A idade da desonestidade. O pós-modernismo é errado porque é falso

Joaquina Pires-O’Brien

Modernidade e a pós-modernidade

A modernidade e a pós-modernidade são concepções diferentes do mundo. Enquanto que a modernidade baseia-se no Iluminismo e nos avanços do racionalismo e da ciência, a pós-modernidade baseia-se na ruptura com o Iluminismo e com o rigor do racionalismo e da ciência. Dentro da concepção da modernidade surgiu a escola linguística estruturalista, que ao ser absorvida por outras disciplinas das humanidades e das ciências sociais gerou uma visão geral do mundo baseada no conhecimento e na realidade, a qual passou a ser chamada de estruturalismo.  Dentro do estruturalismo surgiram dissidências, as quais não lograram criar uma visão explícita que merecesse o nome de escola filosófica, mas mesmo assim passou a identificar-se como pós estruturalismo. A abordagens respectivas da modernidade e da pós-modernidade confundem-se com essas, e por essa razão, modernidade e estruturalismo viraram sinônimos, assim como pós-modernidade e pós-estruturalismo.

Pós-modernismo, descontrucionismo e construtivismo

O pós-modernismo é uma ideologia ambígua e difícil de definir, a não ser pelo seu objetivo de destruir a modernidade e substituí-la pela pós-modernidade marxista. O motivo pelo qual o pós-modernismo é ambíguo é esconder a sua falsidade. É por essa mesma razão que Jordan Peterson descreveu o pós-modernismo como sendo o marxismo com pele nova.

A falsidade do pós-modernismo está tanto no seu método de destruir a civilização ocidental moderna, através da destruição de suas metanarrativas como o Iluminismo, a racionalidade, a ciência, etc., quanto no seu método de falsificar realidades. Esses dois métodos são chamados deconstrucionismo e construtivismo. Os seus respectivos alvos são a modernidade e a pós-modernidade.

Desconstrucionismo é o processo de aviltamento das coisas características do modernismo através do ataque às suas metanarrativas, reduzindo-as a sequências arbitrárias de sinais linguísticos ou palavras, e em seguida substituindo significados originais por outros, para finalmente concluir que nenhuma interpretação dessas sequências de palavras é mais correta que outra.

Construtivismo é o processo de criar abstrações – constructos – através da retórica. Embora existam certos constructos que são normalmente aceitos, como por exemplo, Estado, dinheiro, lei, e identidades nacionais, o construtivismo da doutrina do pós-modernismo é radical, irracional e desonesto, pois baseia-se na premissa de que tudo é uma questão de semântica.

O desconstrucionismo começou no meio da intelectualidade francesa marxista, sendo Jacques Derrida (1930-2004) o pai reconhecido desse movimento.  Inicialmente o desconstrucionismo era uma forma de crítica literária, mas ao ser absorvido pelas humanidades e ciências sociais, passou a ter outras aplicações. Derrida acreditava que o pensamento ocidental foi viciado desde a época de Platão por um tumor que ele chamou de ‘logocentrismo’, referindo-se à suposição de que a linguagem descreve o mundo de maneira bastante transparente. Na visão de Derrida, a descrição do mundo através da linguagem é uma ilusão, e a própria linguagem não é imparcial e as palavras nos impedem de realmente experimentar a realidade diretamente. O que Derrida quer, é derrubar a crença em uma realidade externa objetiva que pode ser explorada através da linguagem, da racionalidade e da ciência, e mostrar que a grande narrativa do Iluminismo não passa de um conjunto de delírios. O método de Derrida para destruir a linguagem é a desconstrução – uma técnica que nos faz ver que os ‘significantes’ – as palavras em si no sistema saussureano – são tão ambíguos e mutáveis que podem significar alguma coisa ou nada.

A ideia original do construtivismo antecede a modernidade, mas o primeiro autor contemporâneo a empregá-la foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), para descrever o modo como as crianças criam um modelo mental do mundo. Embora os pós-modernos parecem gostar da ligação com Piaget, o construtivismo piageteano é positivo enquanto que o  construtivismo pós-moderno é negativo. O construtivismo piageteano afirma que o conhecimento é algo construído pelo indivíduo com base em suas interações com o mundo físico e o mundo social. O construtivismo dos pós-modernos afirma o conhecimento é algo socialmente construído. A fim de distinguir o construtivismo pósmodernista do construtivismo piageteano o primeiro passou a ser conhecido como construtivismo social ou socioconstrutivismo.

