Sobre o livro Rumo à Estação Finlândia (1940) de Edmund Wilson

Jo Pires-O’Brien

O livro Rumo à Estação Finlândia (1940) de Edmund Wilson (1895-1972) é uma das leituras favoritas dos socialistas latino-americanos. Wilson foi um jornalista, periodista, escritor e crítico de sucesso nos Estados Unidos, renomado pela precisão e clareza do seu estilo. Este livro é um interessante apanhado da história do socialismo, incluindo mini-biografias Karl Marx e os seus antecessores, como Vico, Michelet, Fourier, Saint-Simon e LaSale; mostra como Marx e sua doutrina influenciaram Lênin, Trotsky, Stalin (Estaline) e os outros intelectuais que fizeram a Revolução Bolchevista em outubro de 1917.

Wilson foi um dos mais importantes articuladores do progressivismo de esquerda nos Estados Unidos, quase todos os comunistas e seguidores do socialismo soviético. Ele tinha resolvido escrever um livro sobre o novo regime da União Soviética, o livro que ele acabou dando o título de Rumo à Estação Finlândia . Wilson já tinha gasto muitas horas de trabalho no livro acima mencionado, quando tomou ciência das atrocidades do regime de Stalin. Ele decidiu visitar a Rússia para verificar por si próprio, e de lá retornou desencantado em 1938.

De volta aos Estados Unidos, o próprio Wilson admitiu aos amigos que a situação na Rússia era pior que na época do Czar.  Mas, a época era da depressão econômica e ele precisava de dinheiro. Wilson sabia que tinha um público cativo de seguidores que certamente comprariam o seu livro. Por que jogar fora um manuscrito no qual já havia investido tantas horas? A fim de apaziguar a própria consciência, Wilson eliminou do seu manuscrito um capítulo sobre Stalin e concluiu a narrativa com a chegada de Lênin e dos revolucionários exilados na Estação Finlândia de São Petersburgo. E foi assim que Wilson resolveu intitular o seu livro Rumo à Estação Finlândia .

Na ocasião da publicação de Rumo à Estação Finlândia uma das mais contundentes críticas recebidas foi sobre o fato dele ter feito uma descrição humanitária e benevolente de Lênin, o que resultou da sua falha em consultar a principal biografia de Lênin, de Mark Landau Aldanov, cuja tradução inglesa havia sido publicada em 1922.

Novas edições do livro Rumo à Estação Finlândia foram lançadas, e o livro foi traduzido para diversas línguas. Apenas na edição de 1971 é que Wilson, já com seus 76 anos, escreveu uma nova introdução ao livro, admitindo ter errado no seu julgamento da Revolução Russa e do regime por esta implantada, e, que o livro representa a sua maneira de pensar na ocasião que o escreveu.

A decisão de Wilson de publicar Rumo à Estação Finlândia foi desonesta e baseada no desejo de ganhar dinheiro.  E, as elevadas credenciais do autor são agravantes da falta moral cometida.  O erro admitido no prefácio da edição de 1971 não bastou para remover a mancha da sua desonra, pois, veio tarde demais para conter os estragos da disseminação da ideologia marxista.

No Brasil, assim como em todos os países da América Latica e quiçá da África, a ideologia marxista foi nutrida por intelectuais como Edmund Wilson. Rumo à Estação Finlândia é um dos livros de cabeceira de muitos indivíduos de inclinação marxista de todo o mundo. Será que esses indivíduos conhecem a retratação feita por Wilson no prefácio da edição de 1971?


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O rebranding do Marxismo

Jo Pires-O’Brien

No início da segunda metade do século XIX o Marxismo competia com outros tipos de socialismos e com o anarquismo. Todos esses movimentos de esquerda giravam em tono dos direitos dos trabalhadores como o direito de se organizar e o direito a ter tempo livre para gastar. O Marxismo marcou três gols na competição com os demais tipos de socialismo que existiam. O primeiro gol foi a contagiante indignação de Marx sobre maneira como viviam os trabalhadores na Inglaterra, que ajudou o movimento trabalhista de toda a Europa. O segundo gol foi a eliminação da competição, quando quase todos os insurgentes da Comuna de Paris foram mortos durante a rebelião de 18 de março a 28 de maio de 1871. O terceiro gol foi o ‘rebranding’ do Marxismo como uma ciência, ocorrido na década de 1890.

