Citações de Alexander Solzhenitsyn

Jo Pires-O’Brien

Citações de Alexander Solzhenitsyn tiradas do seu livro The Gulag Archipellago. Collins/Harvill Press and Fontana, 1974. Traduzido para o inglês por Thomas P. Whitney

“Eu dedico este livro a todos aqueles que não viveram para contar. Que eles por favor me perdoem por eu não ter visto tudo nem lembrado tudo, por não ter adivinhado tudo aquilo.”

“As prisões rolaram pelas ruas e prédios de apartamentos como uma epidemia. Assim como as pessoas transmitem uma infecção contagiosa umas às outras sem saber, pelas maneiras mais inocentes como um aperto de mão, uma expiração, um encontro casual na rua, assim também, elas passaram a infecção das prisões inevitáveis através de um um aperto de mão, uma respiração, um encontro casual na rua. Pois se você estiver destinado a amanhã confessar que organizou um grupo clandestino para envenenar o reservatório de água da cidade, e hoje eu apertei a suas mão na rua, isso implica que, eu também estou perdido.” (p. 75)

“Seja dono apenas aquilo que você possa carregar consigo: conheça línguas, conheça países, conheça pessoas. Deixe que a sua memória seja a sua mala. Use a sua memória! Ela é a semente amarga que algum dia poderá germinar e crescer.” (p. 516)

“Extensões delgadas de vidas humanas se estendem de uma ilha para outra no Arquipélago. Elas se enroscam, se tocam umas nas outras durante uma única noite em algum vagão semi-escuro que faz clique e claque assim como este e depois se separam para sempre. Coloque o ouvido no brando ruído dele e no clique-claque debaixo do vagão. Afinal de contas, é a roda da vida que está lá fora cliqueando e claqueando.” (p. 517)

“A natureza humana, se é que ela muda, não muda mais rápido do que a camada geológica da Terra. E, as mesmas sensações de curiosidade e prazer de avaliação que os mercadores de escravos sentiam nos mercados de escravas de vinte e cinco séculos atrás, eram sentidas pelos chefões do Gulag lotados na Prisão Usman em 1947, quando eles, duas dúzias de homens trajando o uniforme da MVD, se sentaram ao redor de diversas mesas cobertas por toalhas (uma expressão da própria importância, caso contrário poderia parecer estranho), e todas as prisioneiras eram obrigadas a se despir num cubículo ao lado e a caminhar descalças e nuas em frente a eles, virar, parar, e responder perguntas. ‘Abaixe as mãos,’ eles ordenavam àquelas que adotavam a pose defensiva de uma escultura clássica. (Afinal de contas, esses oficiais estavam muito seriamente selecionando parceiras de cama para si próprios e para os seus colegas).” (p. 562)

“E como você pode entregá-la [a verdade] a eles? Por uma inspiração? Por uma visão? Um sonho? Irmãos! Gente! Por que a vida lhes foi dada? Na calada funda e surda da meia-noite, as portas das celas da morte são abertas – e pessoas de boa alma são levadas para fora para serem fuziladas. Em todas as estradas de ferro do país, neste minuto, agora mesmo, pessoas que acabam de ser alimentadas com arenques salgados lambem os lábios secos com línguas amargas. Elas sonham com a felicidade do esticar das pernas e o alívio que sentem depois de ir ao banheiro. Em Orotukan, o solo só descongela durante o verão e apenas por três pés – e só então eles conseguem enterrar os ossos daqueles que morreram durante o inverno.” (p. 591)

Uma das verdades que você aprende na prisão é que o mundo é pequeno, muito pequeno mesmo. É verdade, o Arquipélago Gulag, embora se estendesse por toda a União Soviética, teve muito menos habitantes que o total da União Soviética. Quantos havia de fato no Arquipélago não se pode afirmar ao certo. Podemos presumir que, em qualquer momento, não havia mais do que doze milhões nos campos (pois se alguns haviam partido para debaixo da terra, a Máquina continuava a trazer substitutos). E não mais que a metade deles eram políticos. Seis milhões? Bem, aquilo era um pequeno país, uma Suíça ou uma Grécia, onde muitas pessoas se conhecem. E é bem natural que quando você chegasse em uma cela qualquer de uma prisão qualquer, e escutasse e conversasse, você certamente descobriria que tinha conhecidos em comum com alguns dos seus companheiros de cela. (p. 595-596)

…Eu era um Marxista… /…Mas, o meu primeiro ano como prisioneiro deixou as suas marcas dentro de mim – precisamente, quando foi que isso aconteceu? Eu não percebi: houve tantos eventos novos, visões e significados que eu já não podia mais afirmar: ‘Eles não existem! Isso é uma mentira dos burgueses!’ E agora eu tive que admitir: ‘Sim, existem’. E precisamente naquela altura toda a minha linha de raciocínio começou a enfraquecer, e assim, eles podiam vencer-me nas discussões sem o menor esforço. (p. 602)

Jo Pires-O’Brien é editora de PortVitoria, revista da cultura ibérica no mundo.