A que veio o pós-modernismo?

O pós-moderismo veio para fazer a revolução marxista por debaixo do pano.  As suas principais armas são o desconstrucionismo, usado para aviltar o racionalismo e a ciência, e o socioconstrutivismo, usado para criar grupos de identidades políticas e lideranças, através de imagens e figuras de retórica. A estratégia do pós-modernismo e criar subliminarmente uma disposição ou mentalidade pós-moderna, ou um Zeitgeist  pós-moderno.

O objetivo do marxismo era criar uma sociedade ideal, mas tal sociedade ideal só podia existir na prancheta, pois a tentativa de implementá-la gerou tiranias genocidas. O pós-modernismo também rejeita a realidade e anseia por uma realidade idealizada.

Na mentalidade pós-moderna, realidade é aquilo que é falado, e o melhor caminho para ser falado é aparecer na mídia. É daí que veio a obsessão com fama e famosos. A mentalidade pós-moderna anseia por identidades fortes pois são um caminho para o poder.  Entretanto, a identidade genuína do indivíduo, aquela baseada nas habilidades cognitivas e na bagagem cultural do indivíduo, nem sempre é forte, e por essa razão foi abandonada. Na mentalidade pós-moderna, a identidade e definida pela ‘persona’ – “uma espécie de máscara, desenhada com o duplo motivo de conferir uma impressão firme junto aos demais, e ocultar a verdadeira natureza do indivíduo,” conforme mostrada pelo psiquiatra suíço Carl Jung.

Consequências ruins do pós-modernismo

No Zeitgeist da pós-modernidade a autenticidade saiu de moda e as pessoas preocupam-se mais com aparência do que com substância.

No Zeitgeist pós-moderno, a perda da genuinidade do indivíduo veio acompanhada da perda da espontaneidade dos processos sociais, e uma das consequências não intencionadas disso é a diminuição da confiança social, que por sua vez leva a dois erros de julgamento: valoriza quem não merece ser valorizado, e deixar de valorizar quem merece. Tais erros de julgamento equivalem a enormes perdas para a sociedade, em termos de capital humano desperdiçado.

O começo do mundo pós-moderno

O começo do mundo pós-moderno pode ser traçado à década de 1960, quando as fronteiras entre alta e baixa cultura foram esfumadas. Isso permitiu a emergência da Pop Art e o seu assentamento como uma forma de poder popular. Um de seus líderes, Andy Warhol (1928-1987), prognosticou que “no futuro, todos serão mundialmente famosos por quinze minutos”.

Um dos alvos importantes do pós-modernismo foi o conceito de identidade nacional, que foi esfumado e largado de lado, e substituído pelas novas tribos formadas por grupos de identidade política. Não contente em destruir a identidade nacional, o pós-modernismo destruiu também a identidade civilizacional da América Latina. Muitos latino-americanos tomam por certo que a América Latina faz parte da Civilização Ocidental, uma vez que todos os seus países foram colonizados por europeus. Poucos latinoamericanos notaram que o cientista político Samuel Huntington (1927-2008) optou por listar a América Latina como uma civilização aparte ao invés de incluí-la na Civilização Ocidental, no seu livro Clash of Civilizations (A colisão das civilizações; 1997). A justificativa de Huntington é de que a América Latina não preencheu os critérios a priori para afiliação ao Ocidente. Em termos de identidade nacional, os países latinoamericanos sofrem de uma neurótica dissonância cognitiva formada pelo desejo simultâneo de pertencer à Civilização Ocidental e às suas respectivas culturas indígenas.

Em todo o lugar onde o pós-modernismo se encontra, a sua entrada ocorreu de forma sorrateira. Na América Latina, alojou-se inicialmente nas universidades, principalmente nas humanidades e ciências sociais, e de lá passou para as organizações não governamentais (ONGs) e para os grupos de identidade política.

