Sobre o colapso da União Soviética

Jo Pires-O’Brien

Para Yale Richmond, um escritor e um ex-diplomata americano que serviu na União Soviética, Polônia e Alemanha, a causa do colapso da União Soviética em 1991 foi o intercâmbio cultural firmado com os Estados Unidos em 1958, que permitiu com que mais de cinquenta mil cidadãos soviéticos visitassem os Estados Unidos e algumas dezenas de milhares visitassem a Europa Ocidental. Segundo Richmond, até a implantação desse intercâmbio cultural em 1958, a Cortina de Ferro havia permanecido impenetrável e as informações sobre o Ocidente eram cuidadosamente controladas. A maior parte dos russos julgavam ter um padrão de vida superior àquele dos Estados Unidos e dos outros países ricos do Ocidente. Aos poucos, os visitantes russos que retornavam do Ocidente trouxeram outras informações, que prepararam o cenário para as reformas implementadas por Mikhail Gorbachev.

Um fenômeno equiparável ao intercâmbio cultural acima mencionado, foi o intercâmbio espontâneo que levou diversos membros da Esquerda Latina que eram perseguidos pelas diversas ditaduras militares a se refugiarem noutros países incluindo os Estados Unidos. Para esses companheiros mais esclarecidos da Esquerda Latina, a ficha da utopia Marxista também caiu bem antes de 1991.

Após o colapso da União Soviética a Rússia decidiu disponibilizar para a pesquisa histórica os arquivos do antigo regime. A maior parte das falsidades e meias-verdades produzidas pela colossal máquina de propaganda soviética já foi explicada. Robert John Service (1947-), um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra, escreveu a trilogia biográfica de Lênin, Stalin e Trotsky, reunindo as informações biográficas contidas dos arquivos soviéticos com as demais informações históricas, filosóficas e sociológicas da literatura. Nessa trilogia Service procurou corrigir as distorções existentes, dando ênfase aos aspectos pouco conhecidos dos biografados e aos seus perfis psicológicos.

A disponibilização dos arquivos soviéticos vem também esclarecendo a extensão dos braços do Comintern nos Estados Unidos, Canadá e na América Latina, bem como os seus contatos nessas regiões. Até que a verdade chegue aos movimentos de trabalhadores, a utopia Marxista continuará ajudando os líderes populistas latinos, perpetuando a esquizofrênica combinação de política de esquerda com economias capitalistas.


Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria: www.portvitoria.com – revista eletrônica dedicada às comunidades falantes de português e espanhol de todo o mundo.

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As internacionais comunistas

Jo Pires-O’Brien

A publicação do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels em 1848 causou um rebuliço nos movimentos sindicais de todo o mundo. Em resultado do ativismo de Marx e outros teóricos do socialismo, os sindicatos de trabalhadores se organizaram internacionalmente, e, passaram a promover os Congressos Internacionais de Trabalhadores, conhecidos inicialmente como ‘Internacionais’ e mais tarde como ‘Internacionais Comunistas’. Os internacionalistas, como os participantes das convenções internacionais eram chamados, não formavam um grupo uniforme, mas dividiam-se em facções.

O primeiro congresso internacional dos trabalhadores comunistas, também conhecido como Primeira (Socialista) Internacional, teve lugar em Londres, em 1864. O evento excluiu os sindicalistas ligados à organizações anarquistas e elegeu um Conselho Geral, composto de 32 membros, dentre os quais se achava Karl Marx, embora este não estivesse presente na mesma.

Apesar de vir sido planejada desde 1881 a Segunda (Socialista) Internacional ocorrida em Paris em 1889 foi feita em duas reuniões concomitantes, devido à divisão dos congressistas entre o grupo dos Possibilitas e os Marxistas. A maioria dos participantes franceses que apoiava os Possibilitas enquanto que a maioria dos alemães apoiava o Marxismo. Apesar da separação, a Segunda Internacional de 1889 encontrou alguns denominadores comuns: a chamada geral para o pacifismo e o antimilitarismo e a escolha do 1.º de maio para comemorar o dia do trabalhador. Também foi a partir desta reunião que começou o movimento para reduzir para 8 horas o dia de trabalho.

O movimento dos trabalhadores foi interrompido pela Primeira Guerra Mundial quando os diversos partidos socialistas abandonaram o édito do pacifismo e antimilitarismo e apoiaram seus países. Por acreditar que a revolução Marxista era um processo internacional e permanente e que apenas se consolidaria depois que os países industrializados fizessem as suas revoluções de trabalhadores, Lênin se posicionou contra o seu próprio país, pensando que uma Guerra Civil Europeia facilitaria a implantação do regime socialista em toda a Europa. A facção Bolchevista do POSDR (Partido Trabalhista Social Democrata da Rússia) sob o seu comando, deixou claro que não descartaria a violência e a luta armada para a implantação do regime socialista.
Já no poder, Lênin promoveu a terceira convenção internacional dos trabalhadores – designada Terceira Internacional Comunista, e esta criou o Comitê Executivo da Internacional Comunista, Comintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo.

A Terceira Internacional foi a mais famosa de todas as convenções internacionais de trabalhadores, e teve lugar em março de 1919 em Petrogrado – como São Petersburgo passou a ser chamada durante a guerra contra a Alemanha, pois o nome São Petersburgo era considerado demasiadamente teutônico. No evento foi criado o Comitê Executivo da Internacional Comunista, também conhecido como Comintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo. Seu objetivo declarado era ‘lutar com todos os meios disponíveis, incluindo a força armada, pela derrubada da burguesia internacional e pela criação de uma República Soviética internacional como um estágio de transição até a abolição completa do Estado’. O Comintern se estabeleceu em todo o mundo através da sua coordenadoria em Moscou.

A Quarta Internacional não foi um Congresso como os outros, pois envolveu apenas a facção dissidente ligada a Trotsky, e, não conseguiu reunir nem mesmo os trabalhadores americanos.

A história das Internacionais mostra claramente que eram conduzidas por intelectuais e não por trabalhadores, e que os intelectuais usavam a causa dos trabalhadores para resolver suas disputas de egos. A maioria dos trabalhadores comuns apenas queria viver em paz e dignamente. Até na Rússia os intelectuais que lideraram a revolução tiveram enorme dificuldades de persuadir os trabalhadores que a revolução socialista iria valer a pena para eles. O regime soviético entretanto foi mais chegado a uma autocracia do que à ditadura do proletariado.


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