A considerável melhora nas condições dos trabalhadores britânicos no último quarto do século XIX, fez com que a ‘lei da incrementação da miséria’ de Marx perdesse a sua validade. Entretanto, isso não foi suficiente para desconvencer os Marxistas de carteirinha. Nessa altura, a revolução Marxista da Rússia, onde as mesmas melhorias nas condições do trabalho ainda não haviam ocorrido, já estava em plena fase de planejamento.

Em 1895, o ano da publicação do segundo volume de O Capital, cujo subtítulo é O processo de circulação do capital, o Marxismo já era a ideologia dominante na Rússia. A implicação disso é que os intérpretes russos de Marx já haviam feito as suas próprias interpretações sobre a teoria do trabalho de Marx, e essas eram, na maioria, incorretas. E no início do século XX, os Marxistas russos tinham diversas visões desencontradas acerca da teoria de Marx.


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Os erros de Marx e do Marxismo

Jo Pires-O’Brien

O Marxismo inclui os erros de Karl Marx (1818-83) e o de seus intérpretes. Um dos principais erros de interpretação de Marx é a ideia de que o mesmo se trata de uma ciência. Um dos intérpretes de Marx traduziu incorretamente a palavra alemã ‘Wissenshaft’ que Marx havia usado em relação à história, como ‘ciência’, quando a palavra correta em alemão para ciência é ‘Naturwissenshaft’. Assim, Marx possivelmente não quis dizer que sua tese era uma ‘ciência’ mas sim ‘um corpo de conhecimentos sobre a história’.

Embora Marx tivesse descrito a sua teoria política socialista como sendo um ‘materialismo dialético’, o adjetivo ‘dialético’ não significa ‘método científico’ conforme sugerido por alguns dos seus intérpretes. Embora a filosofia clássica se refere ao método da dialética que consiste em juntar e ordenar materiais à fim de gerar uma proposição lógica ou tese, a dialética que Marx empregou foi aquela usada na filosofia moderna pelo filósofo de Georg William Friedrich Hegel (1770-1831) para explicar o modo de desenvolvimento dinâmico da história de acordo com evoluções sucessivas de sínteses resultantes de choques entre teses e antíteses.

Marx foi o terceiro filósofo de renome a utilizar a dialética Hegeliana. Antes dele vieram Ferdinand Baur (1792-1860) que a empregou para explicar a evolução das religiões e o aperfeiçoamento do cristianismo, e Ludwig Feuerbach (1804-72), que viu Deus como sendo uma projeção humana cujos atributos de razão e amor são também essencialmente humanos. Marx adaptou a dialética Hegeliana para a história da economia a fim de criar a sua ‘concepção materialista da história’, ‘materialismo histórico’ ou ‘materialismo dialético’ – uma ‘ciência’ das leis gerais do movimento do mundo exterior onde a explicação do mundo é feita com base exclusivamente na matéria (excluindo a religião e o supernatural).

A partir dessa tese do desenvolvimento dinâmico da história econômica de acordo com evoluções sucessivas de sínteses resultantes de choques entre teses e antíteses, Marx criou as suas duas ‘leis’ sobre o sistema econômico, a lei da concentração de capital e a lei da incrementação da miséria, a partir das quais ele profetizou que a humanidade caminhava numa trajetória que ia do feudalismo ao socialismo, passando primeiro pelo capitalismo:

À medida que os capitalistas se tornam cada vez mais ricos, a quantidade dos mesmos diminui e a quantidade de trabalhadores fica cada vez maior. A miséria destes últimos fará com que se tornem revolucionários radicalizados. A revolução social que irão gerar destruirá todos os capitalistas e em consequência disso a paz na terra será restituída.

Apesar de altamente inteligente e capaz, Marx cometeu muitos erros na sua teoria socialista. O Capital, a sua obra seminal, falhou em pormenorizar como a revolução do proletariado deveria ser conduzida, e como o governo do proletariado deveria redistribuir terras e bens, evitando a emergência de uma nova classe dominante. Os enormes intervalos entre o ‘Manifesto Comunista’ e publicação dos dois volumes de O Capital, também geraram uma série de erros de interpretação que permaneceram na ideologia Marxista.