O socioconstrutivismo

O socioconstrutivismo passou a ser um fenômeno comum na América Latina a partir da década de 1980, quando heróis e heroínas foram artificialmente criados. O método do  socioconstrutivismo consiste de cinco etapas principais: (i) escolher causas simpáticas como a defesa de florestas, de animais, e de grupos oprimidos; (ii) a cooptar lideranças a partir de bases conhecidas; (iii) aumentar os perfis dessas lideranças, persuadindo jornalistas a publicar matérias sobre as mesmas; (iv) indicar as lideranças escolhidas para participar de organizações de doadores de recursos; e (v) indicar as lideranças escolhidas para prêmios disponíveis e fazer lobby a favor das mesmas junto às instituições premiadoras.

 A escolha da causa requer cuidado e atenção. Por exemplo, no caso de uma ONG ligada à causa dos indígenas, as tribos mais coloridas e que ainda praticam suas danças e cerimônias são mais promissores que aquelas que são menos coloridas e mais aculturadas. Uma vez escolhida a causa, o próximo passo é escolher os indivíduos mais promissores em termos de aparência e maleabilidade para serem promovidos junto à mídia.

As maquinações de bastidores para construir lideranças e para atrair o interesse de jornalistas são aéticas, o que gera o perigo de whistle blowers ou denunciantes, que não aceitam que um objetivo nobre justifica mentiras e meias verdades. Entretanto, o socioconstrutivismo tem uma capa de proteção contra denunciantes, fazendo com que qualquer crítica à administração financeira da ONG ou às suas mentiras e meias verdades sejam percebidas como um ataque vil à própria causa, isto é, ao grupo oprimido, à floresta, ou ao animal carismático, fazendo com que o crítico seja taxado de racista e coisas piores.

Um dos poucos exemplos que chegou a ser noticiado na imprensa internacional foi a história da jovem guatemalteca Rigoberta Menchú, que foi transformada numa heroína de sua tribo e que em 1992 ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Entretanto, quando o antropólogo David Stoll decidiu avaliar o mérito de Menchú, descobriu que a sua narrativa do genocídio do seu povo, no início da década de 1980, no livro autobiográfico I, Rigoberta Menchú (Verso, 1984), estava repleto de inconsistências e até mentiras, e que o mesmo livro, editado com a ajuda de diversas pessoas, tinha uma agenda, de ajudar a guerrilha à qual Menchú havia se juntado em 1981. Stoll publicou os seus achados no livro Rigoberta Menchú and the Story of All Poor Guatemalans (1999), mas a verdade que expôs foi ignorada e ele próprio acabou taxado de inimigo dos indígenas.  O que aconteceu a David Stoll passou a desencorajar qualquer denúncia semelhante. Foi uma evidência da capa de proteção do sociocontrutivismo, análoga à dos vírus.

As pessoas ordinárias, que subentendem aquilo que é conhecido como o público, têm o dever de manter-se atentas ao que acontece a seu redor. A pergunta que devem fazer é “o socioconstrutivsmo é bom para quem?”

i) O socioconstrutivsmo é bom para os indivíduos oprimidos a quem defendem?

O paternalismo do sociocontrutivismo faz com que o indivíduo oprimido continue oprimido, pois tira-lhe as chances de ser ele próprio, e de crescer e amadurecer.

ii) O socioconstrutivsmo é bom para a sociedade?

 Mentiras e meias verdades corroem a confiança dentro da sociedade, gerando uma sociedade de baixa confiança, a qual é extremamente desfavorável ao desenvolvimento econômico.

iii) Quem ganha com o socioconstrutivsmo?

Quem ganha com o socioconstrutivismo são os próprios sócioconstrutivistas, que ganham os ouvidos das autoridades e espaços nos círculos do poder.

