o cenário para as reformas implementadas por Gorbachev.

Um fenômeno equiparável ao intercâmbio cultural acima mencionado, foi o intercâmbio espontâneo que levou diversos membros da Esquerda Latina que eram perseguidos pelas diversas ditaduras militares a se refugiarem noutros países incluindo os Estados Unidos. Para esses companheiros mais esclarecidos da Esquerda Latina, a ficha da utopia Marxista também caiu bem antes de 1991.

Após o colapso da União Soviética a Rússia decidiu disponibilizar para a pesquisa histórica os arquivos do antigo regime. A maior parte das falsidades e meias verdades produzidas pela colossal máquina de propaganda soviética havia inventado já foi explicada. Robert John Service (1947-), um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu a trilogia biográfica de Lênin, Stalin e Trotsky, reunindo as informações biográficas contidas dos arquivos soviéticos com as demais informações históricas, filosóficas e sociológicas da literatura. Nessa trilogia Service procurou corrigir as distorções existentes, dando ênfase aos aspectos pouco conhecidos dos biografados e aos seus perfis psicológicos.

A disponibilização dos arquivos soviéticos vem também esclarecendo a extensão dos braços do Comintern nos Estados Unidos, Canadá e América Latina, bem como os seus contatos nessas regiões. Até que a verdade chegue aos movimentos de trabalhadores, a utopia Marxista continuará ajudando os líderes populistas latinos, perpetuando a esquizofrênica combinação de política de esquerda com economias capitalistas.


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Memórias da Guerra Fria

Durante a Guerra Fria os intelectuais do Ocidente, cuja maioria era engajada com a Esquerda, viam os Estados Unidos como o grande vilão e a União Soviética como o exemplo do regime do bem. Milhares de jovens latino-americanos viajaram para a União Soviética a fim de estudar e receber treinamentos diversos. Os especialistas em história latino-americana ligados ao Projeto Inkomka já devem ter uma ideia da estatística desse intercâmbio por país.

A falta de equilíbrio das informações sobre os dois lados da Guerra Fria explica até certo ponto porque a intelectualidade latina era massivamente de esquerda. Todos os atos condenáveis da política externa dos Estados Unidos foram amplamente divulgados pela imprensa falada e escrita. Assim, a população da América Latina tomou conhecimento da malograda invasão da Baía dos Porcos em 1961, das missões militares na Nicarágua e noutros países da América Central e o apoio que foi dado aos governos militares da região. O que a população da América Latina não ficou sabendo, pela total falta de divulgação, foram os atos igualmente condenáveis da política externa da União Soviética que geraram as grandes crises da Iugoslávia, da Albânia e da Polônia.

A antiga república da Iugoslávia (1944-1992), ao ser libertada do domínio alemão no final da Segunda Guerra Mundial, passou a integrar o bloco soviético. O seu presidente, o Marechal Josip Broz Tito (1892-1980), havia participado da Revolução Bolchevique de 1918, sendo portanto um antigo conhecido do ditador Joseph Stalin. Entretanto, nas reuniões do Partido, Tito não hesitava em se expressar abertamente e fazer as críticas que julgava necessárias, o que em 1948 fez com que se tornasse mais um desafeto de Stalin. Após a morte de Stalin em 1953, um bilhete de Tito foi encontrado numa gaveta de sua escrivaninha, com os seguintes dizeres: ‘Stalin: pare de mandar enviados para me matar. Nós já capturamos cinco, um deles com uma bomba e outro com um rifle… Se você não parar de mandar assassinos, eu vou mandar um a Moscou, e não precisarei mandar um segundo’

Após o racha entre Tito e Stalin em 1948, a Albânia, desligou-se da Federação Iugoslava e se juntou diretamente ao bloco soviético, mas em 1961 decidiu se alinhar à China de Mao Zedong. Os acontecimentos da Albânia reverberaram junto às esquerdas de todo o mundo, incluindo na América Latina, onde ganhou muitos adeptos, que eram chamados ‘comunistas da linha Albanesa’.

A Polônia, que também havia passado a integrar o bloco soviético após a Segunda Guerra Mundial, começou a se rebelar contra o domínio soviético ainda na década de 1950, através de greves e protestos de trabalhadores. A perseguição soviética aos poloneses das minorias étnicas como os pomeranos e os judeus, os obrigaram a emigrar para a Alemanha Ocidental e outros países do Ocidente. Dois fatos fortuitos permitiram que o Ocidente tomasse conhecimento do Sindicato Solidariedade, o primeiro sindicato independente do Partido Comunista, surgido em 1980. O primeiro foi o relaxamento das restrições às entradas e saídas do país após 1978, quando o polonês Karol Wojtyla tornou-se o Papa João Paulo II. O segundo foi o fato de ser situado numa cidade que é um importante porto internacional (Gdansk).

Durante a Guerra Fria cerca de 3,45 milhões de pessoas deixaram o Leste Europeu. Foi para conter tal êxodo que o Muro de Berlim foi erguido, como um projeto conjunto entre a Alemanha Oriental e a União Soviética. Foi construído em etapas que começaram em 1961 e terminaram em 1980. Inicialmente o muro era uma monstruosidade de concreto armado e arame farpado, numa extensão de 165,7 quilômetros. A última construção consistiu de blocos de concreto atingindo 3,6 m de altura e com uma espessura de 1,2 m, com uma tubulação lisa no topo para impedir que as pessoas escalassem o muro. Pelo menos 136 pessoas morreram em tentativas de vencer a barreira do Muro de Belém, tendo sido mortos pelos guardas armados, explosões de minas, ou afogamento no rio Spree. Estima-se que entre 1950 e 1988, quatro milhões de alemães do lado leste imigraram para o lado oeste, 86 % destes antes da construção do Muro de Berlin.

