Recessões e surtos de socialismo

Jo Pires-O’Brien

Desde a Grande Depressão que se instalou nos Estados Unidos e no mundo após a Sexta-Feira Negra de novembro de 1929, todas as recessões econômicas provocaram surtos de socialismo nos países de economia capitalista. A recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos não foi diferente. Uma ação típica do socialismo foi a intervenção governamental para salvar os bancos em dificuldades financeiras. As normas de mercado que regem o capitalismo apontam outro tipo de ação, no caso, deixar que os bancos solucionem eles próprios seus problemas, o que os torna mais resilientes a ameaças futuras similares.

A mesma recessão econômica de 2008 nos Estados Unidos chegou à Europa e América Latina em 2009, onde também desencadeou surtos de socialismo. Na Europa, os cidadãos dos países cujas economias mais encolheram, como a Grécia, Espanha, França e Itália, continuaram esperando o mesmo nível de assistência social da época favorável, dificultando a implementação de medidas econômicas de prazo mais longo. A recessão econômica na América Latina é possivelmente a mais terrível do mundo. Só quem ganhou com ela foram os partidos de esquerda como o Partido dos Trabalhadores do Brasil, que prometeu manter os programas de assistência social criados durante o boom dos primeiros anos do século XXI.

Em 4 de julho de 2012, Stuart Jeffries escreveu na versão online do jornal de esquerda britânico The Guardian um artigo intitulado ‘Why Marxism is on the rise again’ (Porque o Marxismo está subindo de novo). Jeffries chama a atenção para o fato de que os jovens são os mais interessados no renascer do Marxismo. O apelo socialista não se restringe aos partidos socialistas. O atual líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, escolhido em setembro de 2015, é um defensor aberto do socialismo. Corbyn foi citado nesse mesmo ano pelo jornal inglês The Mirror como tendo afirmado que o socialismo ‘é uma maneira óbvia de viver. As pessoas cuidam uns dos outros, todo mundo é cuidado, e todos cuidam de todos. Óbvio não?’ (… ‘is an obvious way of living. You care for each other, you care for everybody, and everybody cares for everyone else. It’s obvious, isn’t it?’)

Os especialistas creem que a economia global se encontra numa encruzilhada que tanto pode levar ao retorno do crescimento quanto a mais recessão. A melhor alternativa prevê um crescimento continuado, porém pequeno, pelo menos no tocante aos próximos anos. Entretanto, o motor desse crescimento não é a besta do socialismo e sim a besta do livre mercado.

***Joaquina Pires-O’Brien é uma brasileira de Vitória residente na Inglaterra, de onde edita a revista eletrônica PortVitoria (www.portvitoria.com) de atualidades, cultura e política, e, centrada na cultura ibérica e sua diáspora no mundo. PortVitoria é estruturada em inglês, mas os seus artigos e saem em inglês, português e/ou espanhol.

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O rebranding do Marxismo

Jo Pires-O’Brien

No início da segunda metade do século XIX o Marxismo competia com outros tipos de socialismos e com o anarquismo. Todos esses movimentos de esquerda giravam em tono dos direitos dos trabalhadores como o direito de se organizar e o direito a ter tempo livre para gastar. O Marxismo marcou três gols na competição com os demais tipos de socialismo que existiam. O primeiro gol foi a contagiante indignação de Marx sobre maneira como viviam os trabalhadores na Inglaterra, que ajudou o movimento trabalhista de toda a Europa. O segundo gol foi a eliminação da competição, quando quase todos os insurgentes da Comuna de Paris foram mortos durante a rebelião de 18 de março a 28 de maio de 1871. O terceiro gol foi o ‘rebranding’ do Marxismo como uma ciência, ocorrido na década de 1890.

A considerável melhora nas condições dos trabalhadores britânicos no último quarto do século XIX, fez com que a ‘lei da incrementação da miséria’ de Marx perdesse a sua validade. Entretanto, isso não foi suficiente para desconvencer os Marxistas de carteirinha. Nessa altura, a revolução Marxista da Rússia, onde as mesmas melhorias nas condições do trabalho ainda não haviam ocorrido, já estava em plena fase de planejamento.

Em 1895, o ano da publicação do segundo volume de O Capital, cujo subtítulo é O processo de circulação do capital, o Marxismo já era a ideologia dominante na Rússia. A implicação disso é que os intérpretes russos de Marx já haviam feito as suas próprias interpretações sobre a teoria do trabalho de Marx, e essas eram, na maioria, incorretas. E no início do século XX, os Marxistas russos tinham diversas visões desencontradas acerca da teoria de Marx.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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