Conclusão

O pós-modernismo é o próprio marxismo com outra pele. Os dois empregam a mesma linguagem de ressentimento, raiva e inveja. Enquanto que o marxismo tradicional exaltava a destruição do capitalismo que ocorreria em decorrência da revolução socialista, o pós-modernismo (ou neomarxismo), planejou e fez a sua revolução na surdina. A revolução do pós-modernismo foi um sucesso e a prova disso é que a própria civilização Ocidental é a sua prisioneira. O Zeitgeist pós-moderno onde vivemos pode ser descrito pelo relativismo cultural, o aviltamento da sociedade maior através de sua fragmentação em grupos de identidade políticas, a falta de genuinidade e espontaneidade, e as fabricações. As suas armas mais potentes, o desconstrucionismo e o socioconstrutivismo, servem às suas lideranças, que fingem servir às mais diversas causas sociais. A sociedade como um todo não ganhou nada com o pós-modernismo, mas perdeu muita coisa, desde a genuinidade das pessoas e a própria espontaneidade, até a confiança entre os seus cidadãos.  O pós-modernismo é errado por diversos motivos, mas o principal deles é a falsidade.

Joaquina Pires-O’Brien é brasileira e reside na Inglaterra. Desde 2010 é editora da revista cultural PortVitoria, dedicada à cultura ibérica no mundo, com conteúdo em português, espanhol e inglês. Acessar: www.portvtoria.com

Recessões e surtos de socialismo

Jo Pires-O’Brien

Desde a Grande Depressão que se instalou nos Estados Unidos e no mundo após a Sexta-Feira Negra de novembro de 1929, todas as recessões econômicas provocaram surtos de socialismo nos países de economia capitalista. A recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos não foi diferente. Uma ação típica do socialismo foi a intervenção governamental para salvar os bancos em dificuldades financeiras. As normas de mercado que regem o capitalismo apontam outro tipo de ação, no caso, deixar que os bancos solucionem eles próprios seus problemas, o que os torna mais resilientes a ameaças futuras similares.

A mesma recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos chegou à Europa e América Latina em 2009, onde também desencadeou surtos de socialismo. Na Europa, os cidadãos dos países cujas economias mais encolheram, como a Grécia, Espanha, França e Itália, continuaram esperando o mesmo nível de assistência social da época favorável, dificultando a implementação de medidas econômicas de prazo mais longo. A recessão econômica na América Latina é possivelmente a mais terrível do mundo. Só quem ganhou com ela foram os partidos de esquerda como o Partido dos Trabalhadores do Brasil, que prometeu manter os programas de assistência social criados durante o boom dos primeiros anos do século XXI.

Em 4 de julho de 2012, Stuart Jeffries escreveu na versão online do jornal de esquerda britânico The Guardian um artigo intitulado ‘Why Marxism is on the rise again’ (Porque o Marxismo está subindo de novo). Jeffries chama a atenção para o fato de que os jovens são os mais interessados no renascer do Marxismo. O apelo socialista não se restringe aos partidos socialistas. O atual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, escolhido em setembro de 2015, é um defensor aberto do socialismo. Corbyn foi citado nesse mesmo ano pelo jornal inglês The Mirror como tendo afirmado que o socialismo ‘é uma maneira óbvia de viver. As pessoas cuidam uns dos outros, todo mundo é cuidado, e todos cuidam de todos. Óbvio não?’ (… ‘is an obvious way of living. You care for each other, you care for everybody, and everybody cares for everyone else. It’s obvious, isn’t it?’)

Os especialistas creem que a economia global se encontra numa encruzilhada que tanto pode levar ao retorno do crescimento quanto a mais recessão. A melhor alternativa prevê um crescimento continuado, porém pequeno, pelo menos no tocante aos próximos anos. Entretanto, o motor desse crescimento não é a besta do socialismo e sim a besta do livre mercado.

***Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês, mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.

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Apresentação do blog ‘Armadilhas do Marxismo’

Jo Pires-O’Brien

A sociedade brasileira deixou na minha lembrança algumas obscuridades inquietadoras que eu resolvi tentar compreender à luz da distância física e do tempo. Uma dessas obscuridades tem a ver com o fracasso na comunicação com uma certa categoria de indivíduos que me pareciam refratários à troca de ideias. Talvez para diminuir o desassossego da omissão do refrator, eu havia assumido a culpa, atribuindo a falha de comunicação à própria inépcia.