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Uma visão geral do Marxismo

Jo Pires-O’Brien

O Marxismo é uma doutrina socialista que inclui a teoria política socialista de Karl Marx e Friederich Engels esboçada no ‘Manifesto Comunista’,  publicado em 1848, nos dois volumes de O Capital, de Marx, publicados em 1867 e 1895, e um enorme conjunto de interpretações feitas por diversos autores. Basta olhar para as datas dessas três publicações para constatar que houve um enorme intervalo entre as mesmas. Tais intervalos acomodam gerações diferentes do público alvo de Marx e Engels, no caso os trabalhadores. A mensagem foi transmitida às colherinhas: O Manifesto Comunista foi só um esboço grosseiro do Marxismo.

O primeiro volume de O Capital cujo subtítulo é Uma Crítica da Economia Política, introduziu o termo capitalismo e o apontou como sendo o bode expiatório das injustiças sociais. A condenação de Marx acirrou os ânimos das lideranças dos trabalhadores e de todos que haviam se convertido pelo Manifesto Comunista. Marx ainda não havia dado nenhum pormenor relevante sobre a sua teoria política, que viria no segundo volume, mas mesmo assim seus seguidores começaram a publicar artigos sobre o assunto.

O Marxismo já havia se espalhado por toda a Europa quando o segundo volume de O Capital foi publicado em 1895. O Papa Leão XIII, cujo papado se entendeu de 1878 a 1903, expressou a sua preocupação com a enorme aceitação do Marxismo entre os intelectuais europeus na encíclica Aeterni Patris de 1879 na qual execrou “aqueles princípios da nova ordem que são bem conhecidos por serem perigosos à ordem pacífica das coisas e à segurança pública”, afirmando que as suas noções seculares de progresso eram corrosivas e indefensáveis. Mais tarde, ao perceber a enorme atração da classe trabalhadora pelo socialismo, Leão XIII escreveu a encíclica contemporizadora Rerum Novarum, que advertia aos trabalhadores cristãos a que unissem suas forças para repelir aquelas associações que fossem injustas e intolerantes, formando as suas próprias associações e rejeitando a militância revolucionária, pois “é do interesse da comunidade bem como do indivíduo, que a paz e a boa ordem sejam mantidos; que tudo seja conduzido de acordo com as leis de Deus e as da natureza”. Na mesma encíclica o papa reafirma também o direito à propriedade: “O direito de possuir bens privados deriva da natureza, e não do homem; e o Estado tem o direito de controlar o seu uso no interesse apenas do bem público, mas de nenhuma forma absorvê-lo totalmente”.

O cerne da teoria socialista de Marx somente foi divulgada no segundo volume de O Capital, intitulado O Processo de Circulação do Capital, que saiu 47 anos depois do ‘Manifesto Comunista’ e 28 anos após o primeiro volume. Além da demora da publicação do segundo volume de Marx, outro problema do desenvolvimento do Marxismo foi o fato de O Capital haver sido publicado originalmente em alemão. Até sair a tradução de O Capital para o inglês e o francês, as duas línguas mais faladas em todo o mundo, todos os intérpretes iniciais de Marx eram falantes de alemão, enquanto a maior parte dos convertidos do Marxismo se encontravam fora da Alemanha.
Em adição aos problemas citados, Marx cometeu erros de lógica na sua teoria, ao reunir fatos isolados, especular as suas causas e emitir um julgamento altamente parcial. Um juiz mais sábio teria atribuído as más condições dos trabalhadores a problemas de dentição que seriam eventualmente sobrepujados, uma vez que a indústria era um fenômeno novo no mundo. Os intérpretes de Marx se enganaram em diversos pontos e o movimento laboral absorveu todos esses erros e cometeu outros.

Com os problemas acima descritos, era impossível criar uma teoria sociológica séria em torno das ideias de Marx. O Marxismo tornou-se uma doutrina ideológica perigosa não só pela enorme apelação da sua promessa de uma sociedade perfeita mas também por tolerar o uso da violência como meio para chegar à mesma. É fato inquestionável que a maior parte dos conflitos mundiais que se desenrolaram durante o século vinte foram causados pelo Marxismo.


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