Os intelectuais que deixaram o Leste Europeu e se fixaram no Ocidente procuraram alertar o Ocidente sobre a repressão do outro lado da Cortina de Ferro, mas suas vozes raramente eram ouvidas. Um desses intelectuais foi o filósofo polonês Leszek Kolakowski (1927-2009), professor de filosofia da Universidade de Cracóvia, que foi expulso da Polônia em 1968. Além de deixar uma extensa obra de crítica ao Marxismo, Kolakowski analisou o paradoxo da sociedade liberal, ou seja, a tendência de se tornar o seu próprio inimigo devido à sua liberdade de expressão e à sua tolerância às forças capazes de destruir as liberdades individuais.

Não se pode negar que durante a Guerra Fria ambos os Estados Unidos e a União Soviética portaram-se como superpoderes imperialistas. Entretanto, os imperialismos da União Soviética e dos Estados Unidos eram iguais. O imperialismo americano era indireto e baseado no poderio econômico das grandes empresas, ao passo que o imperialismo da União Soviética era direto e político.


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A Nova Esquerda

A Nova Esquerda surgiu em 1968 no meio universitário. Um dos seus principais teóricos foi o filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979), um professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em São Diego. A Nova Esquerda foi um produto da conjuntura política do ano de 1968, marcado não só pela impopular Guerra do Vietnã mas também por dois grandes cataclismos sociais: o assassinato de Martin Luther King Junior (1929-1978) e a Primavera de Praga.

Martin Luther King Junior, um pastor da igreja Batista e um dos principais líderes do Movimento por Direitos Civis nos Estados Unidos, havia se notabilizado pelo seu famoso discurso ‘Eu Tenho um Sonho’ (I Have a Dream) durante a Grande Marcha de Washington de 28 de agosto de 1963, que ele havia ajudado a organizar, bem como por ter ganho o Prêmio Nobel da Paz em 1964 Martin Luther King. O seu assassinato, em quatro de abril de 1968, marca o início do processo de câmbio da liderança da Esquerda, dos sindicatos laborais para os estudantes universitários.

Três semanas depois do assassinato de Martin Luther King, os alunos da Universidade de Columbia, no estado de Nova Iorque, colocaram abaixo a cerca da obra de um novo ginásio de esportes, por considerar racista a decisão de colocar apenas uma porta de fundos no lado do ginásio voltado para o bairro negro do Harlem, e começaram a ocupar setores da universidade incluindo a sala do reitor, situada na Baixa Biblioteca. Funcionários da universidade pediram aos estudantes que saíssem, mas como isso não ocorreu, a polícia foi chamada. A ocupação durou diversos dias e os protestos persistiram por diversas semanas.

A primavera de Praga ajudou a completar a passagem da liderança da Esquerda dos sindicatos laborais para as universidades. A Nova Esquerda fez valer seu poder durante as décadas de 1970 e 1980, quando esteve no centro da Guerra das Culturas do meio acadêmico americano. A ideologização da academia levou a uma série de erros de julgamento que fizeram diversas disciplinas das ciências humanas retroceder. Tais erros foram apontados no final da década de 1980 por diversos acadêmicos como Edward Wilson, Steve Pinker e Alan Bloom. A ideologização da academia possivelmente causou outros danos ligados à prática do ‘gate-keeping’ (vigilância da entrada), designação dada ao sistema criado nos Estados Unidos para impedir o ingresso na academia de indivíduos que não faziam parte do clube da Nova Esquerda.

O ano de 1968 ficou marcado pela grande quantidade de demonstrações estudantis que pipocaram em todas as grandes capitais do Ocidente. Embora os estudantes de cada país tivessem as suas próprias listas de descontentamentos, não há dúvidas de que o movimento estudantil de todo o mundo estava conectado. Em Paris, onde a agitação estudantil havia começado em março e se tornado visível no dia 3 de maio, o descontentamento girava em torno do arcaísmo do sistema de ensino superior e com a falta de oportunidades de empregos. Na Itália, o estopim do descontentamento foi o assassinato do ex Primeiro Ministro Aldo Mouro, líder do Partido Democrata Cristão, que havia sido sequestrado no dia 16 de março. Os estudantes e os intelectuais resolveram agir contra o autoritarismo do Estado, uma herança do fascismo. Na Alemanha, o descontentamento também girava em torno do fascismo estatal, mas foi levantado por grupos de jovens conhecidos como a gangue de Baader-Meinhof. Na América Latina também houve protestos estudantis no Chile, Argentina, México e Brasil, que envolveram tanto estudantes de universidades quanto estudantes secundaristas. No Brasil os protestos giravam em torno da repressão política da ditadura militar e da liberação sexual.

A primavera de Praga ajudou a completar a passagem da liderança da Esquerda dos sindicatos laborais para as universidades. A Nova Esquerda fez valer seu poder durante as décadas de 1970 e 1980, quando esteve no centro da Guerra das Culturas do meio acadêmico americano. A ideologização da academia levou a uma série de erros de julgamento que fez diversas disciplinas das ciências humanas retroceder. Tais erros foram apontados no final da década de 1980 por diversos acadêmicos como Edward Wilson, Steve Pinker e Alan Bloom. A ideologização da academia possivelmente causou outros danos ligados à prática do ‘gate-keeping’ (vigilância da entrada), designação dada ao sistema criado nos Estados Unidos para impedir o ingresso na academia de indivíduos que não faziam parte do clube da Nova Esquerda.

Hoje em dia a Nova Esquerda é um anacronismo. Desprezada nos países mais industrializados do Ocidente, a Nova Esquerda encontrou refúgio na América Latina, onde virou um pasticho de ideologias e doutrinas que as lideranças demagógicas têm todo o interesse de preservar.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: http://www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.