No desenrolar do meu projeto de passar a limpo o passado, descobri que eu não era a única pessoa a se frustrar com o fracasso da comunicação com pessoas refratárias. Descobri que o filósofo Karl Raymond Popper (1902-94) havia experimentado algo parecido, quando disse: “Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere nos matar a ser convencido pelos nossos argumentos”. Popper atribuiu à doutrinação ideológica a barreira das pessoas à argumentação, e procurou mostrar que o Marxismo foi a ideologia que mais causou incompreensões, divisões e conflitos durante todo o século vinte. Segundo Popper, a desinclinação para ouvir argumentos e reavaliar posições faz parte da atitude do irracionalismo, o único problema realmente sério da humanidade.

Popper mostrou como Marx abusou da história para construir as suas falsas leis profetícias da sociedade perfeita. No tocante ao experimento do socialismo Marxista que se estendeu na União Soviética de 1917 até 1991, a própria história deu o parecer final: “os 74 anos do período comunista foram um retrocesso à era da obscuridade e resultaram de um enorme erro cometido por dois terroristas chamados Lênin e Trotsky” Essa frase condensa a narrativa histórica do período comunista, conforme descrito pelos museus de história contemporânea da Rússia, de acordo com o relatório de uma viagem Rússia publicado em 2010 em Contemporary Review.

Tendo aceitado a explicação de Popper sobre o irracionalismo das pessoas refratárias, resolvi escrever este blog sobre os enganos do Marxismo e a herança negativa que o socialismo deixou e continua deixando na sociedade. Eu espero mostrar esses enganos através de curtos resumos críticos de fatos e temas selecionados. Embora muitos desses enganos tenham sido causados pela cegueira ideológica, outros tantos foram erros cometidos deliberadamente em nome de um objetivo. Como a revolução internacional dos trabalhadores era absolutamente necessária para acabar com o capitalismo que os oprimia, alguns milhares de vidas e um punhado de violações de direitos humanos pouco representavam em comparação como o grandioso objetivo final. Sem capitalismo e sem propriedade privada, tudo seria de todos; os vícios do ócio e do parasitismo social seriam extirpados por algum decreto do governo; cada qual contribuiria conforme as suas capacidades e receberia conforme as suas necessidades; e como todos os trabalhadores teriam a mesma remuneração, não haveria mais classes sociais. O Marxismo prometeu um paraíso na terra, mas resultou apenas em distopias.

No conjunto das histórias relatadas procurarei mostrar como é injusto comparar regimes políticos da sociedade real com idealizações da sociedade perfeita que o Marxismo prometeu. Nem a melhor democracia liberal, em que há igualdade perante a lei e na qual cada indivíduo é livre para tirar o melhor proveito de suas capacidades e oportunidades, –– com a ressalva de não interferir na liberdade dos outros de usufruir o mesmo direito –– , pode competir com a sociedade de prancheta do socialismo Marxista.

Comentários e críticas construtivas são bem-vindos.


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A rede Comintern-Politburo

Jo Pires-O’Brien

A sociedade perfeita projetada por Marx, conquistou corações e mentes em toda a Europa enquanto que o experimento Marxista na Rússia gerou uma expectativa em todo o mundo de que a revolução dos trabalhadores estava prestes a acontecer.

Lênin (Lenine) era líder do Partido Comunista soviético, cujo Politburo havia convocado a Terceira Internacional Comunista, realizada em 1919 em São Petersburgo, com a participação de representantes de treze países. Como já foi mostrei numa postagem anterior, a Terceira Internacional criou o Comintern a fim de ser o seu braço executivo, responsável pela organização da revolução mundial dos trabalhadores, elegendo Grigory Zinoviev como o seu primeiro presidente. Assim, os dois mandachuvas do movimento internacional revolução dos trabalhadores eram o Comintern, mais o Politburo do Partido Comunista russo.

Diversos países já tinham partidos socialistas antes da criação do Comintern, como a França e a Argentina. Na França, a decisão do partido socialista de se associar ao Comintern foi uma deliberação da reunião realizada em Tours em dezembro de 1920. Entretanto, os partidos comunistas e socialistas sob o guarda-chuva do Comintern, na verdade ficavam sob o Politburo de Moscou. Até o final da década de 1930 a maior parte dos partidos de esquerda de todo o mundo estava sob o guarda-chuva do Comintern e de Moscou.