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Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

“No coração de todas as pessoas há uma batalha constante entre o bem e o mal” A Solzhenitsyn

Apenas recentemente eu tive a oportunidade de ler O Arquipélago Gulag, o famoso livro de Alexander Solzhenitsyn sobre os ‘gulags’ da União Soviética, campos e colônias de trabalho forçado por onde passaram cerca de 14 milhões de pessoas, detidas tanto por crimes ordinários e pequenas infrações quanto por motivos políticos. Embora Solzhenitsyn tivesse usado o termo ‘gulag’ nesse sentido, o termo ‘Gulag’ é um acrônimo para Alta Administração dos Campos e Colônias de Trabalho Corretivo do Comissariado do Povo Para Assuntos Internos (NKVD), a agência do governo soviético encarregada dos campos de trabalho forçado, criada oficialmente em 1930 e extinta em 13 de Janeiro de 1960. Escrito entre 1958 e 1968, O Arquipélago Gulag é um registro da arbitrariedade e da violência do regime implantado em 1917 na União Soviética. Solzhenitsyn mostra que já existiam campos e colônias de trabalho forçado antes de 1930 e que Lenin também havia cometido o mesmo tipo de violência que Stalin, embora numa escala menor.

Alexander Solzhenitsyn nasceu em Kislovodsky, no sudoeste da Rússia e perto da fronteira com a Georgia, em 11 de dezembro de 1918, tendo estudado matemática na Universidade de Rostov. Durante a Segunda Guerra Mundial Solzhenitsyn serviu no Exército Vermelho e chegou à categoria de capitão de artilharia. Apesar de ter sido condecorado por bravura, em 1945 ele foi preso e condenado por ter criticado Joseph Stalin numa carta a um amigo, quando foi mandado para um campo de trabalho forçado no Cazaquistão.

O primeiro livro de Solzhenitsyn foi Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, cujo cenário era um campo de trabalho forçado soviético, foi publicado em 1962, durante o governo de Khrushev. Entretanto, o livro foi posteriormente banido depois da queda de Khrushev em outubro de 1964. Os próximos dois livros de Solzhenitsyn, The First Circle (O Primeiro Círculo) (1968) e Cancer Ward (A Enfermaria do Câncer) (1968) também foram banidos. Em 1970, Solzhenitsyn ganhou o Premio Nobel de Literatura mas o governo soviético não lhe deu permissão para ir a Estocolmo para recebê-lo. O seu próximo livro foi o romance Agosto de 1914, sobre a Primeira Guerra Mundial, publicado em 1971 fora da União Soviética. Em 1973 Solzhenitsyn publicou O Arquipélago Gulag, fora da União Soviética, motivo pelo qual ele foi acusado de traição e deportado. Já nos Estados Unidos, Solzhenitsyn escreveu Lenin in Zurich (1975), The Oak and the Calf (1980) e The Mortal Danger (1983). Após sua morte em 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade, Solzhenitsyn teve um funeral com honras de Estado e foi enterrado no cemitério de Donskoy em Moscou.

Depois que Nikita Khruschev denunciou as arbitrariedades de Stalin inicialmente no 20º Congresso do Partido reunido em fevereiro de 1956, e depois no 22º Congresso em outubro de 1961, a imprensa começou a divulgar o assunto. Durante o seu governo Khrushev, que durou até outubro de 1964, Solzhenitsyn e outros autores críticos de Stalin conseguiram publicar seus livros na União Soviética. Entretanto, Solzhenitsyn achava que as informações que haviam sido disseminadas representavam apenas uma verdade parcial e que não bastavam para desagravar as pessoas que perdido suas liberdades e suas vidas nos gulags. Depois da substituição de Khruschev por Leonid Brezhnev, houve um retrocesso na liberdade de imprensa, causada pelo receio das consequências de um confronto entre os que desejavam reabilitar a imagem histórica de Stalin e os que desejavam colocá-lo no banco dos réus.

Solzhenitsyn enfrentou uma enorme pressão para não desenterrar o passado, inclusive por parte da Associação de Escritores de Moscou. Entretanto, ele insistiu na importância de trazer a verdade à tona e atribui a maldade dos homens à ideologia, como mostra o trecho abaixo retirado de O Arquipélago Gulag:

“Ideologia é aquilo que dá ao malefício a justificativa tão procurada e ao malfeitor a determinação e a sustentação necessárias. É esta a teoria social que ajuda a fazer com que os seus atos pareçam bons ao invés de maus, aos seus próprios olhos e aos olhos dos outros, de forma que ele não ouvirá repreensões e maldições mas receberá elogios e honrarias. Foi assim que os agentes da Inquisição fortificaram as suas vontades: invocando a Cristianismo; os conquistadores de terras estrangeiras, louvando a grandeza da Pátria Mãe; os colonizadores, a civilização; os Nazistas, a raça; e os Jacobinos (do início e do fim), a igualdade, a irmandade, e a felicidade das gerações futuras. Foi graças à ideologia que o século vinte foi fadado a experimentar malefícios numa escala calculada em milhões. Isso não pode ser negado, ignorado ou suprimido. Como é então que nós nos atrevemos a insistir que os malfeitores não existem? E quem foi que destruiu esses milhões de pessoas? Sem malfeitores não teria existido o Arquipélago.”

Para escrever O Arquipélago Gulag Solzhenitsyn juntou à sua própria experiência as informações obtidas de inúmeros depoimentos de prisioneiros e outras narrativas. Após ter sido expulso da Associação de Escritores de Moscou e m 1974 ele também foi expulso da União Soviética, quando obteve asilo político nos Estados Unidos e foi morar em Vermont. Solzhenitsyn retornou à Rússia em 1994, depois que Mikhail Gorbachev lhe restituiu a cidadania e retirou a acusação de traição, o que é bastante sugestivo do enorme apego dele à sua pátria natal.

P.S. O psicólogo e intelectual público canadense Jordan Peterson prefaciou uma nova edição dO Arquipélago Gulag e costuma citar Solzhenitsyn em suas palestras.  Para Peterson, Solzhenitsyn foi quem causou o colapso da União Soviética documentando a carnificina e crueldade dos campos de trabalho forçado soviéticos. Assista esse video.

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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