Nas grandes cidades do Ocidente crescia o número de intelectuais atuantes na promoção do socialismo Marxista. Entretanto, a capital mundial do Marxismo era Paris. Era para lá que convergiam os escritores, poetas, músicos e artistas de todo o mundo que eram simpáticos ao Marxismo. Paris era também um destino frequente dos oficiais do Politburo e do Comintern.

A real extensão da rede mundial do comunismo ligado ao Comintern e ao Politburo soviético entre 1919 e 1943 começou a ser revelada no final da Guerra Fria, quando os arquivos do Kremlin foram disponibilizados à Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, através de um acordo de cooperação bilateral. Desde então, a Biblioteca do Congresso vem coordenando o projeto INCOMKA, voltado à digitação desses arquivos, por nove instituições participantes as quais contam com a colaboração de indivíduos em todo o mundo. Uma das tarefas mais árduas foi converter nomes de pessoas escritos no alfabeto cirílico para o alfabeto latino. Outra tarefa incluía traduzir trechos principais do arquivo do russo para o inglês. O banco de dados do Incomka já se encontra disponível aos usuários da Biblioteca do Congresso e breve deverá ser disponibilizado através da internet.


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As internacionais comunistas

Jo Pires-O’Brien

A publicação do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels em 1848 causou um rebuliço nos movimentos sindicais de todo o mundo. Em resultado do ativismo de Marx e outros teóricos do socialismo, os sindicatos de trabalhadores se organizaram internacionalmente, e, passaram a promover os Congressos Internacionais de Trabalhadores, conhecidos inicialmente como ‘Internacionais’ e mais tarde como ‘Internacionais Comunistas’. Os internacionalistas, como os participantes das convenções internacionais eram chamados, não formavam um grupo uniforme, mas dividiam-se em facções.

O primeiro congresso internacional dos trabalhadores comunistas, também conhecido como Primeira (Socialista) Internacional, teve lugar em Londres, em 1864. O evento excluiu os sindicalistas ligados à organizações anarquistas e elegeu um Conselho Geral, composto de 32 membros, dentre os quais se achava Karl Marx, embora este não estivesse presente na mesma.

Apesar de vir sido planejada desde 1881 a Segunda (Socialista) Internacional ocorrida em Paris em 1889 foi feita em duas reuniões concomitantes, devido à divisão dos congressistas entre o grupo dos Possibilitas e os Marxistas. A maioria dos participantes franceses que apoiava os Possibilitas enquanto que a maioria dos alemães apoiava o Marxismo. Apesar da separação, a Segunda Internacional de 1889 encontrou alguns denominadores comuns: a chamada geral para o pacifismo e o antimilitarismo e a escolha do 1.º de maio para comemorar o dia do trabalhador. Também foi a partir desta reunião que começou o movimento para reduzir para 8 horas o dia de trabalho.

O movimento dos trabalhadores foi interrompido pela Primeira Guerra Mundial quando os diversos partidos socialistas abandonaram o édito do pacifismo e antimilitarismo e apoiaram seus países. Por acreditar que a revolução Marxista era um processo internacional e permanente e que apenas se consolidaria depois que os países industrializados fizessem as suas revoluções de trabalhadores, Lênin se posicionou contra o seu próprio país, pensando que uma Guerra Civil Europeia facilitaria a implantação do regime socialista em toda a Europa. A facção Bolchevista do POSDR (Partido Trabalhista Social Democrata da Rússia) sob o seu comando, deixou claro que não descartaria a violência e a luta armada para a implantação do regime socialista.
Já no poder, Lênin promoveu a terceira convenção internacional dos trabalhadores – designada Terceira Internacional Comunista, e esta criou o Comitê Executivo da Internacional Comunista, Comintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo.

A Terceira Internacional foi a mais famosa de todas as convenções internacionais de trabalhadores, e teve lugar em março de 1919 em Petrogrado – como São Petersburgo passou a ser chamada durante a guerra contra a Alemanha, pois o nome São Petersburgo era considerado demasiadamente teutônico. No evento foi criado o Comitê Executivo da Internacional Comunista, também conhecido como Comintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo. Seu objetivo declarado era ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’. O Comintern se estabeleceu em todo o mundo através da sua coordenadoria em Moscou.

A Quarta Internacional não foi um Congresso como os outros, pois envolveu apenas a facção dissidente ligada a Trotsky, e, não conseguiu reunir nem mesmo os trabalhadores americanos.

A história das Internacionais mostra claramente que eram conduzidas por intelectuais e não por trabalhadores, e que os intelectuais usavam a causa dos trabalhadores para resolver suas disputas de egos. A maioria dos trabalhadores comuns apenas queria viver em paz e dignamente. Até na Rússia os intelectuais que lideraram a revolução tiveram enorme dificuldades de persuadir os trabalhadores que a revolução socialista iria valer a pena para eles. O regime soviético entretanto foi mais chegado a uma autocracia do que à ditadura do proletariado.


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A verdade sobre Stalin

Jo Pires-O’Brien

Algum tempo após a morte de Lênin, em 1924, Stalin (Estaline), que ocupava o cargo de Comissário do Povo, foi elevado no comando supremo da Rússia. Stalin era oito anos mais moço que Lênin e bem mais pragmático que este. Na ocasião em que Stalin chegou poder, a maioria das lideranças do Partido Comunista ainda julgava que era preciso estender a revolução Marxista para o resto do mundo para que a revolução Bolchevique desse certo na Rússia. Stalin decidiu colocar essa ideia de molho a fim de poder resolver o problema da falta de alimentos e outros os problemas graves que teve que enfrentar, introduzindo uma nova postura conhecida como ‘o socialismo de um só país’. Essa postura de Stalin voltada a priorizar os problemas internos, não foi muito bem recebida pelos internacionalistas. Entretanto, o Comintern continuou a sua tarefa de ligar a esquerda de todo o mundo.

Stalin introduziu um regime de repressão sem precedência, caracterizado pela proibição religiosa, prisões arbitrárias, julgamentos de fachada, execuções em massa e campos de trabalhos forçados. O exílio de Trotsky em 1929 foi o primeiro sinal que os ocidentais receberam de que as coisas na União Soviética não estavam indo conforme o esperado. Refugiados russos que chegavam às dezenas na França trouxeram informações frescas sobre as atrocidades de Stalin. Alguns intelectuais resolveram ir à União Soviética para checar por si próprios a situação, como o francês André Gide e o americano Edmund Wilson. Quando retornaram, Gide informou que Stalin havia violado todas as regras da revolução socialista e Wilson admitiu que em termos de democracia a situação na União Soviética era pior que na época do Czar.

Apesar da verdade sobre o regime de Stalin já ter sido divulgada, uma boa parte dos intelectuais do Ocidente persistiram em apoiar o socialismo marxista. Uma das justificativas mais comuns que persiste até hoje é que o socialismo marxista é bom, mas havia sido desvirtuado por Stalin. Até hoje os propagandistas do socialismo marxista usam uma terminologia que embute desculpas para as atrocidades ao mesmo associadas. É muito comum um socialista afirmar que se fosse ele que estivesse no poder as coisas seriam diferentes.


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O Marxismo e os intelectuais

Jo Pires-O’Brien

O Marxismo sempre teve um aliado nos intelectuais, e, quase sempre há um intelectual Marxista mexendo os pauzinhos junto aos trabalhadores da indústria e do campo. Segundo o historiador Robert Service, autor das biografias mais recentes e apuradas de Lênin, Stalin e Trotsky, os conspiradores Marxistas de São Petersburgo que organizaram a revolução Bolchevique, eram todos intelectuais. Lênin lia Marx e as obras sobre o Marxismo e mantinha discussões com outros revolucionários, embora não com os trabalhadores da indústria ou do campo. Embora as discussões dos conspiradores Marxistas de São Petersburgo não incluísse trabalhadores, a questão dos trabalhadores volta e meia vinha à tona. Segundo Service, a facção veterana dos conspiradores, liderada por Stepan Radchenco, chegou a afirmar: ‘nenhum trabalhador tinha condições de fazer melhor do que um intelectual dedicado e bom conhecedor da literatura relevante’. Entretanto, a facção ‘jovem’, que incluía K. M. Takhtarev e Apollinaria Yakubova, defendia a ideia contrária de que os trabalhadores deveriam ter a oportunidade de participar da conspiração. Segundo Service, a postura de Lênin não se encaixava nem na facção ‘veterana’ e, nem na facção ‘jovem’, embora fosse mais próxima de Radchenco do que de Takhtarev e Yakubova. Lênin não tinha objeções a que os trabalhadores ocupassem postos de responsabilidade no movimento Marxista, mas julgava que para isso era necessário que eles recebessem primeiro um embasamento intelectual.

Mesmo antes da Revolução Bolchevista de 1917, o Marxismo já estava presente na Europa Ocidental e nas Américas. Em 1916, quando Trotsky chegou a Nova Iorque com a família vindo da Espanha, de onde havia sido expulso, ele foi recebido com honras pela comunidade de imigrantes russos e pela imprensa, e fez diversas palestras nos sindicatos de trabalhadores. Ao tomar conhecimento da Revolução de Fevereiro de 1917 que depôs o Czar e instalou o governo provisório, Trotsky imediatamente providenciou documentos de viagem junto ao consulado Russo e em 27 de março embarcou com a família de volta à Rússia. Cerca de trezentas pessoas foram despedir dele no cais do porto levando bandeirolas e flores, e alguns revolucionários americanos chegaram a comprar passagens no mesmo navio apenas para estar perto dele.

As lucubrações dos intelectuais do Ocidente passaram a um novo patamar a partir de outubro de 1917, quando os bolchevistas derrubaram o Governo Provisório com uma segunda revolução, e introduziram na Rússia o experimento do socialismo Marxista. Esse novo patamar era caracterizado pela expectativa mundial de que se a revolução dos trabalhadores desse certo na Rússia, o socialismo funcionaria ainda melhor nos países industrializados. Na Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá e em toda a América Latina, milhares de intelectuais letrados e cientistas empregaram as suas posições na sociedade para persuadir outras pessoas sobre as promessas do Marxismo. As expectativas gerais eram reforçadas pela propaganda gráfica que chegava da Rússia.

Paris, que já era um ponto de convergência de escritores, poetas, músicos e artistas de todo o mundo passou a ser também a Meca do Marxismo. Muitos intelectuais americanos que haviam trabalhado como voluntários na Europa durante a Primeira Guerra Mundial retornaram à França para conhecer os principais porta-vozes do Marxismo como André Gide, André Malraux e Émile Zola. Ao retornar para os Estados Unidos eles procuraram estender neste país a ideologia do Marxismo. A Tabela 1, a seguir mostra alguns nomes de importantes escritores e pensadores marxistas do século vinte, da França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e América Latina.

Nas Américas, a quebra da bolsa de valores em outubro de 1929 e a subsequente depressão econômica resultante da mesma, representaram uma enorme colher de chá para o Marxismo. Nas próximas eleições presidenciais de 1933, os americanos escolheram Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), que era simpático ao socialismo Marxista. Durante o seu governo, FDR reconheceu a União Soviética, adotou uma política diplomática internacionalista e introduziu o New Deal. Na América Latina, a expansão do Marxismo foi impulsionada não só pela depressão econômica, mas também pela proliferação de centros de novos imigrantes italianos e germânicos.

Tabela 1. Intelectuais marxistas e/ou comunistas Europeus e Americanos da primeira metade do século vinte. Os nomes com asteriscos mostram os intelectuais que posteriormente deixaram de apoiar o socialismo.

 
França Grã-Bretanha Estados Unidos América Latina
Émile Zola G. H. Wells* Edmund Wilson* Jorge Luis Borges*
André Gide* Christopher Hill John dos Passos* Gabriel G. Márquez
Henri Barbusse Bertrand Russell* Norman Mailer Pablo Neruda
Jules de Gaultier George B. Shaw* Max Eastman* Octavio Paz*
André Gorz John Desmond Bernal Ernest Hemingway José C. Mariátegui
André Malraux* Ludwig Wittgenstein Theodore Dreiser Manuel Puig
Paul Nizan* Anthony Burgess William Z. Foster Euclides da Cunha
Lucien Sève George Orwell* Langston Hughes Guimarães Rosa
Pierre Broué Tony Benn John H. Lawson Jorge Amado
Benny Lévy Peter Taaffe James Burnham Mario Vargas Llosa*

 


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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